Tirar boas notas, passar no vestibular e conquistar uma vaga na universidade são objetivos que fazem parte da trajetória de muitos adolescentes. Mas, quando o desempenho passa a ser confundido com valor pessoal e a pressão se torna permanente, a dedicação aos estudos pode deixar de ser saudável e contribuir para um quadro de esgotamento, que está sendo chamado do "Burnout Estudantil". Vale destacar que a terminologia é usada pela semelhança dos sintomas, mas segundo a Organização Mundial da Saúde, Burnout está exclusivamente relacionado com o esgotamento provocado pelo ambiente de trabalho.
O alerta é da psicóloga Lucélia Marques, entrevistada no Papo com Ela. Segundo a especialista, não existe uma quantidade específica de horas de estudo que isoladamente determine o problema. O esgotamento é resultado de uma combinação de fatores que envolve família, escola, sociedade, rotina, expectativas e a forma como o próprio jovem interpreta seus resultados.
A preocupação ganha dimensão diante do cenário global de saúde mental na adolescência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos apresenta algum transtorno mental, sendo ansiedade, depressão e transtornos de comportamento alguns dos principais problemas nessa faixa etária. A organização também destaca que dificuldades nessa fase podem repercutir na vida adulta e comprometer oportunidades futuras.
Não é simplesmente estudar demais
Para Lucélia Marques, reduzir o problema à quantidade de horas diante dos livros pode esconder o que realmente está por trás do sofrimento. O estudante pode estar estudando muito porque acredita que só assim conseguirá um bom resultado. Essa crença, segundo a psicóloga, pode ser construída ao longo de anos, dentro da família e da escola.
“Sem pressão, sem esforço e angústia, eu não tenho bons resultados”. Essa crença, na avaliação da especialista, pode levar o estudante a estabelecer uma relação pouco saudável com os estudos.
Nesse cenário, até mesmo um resultado positivo pode esconder sofrimento. Um adolescente que tira boas notas pode estar ansioso, dormindo pouco, isolando-se socialmente ou submetendo-se a uma rotina excessiva. Por isso, olhar apenas para o boletim não é suficiente para avaliar como ele está. É preciso que as famílias se questionem como aquele resultado foi alcançado.
Quando a nota passa a definir quem o jovem é
Um dos sinais de alerta destacados pela psicóloga aparece quando o estudante deixa de separar desempenho e identidade. Isso significa dizer que o adolescente passa a se definir pela nota que tirou. Se a nota foi ruim, ele automaticamente se considera sem valor, um fracasso.
Para Lucélia, esse processo pode começar muito antes do ensino médio. Comentários aparentemente simples, como “você é tão inteligente, poderia ter tirado uma nota melhor”, podem, dependendo da frequência e do contexto, fazer com que a criança associe competência e aprovação ao desempenho. A alternativa, segundo ela, é deslocar o foco da cobrança para a construção de estratégias.
Em vez de perguntar apenas por que determinada nota foi baixa, pais e responsáveis podem perguntar o que aconteceu, o que faltou, como podem ajudar e o que pode ser feito de outra maneira para que o resultado mude. A mensagem central deve ser a de que uma nota não define inteligência, caráter ou valor pessoal.
A armadilha de acreditar que sofrimento é sinônimo de resultado
Outro comportamento observado pela psicóloga é a associação entre sacrifício e sucesso. O estudante passa a acreditar que estudar até a madrugada, abrir mão do sono ou manter uma rotina exaustiva é prova de comprometimento e que, se reduzir o ritmo, necessariamente terá um resultado pior.
Um dos primeiros elementos sacrificados por estudantes submetidos a uma rotina intensa costuma ser o sono. A recomendação da American Academy of Sleep Medicine é que adolescentes de 13 a 18 anos durmam entre oito e dez horas por noite regularmente. Dormir menos do que o necessário está associado a prejuízos de atenção, comportamento e aprendizagem, além de maior risco de problemas de saúde.
