NOTICIÁRIO Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026, 11:02 - A | A

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DIREITOS HUMANOS

População em situação de rua cresce 19% em Mato Grosso e enfrenta abandono

Mauro Camargo

O número de pessoas em situação de rua em Mato Grosso cresceu 19% em apenas um ano, segundo dados oficiais. Para entender as causas desse aumento e os desafios enfrentados por essa população, a jornalista Michely Figueiredo conversou, no Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7), com Rúbia Cristina de Jesus, coordenadora do Movimento Nacional da População em Situação de Rua no estado.

Com fala firme e marcada pela vivência pessoal de quem passou mais de duas décadas nas ruas, Rúbia descreve um cenário que combina desestrutura familiar, desemprego, adoecimento emocional, idosos endividados, preconceito e ausência de políticas públicas consistentes. Segundo ela, esse não é um fenômeno isolado de Mato Grosso. “O crescimento é nacional. Falta estrutura, falta apoio e falta olhar humano”, afirma.

Ela explica que muitas pessoas que hoje estão nas ruas tiveram emprego, casa e estabilidade, mas se viram incapazes de manter a própria sobrevivência após crises financeiras ou perdas emocionais. Idosos endividados com bancos, por exemplo, são parte crescente desse grupo. “Tem idoso que nem sabe ler e assina empréstimo sem entender. Quando vê, tá recebendo muito pouco e não consegue se manter acaba na rua”, relata.

Um ponto central da entrevista foi a saúde mental, que Rúbia classifica como “um dos maiores gatilhos” para a queda na rua. “Depressão, ansiedade, esgotamento… muita gente adoece em silêncio. E ainda tem quem diga que é frescura”, critica. Para ela, o tabu em torno do sofrimento psicológico impede que muitas pessoas busquem ajuda antes que a situação se agrave.

Rúbia também desmonta o estereótipo de que pessoas em situação de rua são “marginalizadas por uso de álcool e drogas”. Segundo ela, isso simplifica uma realidade muito mais complexa. Entre os que vivem nas ruas, há trabalhadores qualificados, artistas, profissionais formados, pedreiros, pintores e ex-funcionários públicos. “Quando a pessoa cai na rua, ela perde as oportunidades. O preconceito impede até de entregar currículo.”

Ela destaca que a maioria da população de rua é composta por pessoas negras, muitas vezes acompanhadas por pessoas LGBTQIA+ expulsas de suas famílias. “Tem muita violência dentro dos albergues. Tem trabalhadoras que não respeitam a identidade de gênero. Uma mulher trans chega lá e querem tratá-la como homem”, denuncia.

Para Rúbia, a habitação deve ser prioridade absoluta. Ela critica o fato de que nenhuma pessoa em situação de rua de Cuiabá foi contemplada na cota de 3% do Minha Casa, Minha Vida. “Dizem que a pessoa vai pegar a casa e vender. Como vai vender algo que nunca teve? Ninguém tá na rua porque quer”, afirma.

Ela ainda denuncia a precariedade do atendimento no Centro Pop, que considera insuficiente para a demanda atual. “Cuiabá precisava de pelo menos três Centros Pop. Hoje ele funciona só até as 14h, sem estrutura adequada. Dois anos de reforma que nunca terminam”, reclama.

Outro problema grave é o direcionamento automático das unidades de saúde para o Consultório na Rua, que segundo ela é fundamental, mas insuficiente. “Como a pessoa volta com o exame se não sabe onde o consultório estará no dia seguinte?”, questiona. Ela conta que já pediu para que a equipe divulgue os locais de atendimento diariamente, pois isso evita que pessoas percam exames e tratamentos.

A violência policial é outro ponto sensível. Rúbia relata agressões recorrentes no centro e em avenidas onde a população tenta dormir. “Mulheres e idosos são revistados por policiais homens, gente sendo espancada. A única política que funciona em Mato Grosso pra população em situação de rua é a segurança pública — mas pra bater”, denuncia.

Sobre propostas como oferecer passagens para retornar a famílias distantes, ela foi direta: “Isso não é política pública. A maioria é adulta, idosa, independente. Muitas foram pra rua justamente por conflitos familiares.”

Para ela, a saída real envolve moradia, acompanhamento e oportunidade de trabalho. “Eu estou aqui porque um dia me deram uma chance. Igual a mim, muita gente pode sair da rua. Falta acreditar”, afirma.

 



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