NOTICIÁRIO Terça-feira, 18 de Agosto de 2026, 11:50 - A | A

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ELEIÇÕES 2026

Pivetta vira alvo no primeiro debate entre candidatos

Mauro Camargo

Fernando Rodrigues

Debate candidatos Centro América Primeira Hora

O primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso não definiu vencedores, mas deixou mais claro o desenho inicial da campanha. Otaviano Pivetta (Republicanos) ocupou o centro do confronto, Wellington Fagundes (PL) assumiu a posição de adversário direto do governador e Natasha Slhessarenko (PSD) procurou apresentar-se como alternativa aos dois candidatos mais competitivos.

Promovido pela Centro América FM e pelo portal Primeira Página, o encontro reuniu apenas os três candidatos cujos partidos atendem ao critério de representação mínima no Congresso Nacional. Rafael Milas, Sargento Laudicerio e Maurício Coelho, também registrados para a disputa, ficaram fora.

Pivetta entrou no debate carregando simultaneamente a vantagem e o peso de representar o governo. Teve à disposição as realizações acumuladas pelo grupo que administra Mato Grosso desde 2019, mas precisou responder pelos problemas da gestão e pelas consequências políticas da Operação Heritage.

Essa condição fez do governador o principal alvo dos adversários. Natasha e Wellington adotaram estratégias diferentes, mas partiram da mesma premissa: para conquistar espaço, precisam transformar a eleição numa avaliação dos oito anos do ciclo Mauro Mendes-Pivetta.

Natasha escolheu a administração estadual como adversária. Questionou o preço e a qualidade das rodovias, as filas da saúde, a ausência de especialistas no interior, os índices de pobreza, a violência contra as mulheres e o ritmo da industrialização.

A candidata procurou estabelecer uma ligação entre a prosperidade econômica de Mato Grosso e a dificuldade do governo de converter essa riqueza em serviços públicos e proteção social. Foi quando recuperou imagens politicamente fortes, como a “fila do ossinho”, e contrapôs os indicadores apresentados pelo governo à realidade de famílias que ainda enfrentam pobreza, insegurança alimentar e demora no atendimento médico.

Pivetta respondeu recorrendo às entregas da gestão. Afirmou que o Estado construiu aproximadamente 7 mil quilômetros de novas rodovias, destacou hospitais regionais, centros de diagnóstico, investimentos em infraestrutura e a recuperação financeira iniciada em 2019.

O governador reconheceu problemas pontuais nas estradas e admitiu que a saúde ainda precisa melhorar. Sua linha central, entretanto, foi a defesa da continuidade: Mato Grosso teria reorganizado suas contas, recuperado a capacidade de investimento e iniciado um ciclo de obras que agora precisa ser consolidado.

Essa foi a principal diferença entre Pivetta e Natasha. Enquanto o governador apresentou estrutura física, investimentos e crescimento como evidências de avanço, a candidata cobrou os resultados que essas obras deveriam produzir na vida cotidiana.

Natasha foi quem encontrou maior oportunidade proporcional de exposição. Ainda aparece atrás de Wellington e Pivetta nas pesquisas, mas dividiu o mesmo espaço com os dois principais candidatos e conseguiu apresentar uma identidade própria, fortemente associada à saúde e às políticas sociais.

Isso não autoriza concluir que tenha vencido o debate ou ampliado sua intenção de voto. O encontro apenas lhe ofereceu uma oportunidade para aumentar o conhecimento sobre sua candidatura e tentar romper a tendência de polarização entre Pivetta e Wellington.

O confronto mais intenso ocorreu entre os dois.

Pivetta já havia escolhido Wellington como alvo antes mesmo do início oficial da campanha. No debate, aprofundou essa estratégia. Associou o senador ao governo Silval Barbosa, questionou sua influência sobre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes e fez acusações sobre sua relação com obras rodoviárias federais.

Ao perguntar se Wellington pretendia “voltar à cena do crime”, Pivetta ultrapassou a crítica administrativa e entrou no terreno das imputações políticas de maior gravidade. Também afirmou que o adversário teria sido afastado da influência sobre o DNIT durante o governo Bolsonaro e atribuiu a ele interesse econômico na liberação de recursos para rodovias.

Wellington negou as acusações, cobrou provas e obteve direito de resposta. Sustentou que colaborou com diferentes governos de Mato Grosso e afirmou ter destinado R$ 3 bilhões ao Estado por meio do FEX.

No debate, as declarações funcionaram como instrumentos de uma disputa política que tende a ficar mais agressiva.

Wellington procurou devolver Pivetta ao campo da defesa. Citou investigações envolvendo o grupo governista, mencionou a Operação Heritage e acusou a administração de favorecer um conjunto restrito de empresas em obras públicas.

Nos segundos finais, anunciou que sua coligação havia protocolado uma ação para impugnar o registro de Pivetta. A referência ao antigo caso da aquisição de unidade móvel de saúde em Lucas do Rio Verde transformou uma controvérsia jurídica em mensagem eleitoral.

A impugnação tem fundamento em decisão do Tribunal de Contas da União, mas ainda será examinada pelo Tribunal Regional Eleitoral. A existência da ação não torna Pivetta inelegível nem representa decisão contra seu registro. A defesa deverá ser ouvida, e o resultado dependerá principalmente da avaliação sobre o dolo exigido pela legislação eleitoral.

Ao levar o tema para o debate, Wellington buscou fixar uma associação entre a candidatura de continuidade e processos de responsabilização. Pivetta, por sua vez, procurou atribuir ao adversário relações com governos anteriores e supostos interesses na destinação de recursos públicos.

A campanha começa, assim, a produzir dois movimentos paralelos. Um deles discute o desempenho de Mato Grosso em infraestrutura, saúde, desenvolvimento econômico, segurança e proteção social. O outro disputa o passado político, as investigações e a integridade dos grupos que pretendem governar o Estado.

A pauta das mulheres conseguiu abrir uma terceira frente. Feminicídio, violência doméstica, acolhimento e autonomia financeira estiveram entre os temas mais presentes. Natasha e Wellington defenderam a criação de uma Secretaria da Mulher, enquanto também apareceram propostas de delegacias especializadas 24 horas, casas regionais de acolhimento, auxílio emergencial e ações preventivas nas escolas.

Esse debate programático foi importante, mas ainda insuficiente para demonstrar viabilidade financeira, estrutura administrativa e prazos de execução. A comparação entre as propostas precisará avançar além das declarações feitas diante das câmeras.

O primeiro encontro não reorganizou a eleição, mas revelou como cada candidato pretende disputá-la.

Pivetta quer transformar o crescimento, o equilíbrio fiscal e as obras em argumentos para completar um ciclo de 12 anos iniciado por Mauro Mendes. Wellington aposta no desgaste da continuidade e procura converter a Heritage e outros passivos do grupo governista em razões para a mudança. Natasha tenta convencer o eleitor de que a escolha não precisa ficar restrita aos dois.

O debate abriu a campanha real. A partir de agora, cada acusação precisará ser provada, cada número deverá ser conferido e cada proposta terá de responder a uma pergunta simples: como será executada?

Nota de Transparência

Esta matéria foi produzida a partir da transmissão do debate promovido pela Centro América FM e pelo Primeira Página em 18 de agosto de 2026, complementada pela consulta à transcrição temática divulgada pelo próprio organizador. As declarações dos candidatos foram tratadas como posições de campanha, não como fatos automaticamente comprovados. A análise sobre as estratégias dos candidatos é interpretação editorial do Nossa República, conforme os princípios de transparência, rastreabilidade e separação entre fato e análise do SEI-NR.



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