As recentes movimentações diplomáticas e tarifárias dos Estados Unidos contra o Brasil não são meros ajustes comerciais, mas sim uma estratégia de "encurralamento" para conter o avanço chinês na América Latina e proteger a soberania tecnológica americana. Esta é a análise central do economista Vivaldo Lopes, que detalha como o Brasil se tornou um tabuleiro decisivo na disputa entre as duas maiores potências do mundo.
Para Lopes, o sucesso do Pix ultrapassou as fronteiras financeiras e atingiu o coração da estratégia americana. "O Pix é o melhor sistema de pagamento instantâneo do planeta e isso gera uma 'dor de cotovelo' tecnológica nos EUA", afirma. A ameaça é dupla: comercial, ao aposentar bandeiras de cartões como Visa e Mastercard e desbancar projetos de big techs como o WhatsApp Pay; e estratégica, ao oferecer uma alternativa ao sistema SWIFT.
"Se os BRICS adotarem o Pix para transações internacionais, os EUA perdem o controle sobre o fluxo financeiro global. Hoje, apenas Rússia, Irã e China operam fora do SWIFT. O Pix pode ser a ferramenta que faltava para o mundo se desvencilhar da hegemonia do dólar", explica o economista.
Minerais raros e a dependência da "fábrica do mundo"
Outro ponto de fricção são os minerais raros. Com a segunda maior reserva do planeta (atrás apenas da China), o Brasil é vital para a indústria de alta tecnologia e armamentos. Os EUA, despertados pela vulnerabilidade exposta na pandemia — onde 98% dos seus antibióticos e a totalidade dos chips vinham da China —, tentam agora garantir acesso às reservas brasileiras para reduzir a dependência de Pequim.
"Os EUA não respeitam a China, eles têm medo. Medo da dependência de medicamentos, de tecnologia e do fato de a China ser a maior credora da dívida americana. O Brasil entra nessa conta como um parceiro que os americanos querem manter subjugado para garantir suprimentos e evitar que nos tornemos um satélite chinês", analisa Vivaldo.
Impactos em Mato Grosso: Carne e Clima
No cenário regional, o economista alerta para as "picuinhas" da União Europeia, que suspendeu a importação da carne brasileira sob alegações sanitárias e ambientais. Para Lopes, trata-se de retaliação comercial após a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia. "Eles perderam no atacado e agora agridem no varejo, criando dificuldades para proteger produtores locais que não conseguem competir com a eficiência brasileira."
Somado ao protecionismo, o fator climático surge como uma ameaça real para 2026. A previsão de um El Niño severo, com secas prolongadas e chuvas fora de época, deve atingir em cheio a produção agropecuária. "Se afeta o agro nacional, afeta Mato Grosso, o campeão da produção. O governo precisa preparar o caixa, pois o impacto financeiro de quebras de safra e seguros agrícolas será fenomenal", conclui.
As informações são do economista Vivaldo Lopes, em entrevista à jornalista Michely Figueiredo (Cultura FM).






