A adoção da gasolina E32, com 32% de etanol anidro, parece uma decisão técnica, mas representa uma escolha muito maior sobre o futuro energético e econômico do Brasil.
É legítimo cobrar testes, segurança e acompanhamento permanente. O que não faz sentido é perder de vista sua dimensão estratégica.
Enquanto o mundo procura alternativas aos combustíveis fósseis, o Brasil já possui uma delas. O etanol não é promessa tecnológica: é produzido em grande escala, abastece milhões de veículos e permite substituir imediatamente parte da gasolina por energia renovável.
Estudos da Empresa de Pesquisa Energética estimam que, em substituição à gasolina, cada litro de etanol anidro de cana evita cerca de 2,56 quilos de CO₂ equivalente. No etanol de milho, são aproximadamente 2,33 quilos, considerando o ciclo do combustível. (EPE)
Para o Brasil, há também uma extraordinária vantagem econômica. A passagem do E30 para o E32 poderá reduzir em cerca de 900 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina, segundo o Ministério de Minas e Energia.
É dinheiro que deixa de financiar produção no exterior e passa a movimentar agricultura, indústria, transporte, tecnologia, emprego e renda brasileiros.
E poucos estados têm tanto a ganhar quanto Mato Grosso.
Construímos uma das maiores máquinas agrícolas do mundo. Agora precisamos deixar de medir nosso sucesso apenas pela quantidade de soja e milho que conseguimos colher e embarcar. O próximo salto é industrializar essa produção aqui.
O etanol de milho talvez seja o melhor exemplo dessa transformação.
Mato Grosso possui 27 indústrias produtoras de etanol de milho e cana, responsáveis por cerca de 10,7 mil empregos formais. O Imea projeta produção estadual de 8,44 bilhões de litros na safra 2026/27, dos quais 7,33 bilhões provenientes do milho.
O E32 amplia esse mercado. A estimativa do Imea é de demanda adicional próxima de 954 milhões de litros de etanol anidro em 12 meses.
Mais importante: quando transformamos milho em etanol, deixamos de vender apenas matéria-prima. Criamos indústria e produzimos também DDG, utilizado na alimentação animal. Integramos agricultura, energia e pecuária e mantemos maior parcela da riqueza dentro do Estado.
Uma nova planta financiada pelo BNDES em Campo Novo do Parecis mostra essa dimensão: poderá processar 1,2 milhão de toneladas de milho por ano, produzir 540 milhões de litros de etanol e 390 mil toneladas de DDG. A implantação deverá gerar 3 mil empregos diretos e indiretos.
É exatamente o desenvolvimento que Mato Grosso precisa perseguir: produzir, transformar e agregar valor dentro do Estado.
Naturalmente, nenhuma política energética merece salvo-conduto. O E32 deve continuar submetido ao escrutínio científico. A decisão atual vale por 180 dias, prorrogáveis por igual período, e sua adoção definitiva está vinculada à continuidade das avaliações técnicas.
Fiscalizar é necessário. Transformar dúvida técnica em guerra ideológica, não.
O Brasil possui terra, tecnologia, agricultura e indústria para protagonizar uma economia mundial de baixo carbono. Mato Grosso reúne essas vantagens em escala extraordinária.
Entre importar mais petróleo e transformar nosso milho em energia renovável, indústria, emprego e renda, tenho pouca dúvida sobre qual caminho interessa ao Brasil.
Para Mato Grosso, menos ainda.
Nota de Transparência
Este é um artigo de opinião. Os argumentos e conclusões são de responsabilidade do autor. Os dados utilizados para fundamentá-los foram consultados em informações e estudos do Ministério de Minas e Energia, Conselho Nacional de Política Energética, Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e BNDES.
Foram considerados dados sobre a substituição de gasolina pelo etanol, emissões de gases de efeito estufa, expansão da demanda por etanol anidro, produção de etanol de milho em Mato Grosso e investimentos na agroindustrialização do cereal.
O artigo distingue os benefícios econômicos e ambientais atribuídos à ampliação do uso do etanol da controvérsia sobre a segurança técnica do E32. A mistura permanece sujeita às regras, avaliações e acompanhamento estabelecidos pelas autoridades competentes. A defesa do E32 apresentada no texto constitui posicionamento editorial do autor, e não conclusão atribuída às fontes consultadas.






