O avanço das facções criminosas em Mato Grosso estabeleceu uma correlação direta com o aumento dos índices de feminicídio no estado. O alerta foi feito pelo delegado de Polícia Civil, Mário Demerval, coordenador de Polícia Comunitária, ao apontar que os municípios onde o crime organizado mais expandiu seu domínio territorial são, simultaneamente, os que apresentam as estatísticas mais críticas de assassinatos de mulheres.
A análise do perfil das vítimas revela que muitas possuem vínculos diretos ou indiretos com o contexto das organizações criminosas. Segundo o delegado, a desordem familiar e os relacionamentos inseridos nesse ambiente de criminalidade geram uma instabilidade que culmina na violência letal. Cidades como Sorriso, Lucas do Rio Verde e Confresa foram citadas como pontos de atenção onde a taxa per capita de feminicídios é alarmante.
Para Demerval, o enfrentamento ao problema exige uma mudança de paradigma. Embora a estrutura de defesa da mulher tenha se expandido — com a criação de delegacias especializadas e o endurecimento de penas para até 40 anos de reclusão —, os índices continuam subindo. A avaliação é que o foco das instituições tem sido o problema (a punição e o acolhimento da vítima), enquanto a solução real passaria pelo tratamento do causador: o homem.
O projeto Papo de Homem pra Homem e a reincidência zero
Como alternativa para estancar a violência, a Polícia Civil mantém desde 2014 o projeto Papo de Homem pra Homem, que ganhou caráter institucional em 2019. Por meio de um termo de cooperação firmado com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) em 2021, homens vinculados a medidas protetivas na Região Metropolitana são obrigados a frequentar grupos reflexivos na Academia de Polícia.
Os resultados estatísticos do programa são expressivos. A taxa de reincidência entre os participantes não supera 3%, e o dado mais relevante destacado pelo delegado é que não há registro de nenhum feminicida entre os cerca de três mil homens que passaram pelo projeto. O curso funciona como uma etapa obrigatória para o cumprimento da medida protetiva, sob pena de prisão em caso de descumprimento.
A dinâmica consiste em 15 horas de atividades, divididas em três dias. O grupo é multidisciplinar, contando com a participação de policiais, juízes, promotores, médicos, psicólogos e assistentes sociais. O objetivo é promover uma reflexão profunda sobre comportamentos inadequados, vícios culturais e o desconhecimento da lei, buscando desconstruir a ideia da mulher como propriedade.
A mentalidade do agressor e o tribunal do crime
O comportamento dos homens ao chegarem ao projeto é marcado por indignação e vergonha. Muitos desconhecem o teor das medidas protetivas contra si ou os detalhes da Lei Maria da Penha. Durante as sessões, o foco é a orientação pedagógica em vez da repressão pura, permitindo que o agressor compreenda as consequências de seus atos para a família e a sociedade.
Demerval ressaltou que o feminicida, na maioria das vezes, age por impulso e explosão emocional, sem realizar o cálculo da pena. O delegado citou casos de extrema violência, como atropelamentos motivados por ciúmes, para ilustrar que o agressor, no momento do crime, ouve apenas o próprio "ego ferido". A influência de grupos misóginos e a cultura do ódio disseminada em redes sociais também foram apontadas como combustíveis para comportamentos covardes.
A Polícia Civil também monitora a interseção entre a violência doméstica e o sistema de facções. Em algumas comunidades, crianças crescem em ambientes onde a agressão contra a mulher é naturalizada ou onde o "tribunal do crime" dita as regras de convivência. Esse cenário exige que o trabalho de conscientização seja transversal, alcançando escolas e empresas para prevenir o delito antes que ele ocorra.
Além dos grupos reflexivos, a tecnologia tem desempenhado papel crucial na preservação de vidas. O Botão do Pânico, produto desenvolvido pela Polícia Civil em parceria com o Judiciário, registrou mais de 500 acionamentos no último ano. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, foram mais de 100 alertas, sinalizando que centenas de mulheres em situação de risco iminente conseguiram evitar o pior.
O desafio atual da instituição é a interiorização do projeto Papo de Homem pra Homem. Atualmente, equipes de cidades como Cáceres, Nova Xavantina e São José do Rio Claro passam por preparação para implantar a metodologia. O principal entrave para a expansão é o déficit de efetivo e a necessidade de maior engajamento dos municípios em adotar políticas de médio e longo prazo.
O delegado defende que as empresas, tanto públicas quanto privadas, disponibilizem horários de trabalho para que seus colaboradores participem de palestras e orientações. A visão é que o homem que não cometeu ilícitos raramente buscará esse conhecimento de forma voluntária, mas ele continua vulnerável a reações imprevisíveis em conflitos domésticos.
Educação como pilar de transformação social
A solução definitiva para o feminicídio em Mato Grosso, na visão de Demerval, reside na educação básica. O trabalho precisa ser iniciado nos bancos escolares para redesignar mentes e valores, ensinando meninos e meninas sobre autonomia e respeito. O delegado argumenta que ensinar apenas a mulher a se proteger é insuficiente se o agressor continuar agindo de maneira desregrada.
O planejamento estratégico da Polícia Civil para os próximos anos inclui a ampliação desses núcleos de atendimento e a manutenção do programa Tolerância Zero contra facções, entendendo que o combate ao crime organizado reflete diretamente na segurança das mulheres. A meta é transformar os agressores em multiplicadores de novos comportamentos, estancando a "doença social" que alimenta as estatísticas de morte no estado.
As informações são da entrevista concedida pelo delegado de Polícia Mário Demerval a jornalista Michely Figueiredo, no Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7).