A própria adolescência traz uma particularidade. O relógio biológico tende naturalmente a deslocar o início do sono para mais tarde. Isso pode dificultar a conciliação entre o horário de dormir, a rotina de estudos e o horário de início das aulas. Por isso, estudar até a madrugada pode criar uma falsa sensação de produtividade.
Na entrevista, Lucélia chama atenção para um ciclo que pode se estabelecer. O jovem dorme tarde para estudar, chega cansado à escola, tem dificuldade de concentração durante as aulas e, depois, tenta compensar à noite o conteúdo que não conseguiu absorver durante o dia. O resultado é um ciclo difícil de interromper.
A psicóloga faz ainda uma distinção importante. Sono é necessário e saudável. O alerta aparece quando dormir passa a funcionar como uma forma de evitar uma situação que provoca sofrimento. Nesse caso, o problema não seria simplesmente a quantidade de sono, mas a função que aquele comportamento está cumprindo.
Por isso, mudanças importantes no padrão de sono de um adolescente, principalmente quando acompanhadas de isolamento, irritabilidade, queda no rendimento ou sofrimento emocional, merecem atenção da família e, quando necessário, avaliação profissional.
Outro comportamento comum é o estudante afirmar que funciona melhor durante a madrugada. Lucélia ressalta que algumas pessoas realmente possuem características individuais de funcionamento diferentes. Mas também é preciso observar o contexto.
À noite, por exemplo, podem existir menos interrupções, menos cobranças e mais silêncio. O estudante pode interpretar essa ausência de distrações como uma característica pessoal (“sou noturno”), quando, na verdade, está simplesmente encontrando naquele horário as condições necessárias para se concentrar.
Redes sociais acrescentam uma nova camada de pressão
A comparação também ganhou novas dimensões com as redes sociais. O estudante não compara apenas suas notas com as dos colegas. Ele pode comparar sua rotina, quantidade de horas estudadas, cursinho, materiais, organização, desempenho em simulados e até a velocidade com que outras pessoas aparentemente avançam. Acontece que as redes oferecem apenas recortes.
Um jovem que trabalha, ajuda em casa, prepara a própria comida ou possui outras responsabilidades pode olhar para o vídeo de alguém que passa dez horas estudando e concluir que está se esforçando menos sem conhecer as condições de vida daquela pessoa.
A pressão chega ao mercado de trabalho
A preocupação da psicóloga não termina no vestibular. Segundo Lucélia, a maneira como o jovem aprende a lidar com pressão durante a formação pode influenciar a forma como ele encara posteriormente o mercado de trabalho. É aqui que a discussão sobre saúde mental estudantil encontra outra realidade já reconhecida pelas instituições de saúde e trabalho. Os casos de Burnout tem ganhado volume em função do esgotamento vivenciado no ambiente de trabalho.
Quando esse jovem chega ao mercado de trabalho acreditando que produtividade exige sofrimento permanente, ele pode carregar consigo uma crença que não necessariamente corresponde a um ambiente saudável de trabalho.
O sinal de alerta não está apenas no boletim
Para famílias e educadores, a principal mensagem é observar mudanças. Um estudante que sempre foi dedicado e passa a apresentar exaustão persistente, irritabilidade, isolamento, perda de interesse, alterações importantes no sono, ansiedade intensa, queda de rendimento ou frases recorrentes de incapacidade e desesperança pode estar sinalizando que a pressão ultrapassou um limite saudável.
Alguns estudantes conseguem atravessar períodos intensos de preparação com recursos emocionais suficientes para lidar com a pressão. Outros podem precisar de apoio adicional. E procurar ajuda não significa desistir do objetivo acadêmico. Significa justamente criar condições para que o jovem possa continuar estudando sem transformar o sofrimento em requisito para o sucesso.
Estudar exige esforço. Vestibular exige preparação. Provas naturalmente provocam ansiedade. Mas esforço e sofrimento não são sinônimos.
Assista a entrevista na íntegra:






