O Brasil não pode tratar tentativa de golpe como excesso retórico, descontrole de rua ou “episódio político”. Golpe é projeto. E projeto de golpe, quando encontra multidão, logística, financiamento, comando e conivência, vira método.
Os condenados pelos ataques de 8 de janeiro e pelos núcleos que sustentaram a tentativa de ruptura não são “vítimas do momento”. São responsáveis por uma escolha: atacar instituições, desautorizar o voto e testar a resistência do Estado Democrático de Direito.
Por isso, defender punição rigorosa não é defender vingança. É defender um princípio simples: crime contra a democracia é crime contra todos. Não existe país estável onde destruir as regras do jogo não tenha consequência.
A conversa sobre anistia é mais do que uma disputa legislativa. É um recado pedagógico ao futuro. Se a tentativa de golpe termina em perdão, o próximo passo do extremismo deixa de ser “se” e passa a ser “quando”.
O chamado PL da Dosimetria, vendido como “correção” ou “equilíbrio”, corre o risco de virar o atalho que a história brasileira conhece bem: reduzir a gravidade do ataque institucional até que ele caiba numa nota de rodapé, numa pena simbólica, numa desculpa confortável.
A democracia não sobrevive de boas intenções; ela sobrevive de limites. E limites exigem lei aplicada, pena cumprida, responsabilização individual e rastreio de cadeias de comando e financiamento. Quem arquitetou, quem incentivou, quem bancou, quem executou: cada um responde pelo que fez.
O Brasil também precisa dizer com clareza que fé não é ferramenta de recrutamento. Explorar a crença de pessoas simples para empurrá-las à desinformação e ao ódio não é “liberdade religiosa”; é instrumentalização política, é abuso, é cinismo com rosto de devoção.
A máquina de manipulação que alimenta o extremismo não funciona sozinha. Ela vive de fake news, de redes operadas como fábrica de indignação, de vídeos fora de contexto, de teorias repetidas até parecerem verdade, de medo travestido de patriotismo.
A direita brasileira tem todo o direito de ser direita — e o país precisa de oposição, de fiscalização, de debate de ideias. Mas o direito de fazer política não inclui o direito de sabotar a democracia quando perde a eleição.
A tarefa civilizatória, agora, é separar conservadorismo legítimo de golpismo, liberalismo de linchamento digital, crítica institucional de campanha de destruição. Criticar governo, Congresso e Supremo é parte do jogo democrático. Tentar quebrar o tabuleiro não é.
O 8 de janeiro não pode se repetir. Não por memória ornamental, mas por autopreservação nacional. Um país que normaliza invasão, depredação e intimidação transforma a política em ameaça permanente — e, depois, estranha quando a economia trava, quando o investimento foge, quando a confiança social desmancha.
E que ninguém se engane: o autoritarismo não é um “sotaque local”. Ele circula. Ele aprende. Ele testa limites em vários países e reaparece com novas embalagens, usando Estado, redes, polícia, tribunais capturados, propaganda e perseguição.
O que se vê em setores da extrema direita internacional — com discurso de força, hostilidade a imigrantes, pressão sobre países e bravatas geopolíticas que chegam a flertar com ideias como anexações — serve de alerta sobre como o radicalismo tenta se impor quando encontra terreno fértil.
Na América Latina, a tentação intervencionista e a retórica de “soluções de força” nunca estiveram totalmente fora de cena. Quando a política vira guerra, o próximo passo costuma ser a violação de direitos, a desumanização do adversário e a naturalização da violência.
O Brasil precisa escolher o caminho oposto: lei, civilidade, instituições, voto, debate público baseado em fatos. Isso não é ingenuidade. É maturidade democrática.
Anistiar golpistas — ou criar atalhos legislativos para suavizar a resposta do Estado — é ensinar que o crime compensa, desde que venha embrulhado em bandeira e grito. A democracia não pode se dar esse luxo.
Se a direita quer voltar a governar, que faça o que toda força política séria faz: apresente projeto, formule ideias, dispute eleições, respeite a derrota quando ela vier e respeite a vitória quando ela não for sua. O resto é atalhar a história para o lugar mais escuro.
O país não precisa de novos salvadores. Precisa de cidadãos. Precisa de instituições que funcionem. E precisa que a lei alcance quem tentou transformar o Brasil em refém.





