"Desculpa o trabalho, mas Minas é muito pulverizado". Foi assim que o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha se dirigiu à servidora Mariângela Fialek, a Tuca, ao tratar do remanejamento de emendas para municípios mineiros. A frase está entre os diálogos extraídos do celular da funcionária pela Polícia Federal e que embasaram a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, de bloquear R$ 6,1 milhões em bens do ex-deputado.
Em outro trecho, Cunha desabafa: "Não aguento mais esses mineiros enrolados". O tom de autoridade, vindo de alguém que não ocupa mandato desde 2016, é o que mais chama a atenção dos investigadores. Para Dino, Cunha opera como "agente privado com poderes políticos equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício".
O esquema: 29 emendas, R$ 6,15 milhões
A decisão, assinada em 6 de julho e tornada pública no domingo (12), é um desdobramento da Operação Transparência. A PF identificou pelo menos 21 a 29 emendas parlamentares — o número varia conforme a fonte — que foram empenhadas e pagas com documentação "forjadamente documentada para escamotear o verdadeiro solicitante da indicação", nas palavras do ministro.
Os recursos eram direcionados a municípios de Minas Gerais, estado pelo qual Cunha pretende se candidatar a deputado federal em outubro. Em novembro de 2025, ele enviou a Tuca uma planilha intitulada "Minas lista 2" , com uma relação de municípios e valores destinados ao Ministério da Saúde que somavam R$ 5 milhões.
Em conversas ao longo de setembro de 2025, Cunha demonstra conhecimento direto sobre cada emenda. "Tô com problema em uma das emendas", escreve ele, orientando a servidora sobre os ajustes necessários. A PF aponta que os meses de outubro a dezembro de 2025 concentraram o desvio de pelo menos 29 emendas da Comissão de Saúde da Câmara, totalizando R$ 6,15 milhões.
"Consoante atestam diálogos em aplicativos de mensagens e numerosas planilhas compartilhadas entre os investigados, Eduardo Cosentino da Cunha, sem exercer mandato parlamentar, parece ter atuado, até muito recentemente, como mandante do (re)direcionamento de valores públicos, especialmente em prol de sua anunciada campanha ao cargo de deputado", escreveu Dino em sua decisão de 40 páginas.
O papel de Tuca e o aval da presidência da Câmara
Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, é servidora da Câmara dos Deputados e atuava como operadora do esquema. Segundo a PF, "tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas em favor de Eduardo Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto".
O atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), é apadrinhado político de Cunha. Apesar de o relatório da PF não citar nominalmente Motta, a referência ao "presidente da Casa" é inequívoca. No sábado (11), Motta saiu em defesa de Valdemar Costa Neto e classificou a decisão de Dino como "indevida intervenção judicial no Parlamento".
A defesa de Tuca, por sua vez, afirma que ela atuava de forma "estritamente técnica, apartidária e impessoal".
Conexão Valdemar Costa Neto: R$ 119 milhões
Mesma operação, mesma servidora, mesmo modus operandi. Na sexta-feira (10), Dino determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. A PF identificou que Valdemar teria destinado, por meio de Tuca, 21 emendas que somam quase R$ 120 milhões, entre junho de 2024 e março de 2026 — ele também não exerce mandato eletivo.
Segundo a coluna de Daniela Lima, no UOL, a PF afirma que Valdemar "atuava da mesma forma que Cunha, utilizando-se de parlamentares para formalizar indicações de emendas que, na verdade, partiam dele".
A defesa de Valdemar afirmou que a decisão se baseia em "premissas equivocadas" e que a atuação do ex-deputado se limitou a "atividade político-partidária legítima".
Hugo Motta também saiu em defesa de Valdemar. Disse que a decisão tenta "criminalizar a política" e que não identificou "desvio, abuso ou aplicação irregular de verbas públicas".
O silêncio dos bolsonaristas sobre Cunha, porém, foi notado. Enquanto Valdemar recebeu mobilização de aliados, Cunha — o algoz de Dilma Rousseff e articulador do impeachment de 2016 — ficou isolado.
Eduardo Cunha reagiu publicamente. Em postagens nas redes sociais, chamou a decisão de "cheia de mentiras" e disse que Dino "engoliu o relatório da PF".
A defesa, em nota, afirmou que Cunha "desconhece qualquer irregularidade" na tramitação das emendas, que ele não foi intimado antes da decisão e que "não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas". A nota sustenta que Cunha exerceu "legítima interlocução política" — e não um "mandato clandestino".
"A defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar."
O problema, como aponta Dino, é que essa "interlocução" movimentou milhões em verbas públicas e foi documentada em planilhas e mensagens que revelam comando direto sobre a destinação dos recursos — prerrogativa exclusiva de parlamentares em exercício.
O impacto na candidatura
Em janeiro de 2026, Eduardo Cunha anunciou que disputará uma vaga de deputado federal por Minas Gerais pelo Republicanos. Desde então, busca construir uma base eleitoral em um estado com o qual, segundo a PF e o próprio Dino, "nunca manteve vinculação política".
Em junho, encontrou-se com o senador Flávio Bolsonaro (PL) em Belo Horizonte. O pré-candidato à Presidência concedeu entrevista à rádio 89 Maravilha, ligada a Cunha.
A candidatura, porém, enfrenta obstáculos jurídicos que vão além do bloqueio de bens. Cunha foi cassado em 2016 por 450 votos a favor e 10 contra, condenado a 15 anos e 11 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Lava Jato — sentenças posteriormente anuladas pelo STF. A Lei da Ficha Limpa pode incidir sobre condenações de órgãos colegiados, e a nova investigação, se convertida em ação penal antes do registro da candidatura, pode inviabilizar a disputa.
O próprio Dino, em sua decisão, vinculou as emendas à "anunciada campanha ao cargo de deputado" — sugerindo que os recursos desviados alimentavam diretamente o projeto eleitoral.
O que a operação revela
A Operação Transparência expõe um sistema paralelo de distribuição de emendas parlamentares que, na visão da PF e do STF, operava à margem de qualquer controle institucional. Cunha e Valdemar Costa Neto — dois ex-deputados sem mandato, mas com enorme influência — demonstravam capacidade de direcionar milhões em verbas públicas utilizando servidores da Câmara e a complacência da presidência da Casa.
O ministro Flávio Dino não usou meios-termos. "O conjunto de elementos já permite concluir que Eduardo Cunha opera como agente privado com poderes políticos equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício, interferindo no direcionamento de recursos federais sem qualquer autorização institucional."
A frase ecoa como um diagnóstico de um sistema que, dez anos depois do impeachment, do Petrolão e da Lava Jato, ainda não conseguiu se blindar contra a captura privada do orçamento público.






