BLOG DO MAURO Terça-feira, 13 de Janeiro de 2026, 14:54 - A | A

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2026, 14h:54 - A | A

PAZ É INEGOCIÁVEL

Anistia não é caminho e Trump não pode ser o manual do autoritarismo

Mauro Camargo

O Brasil precisa encarar um fato sem rodeios: tentativa de golpe não é opinião, é crime. E crime, quando mira a democracia, não pode terminar em abraço, atalho ou esquecimento. Por isso, punição rigorosa aos condenados e rejeição total à anistia e ao chamado PL da Dosimetria não são bandeiras partidárias; são defesa do Estado Democrático de Direito.

A anistia, vendida como “pacificação”, é na prática um convite para a reincidência. É a mensagem mais perigosa que um país pode enviar: “tentem de novo, porque no fim a política dá um jeito”. Democracia não se preserva com permissividade; se preserva com lei aplicada e pena cumprida.

O PL da Dosimetria, quando aparece como mecanismo para “corrigir excessos”, precisa ser lido pelo que pode virar na vida real: um corredor de fuga legislativo. Uma porta aberta para reduzir responsabilidades, relativizar fatos e reembalar golpismo como “protesto”. O Brasil já viu esse filme, e ele sempre termina com instituições sangrando e o povo pagando a conta.

Não é “dureza”. É prevenção. É dizer que ninguém — nem poderoso, nem financiador, nem articulador, nem operador de rede — está acima da Constituição.

E aqui entra um ponto que precisa ser dito com a franqueza que o tempo exige: o golpismo não vive sem desinformação. Ele precisa de mentiras em série, de recortes manipulados, de frases inventadas, de teorias recicladas, de “verdades” produzidas em massa para ocupar o lugar dos fatos. Isso não é debate público; é sabotagem.

Explorar a fé de gente simples para transformá-la em combustível político é uma forma de violência. É usar a esperança como isca, a religião como escudo e o medo como chicote. Fé não pode ser instrumento de recrutamento para o ódio.

A direita brasileira tem lugar legítimo na democracia. Tem o direito de criticar, fiscalizar, propor, disputar eleições e vencer quando o povo decidir. Mas precisa abandonar de vez a lógica do “vale tudo”. O país não precisa de uma direita domesticada; precisa de uma direita civilizada, capaz de perder sem conspirar e de ganhar sem perseguir.

O 8 de janeiro não pode se repetir. Nem como invasão, nem como acampamento, nem como ameaça difusa, nem como chantagem institucional. Não existe futuro para um país que aceita ser governado pelo medo de um próximo ataque.

E o Brasil não está isolado nesse dilema. O autoritarismo tem rede, tem método e tem inspiração. E hoje um dos símbolos mais barulhentos desse método atende pelo nome de Donald Trump.

O que se vê no cenário internacional recente — com tensões abertas, bravatas, pressão sobre países, desprezo pelo multilateralismo e pela mediação institucional — tem um efeito direto aqui: normaliza a política da força e enfraquece a cultura democrática no mundo inteiro.

Quando um presidente dos Estados Unidos trata regras internacionais como obstáculo, quando sinaliza disposição de agir por imposição e quando enfraquece organismos multilaterais, ele não está apenas fazendo “política externa”. Ele está criando precedente para que outros façam o mesmo — inclusive contra nós.

Nos últimos dias, reportagens internacionais registraram pressões e ameaças envolvendo a Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca, com reações de aliados europeus e debate público sobre “opções” em torno do tema. Isso não é detalhe retórico; é uma afronta à ideia de que fronteiras e soberanias não são objetos de desejo pessoal. (BBC; Reuters)

Também há registro de recuos e ataques à cooperação internacional, com medidas sobre retirada ou suspensão de apoio a dezenas de organismos internacionais, o que atinge diretamente a capacidade de coordenação global em temas como direitos humanos, migração, saúde e clima. Isso enfraquece a governança mundial e alimenta o “cada um por si”. (PBS)

E, no caso da Venezuela, houve discussão no Conselho de Segurança sobre ações dos Estados Unidos, com alertas de delegações sobre soberania e riscos ao direito internacional. Quando grandes potências se autorizam a agir sem limites, o mundo entra num terreno onde a lei vira decoração. (ONU)

O Brasil deve olhar para tudo isso e concluir o óbvio: paz mundial não é slogan, é política pública internacional, é pacto civilizatório, é diplomacia, é tratado, é ONU funcionando, é mediação, é negociação, é limite.

Mais paz e menos bravatas não é ingenuidade. É inteligência histórica. Países que trocam o multilateralismo pelo grito acabam trocando prosperidade por instabilidade. E instabilidade, cedo ou tarde, vira violência — dentro e fora de casa.

Por isso, defender a democracia no Brasil passa, sim, por dizer não à anistia. Mas passa também por dizer não ao fascínio pela força que parte de uma direita “trumpista” tenta importar: a ideia de que adversário é inimigo, de que jornalismo é alvo, de que instituições são obstáculos, de que a lei deve servir ao líder, não ao povo.

A democracia não pede licença para existir. Ela exige guardiões — e esses guardiões somos nós quando cobramos coerência: prisão para quem atentou contra a Constituição, sem atalhos; debate político com fatos, sem fábricas de mentira; direita e esquerda competindo com ideias, sem o desejo de rasgar o país quando o resultado da urna desagrada.

Se o Brasil permitir que o 8 de janeiro vire “assunto negociável”, nós estaremos assinando um contrato silencioso com o próximo ataque. Se o mundo permitir que a política externa vire “lei do mais forte”, estaremos entregando o século a uma escalada de conflitos que ninguém controla.

Democracia é memória, é justiça, é responsabilidade. E é também, hoje, uma escolha clara: ou fortalecemos a ONU e o multilateralismo, ou aceitamos o retorno da força como linguagem principal da política internacional.

Eu escolho a democracia. Eu escolho a paz. E eu escolho dizer, alto e claro: anistia não. Dosimetria como atalho, não. Autoritarismo, aqui e lá fora, não.

 



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