Por muito tempo, a chegada dos 40 anos foi encarada como um marco de perdas para as mulheres. Em uma sociedade que valoriza a juventude e impõe padrões rígidos de beleza, envelhecer costuma ser associado ao declínio. Mas, para a psicóloga Anita Faria, a realidade pode ser justamente o oposto: a maturidade representa uma das fases mais poderosas da vida feminina.
Durante entrevista ao programa Papo com Ela, Anita explicou que o período conhecido popularmente como "Idade da Loba" marca uma profunda transformação emocional, psicológica e até profissional, levando muitas mulheres a reavaliarem escolhas e redefinirem seus caminhos.
"A mulher passa a ter mais consciência sobre si mesma, sobre seus limites, desejos e necessidades. É uma fase em que ela ganha autonomia para mudar a direção da própria vida", afirma.
Segundo a especialista, as mudanças começam a se tornar mais evidentes por volta dos 40 anos, quando transformações hormonais e emocionais provocam questionamentos que antes eram deixados em segundo plano.
"É comum que a mulher perceba que não está feliz no trabalho, que deseja mudar de carreira ou que precisa fazer ajustes importantes nos relacionamentos. Não necessariamente significa romper, mas repensar aquilo que já não faz sentido", explica.
A psicóloga destaca que não é coincidência o número crescente de mulheres que decidem empreender, voltar a estudar ou iniciar uma nova carreira nessa fase da vida. Pesquisas já apontaram que muitas transições profissionais acontecem justamente entre os 40 e 45 anos, período em que o amadurecimento emocional favorece decisões mais alinhadas aos valores pessoais.
"Essa mulher passa a se apresentar de uma forma nova para o mundo. Ela entende que ainda pode construir novos caminhos e que não está condenada a permanecer em situações que já não a fazem feliz", afirma.
Embora a maturidade traga oportunidades de crescimento, Anita alerta para os impactos psicológicos da busca incessante por padrões de juventude e perfeição. Conforme a psicóloga, a comparação constante alimentada pelas redes sociais pode gerar frustração, baixa autoestima e vulnerabilidade emocional. "Quando a mulher tenta alcançar padrões impostos pela sociedade ou pela mídia, ela corre o risco de se desconectar de quem realmente é. Isso pode gerar culpa, tristeza e a sensação permanente de fracasso", observa.
Destaca ainda que essa fragilidade emocional pode abrir espaço para relacionamentos abusivos e tóxicos. "Mulheres emocionalmente vulneráveis acabam ficando mais suscetíveis à manipulação e a relações que causam sofrimento. O autoconhecimento funciona como um fator de proteção."
Mulheres que apoiam mulheres
Um dos caminhos para atravessar essa fase de forma mais saudável, segundo Anita, é fortalecer a convivência com outras mulheres. Ela cita o sucesso crescente dos grupos de leitura inspirados no livro Mulheres que Correm com os Lobos, obra que se tornou referência para reflexões sobre o feminino, autoestima e desenvolvimento pessoal.
"A troca entre mulheres fortalece emocionalmente. Quando a gente escuta histórias parecidas com as nossas, percebe que não está sozinha e passa a olhar para a vida com mais realidade e menos comparação", afirma.
Para a especialista, encontros femininos, grupos terapêuticos, atividades coletivas e conversas sinceras ajudam a construir uma rede de apoio fundamental para enfrentar os desafios da maturidade.
Se por um lado os 40 anos trazem mudanças corporais e emocionais, por outro oferecem algo que muitas mulheres não tinham aos 20 ou 30: clareza. "A gente ganha consciência de si mesma. Aprende a dizer não, estabelece limites e entende melhor o que deseja para a própria vida", explica Anita.
Ela acredita que a coragem é uma das maiores conquistas da maturidade. "Coragem também é uma conquista. É o resultado de experiências, autoconhecimento, terapia, leitura, atividade física e convivência saudável."
Nunca é tarde para recomeçar
Ao longo da entrevista, Anita reforçou uma mensagem que costuma repetir às suas pacientes: não existe prazo de validade para a felicidade. Segundo ela, muitas mulheres encontram novos amores, mudam de profissão, retomam sonhos antigos ou descobrem talentos depois dos 40, 50 ou até 60 anos. "Algumas pessoas acreditam que perderam o momento certo da vida. Mas isso não é verdade. Sempre é possível recalcular a rota, aprender algo novo e construir uma história diferente."
Para a psicóloga, a chamada Idade da Loba não deve ser encarada como o início do envelhecimento, mas como um convite para que a mulher finalmente ocupe o centro da própria vida. "É uma fase de poder, autonomia e consciência. Quanto mais a mulher se conhece, mais livre ela se torna para viver de acordo com aquilo que realmente deseja."
Assista à entrevista na íntegra:






