OPINIÃO Quarta-feira, 03 de Junho de 2026, 15:20 - A | A

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DANILO MACENA

A geração refém de anabolizantes, pressa estética e redes sociais

Danilo Macena

Nutricionista esportivo e diretor da clínica Macena Saúde Suprema.

Conforme a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), 84% dos jovens que estão no último ano do ensino médio usaram anabolizantes para moldar a aparência física e melhorar o rendimento esportivo. O dado não pode ser tratado como uma estatística isolada. Ele revela uma distorção preocupante na forma como parte da juventude tem aprendido a se relacionar com o próprio corpo, com o esporte e com a ideia de sucesso físico. 

A busca por desempenho, força e definição muscular não é, por si só, um problema. A prática esportiva, quando bem conduzida, melhora a saúde, a autoestima, a disciplina e a qualidade de vida. O risco começa quando o corpo deixa de ser cuidado e passa a ser submetido a cobranças permanentes, como se aparência fosse prova de valor pessoal. 

Essa lógica se torna ainda mais perigosa quando jovens passam a enxergar os anabolizantes como atalhos aceitáveis para conquistar resultados rápidos. Como alerta o nutricionista esportivo Danilo Macena, diretor da Clínica Macena Saúde Suprema, o problema começa quando a pessoa sacrifica sono, saúde mental, relações sociais, exames laboratoriais e segurança física em troca de performance ou aparência. 

O mais grave é que muitos jovens não percebem o tamanho do risco. Esteroides anabolizantes não são substâncias simples, inofensivas ou meramente “estéticas”. O uso indevido pode estar associado a hipertensão, infarto, AVC, alterações cardíacas, infertilidade, acne severa, mudanças psiquiátricas e dependência psicológica. Portanto, tratar esses recursos como parte comum da rotina de academia é uma forma de banalizar danos que podem acompanhar a pessoa por toda a vida. 

Há também um aspecto emocional que precisa ser discutido com mais seriedade. Quando o físico é construído com substâncias e passa a depender delas para ser mantido, o resultado deixa de ser apenas corporal. Macena define esse processo como um “físico alugado”: uma imagem que parece permanente, mas que pode desaparecer quando o uso é interrompido. A consequência pode ser ansiedade, depressão, distorção de imagem e medo constante de perder aquilo que foi conquistado artificialmente. 

Nesse ponto, a discussão ultrapassa o campo da nutrição ou da medicina esportiva. Estamos diante de um problema cultural. Muitos jovens crescem comparando seus corpos com imagens de atletas, influenciadores e fisiculturistas que treinam há anos, usam recursos hormonais, recorrem a estratégias extremas e, em alguns casos, ainda contam com edição de imagem. A comparação é desleal desde o início. 

As redes sociais ampliam essa pressão. Nelas, corpos são exibidos como vitrines de sucesso, disciplina e desejo. Pouco se fala sobre bastidores, riscos, sofrimento, restrições, manipulações e consequências. O jovem que consome esse conteúdo diariamente pode começar a acreditar que saúde é sinônimo de aparência extrema. Não é. Saúde também envolve sono, equilíbrio hormonal, vida social, estabilidade emocional, exames adequados e capacidade de descansar sem culpa. 

Por isso, é necessário diferenciar dedicação esportiva de autodestruição. Disciplina não significa ignorar sinais do corpo. Alta performance não autoriza romantizar exaustão, isolamento, irritabilidade, compulsões alimentares, queda de libido ou obsessão com espelho e dieta. Quando o sofrimento passa a ser visto como símbolo de mérito, o esporte perde sua função de promover saúde e se transforma em instrumento de cobrança. 

O acompanhamento profissional, nesse cenário, não deve servir para reforçar atalhos, mas para orientar escolhas seguras. Alimentação adequada, treino bem planejado, sono reparador, exames laboratoriais e respeito ao biotipo são caminhos menos imediatos, porém mais sustentáveis. Resultados sólidos levam tempo, e essa talvez seja uma das mensagens mais difíceis de aceitar em uma cultura marcada pela pressa. 

É preciso dizer com clareza: nenhum padrão estético justifica colocar a vida em risco. O corpo não deve ser tratado como projeto de validação social, mas como parte essencial da saúde física e mental. Se exercício, alimentação e estética deixam de trazer benefícios e passam a produzir medo, dependência e perda de controle, o sinal de alerta já está dado. 

A juventude precisa de informação, referência responsável e educação sobre limites. Mais do que incentivar corpos maiores, mais definidos ou mais performáticos, é necessário defender corpos saudáveis, funcionais e possíveis. Afinal, uma aparência conquistada à custa da saúde não representa vitória. Representa um preço alto demais para um resultado que pode ser temporário.



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