Ilustração produzida por IA
Tendência de clima extremo, endividamento e falta de mão de obra qualificada preocupam produtores do agro mato-grossense
O agronegócio de Mato Grosso chega à preparação da safra 2026/27 diante de três pressões simultâneas: falta de mão de obra qualificada, aumento do endividamento rural e risco de perdas provocadas pelo El Niño. A avaliação é do superintendente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) e do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Cleiton Gauer.
Ele afirmou que os créditos rurais considerados problemáticos em Mato Grosso somam aproximadamente R$ 22 bilhões. O valor reúne operações inadimplentes, renegociadas ou prorrogadas e representaria cerca de 20% da carteira analisada pelo instituto.
O quadro financeiro, segundo ele, poderá se agravar se a formação do El Niño comprometer a regularidade das chuvas e reduzir a produtividade da soja e do milho. Ao mesmo tempo, propriedades cada vez mais mecanizadas e conectadas enfrentam dificuldade para encontrar operadores de máquinas, técnicos agrícolas e outros profissionais capazes de lidar com a tecnologia incorporada ao campo.
A combinação traduz uma contradição: o setor que mais movimenta a economia de Mato Grosso oferece vagas, salários competitivos e possibilidade de carreira, mas precisa atravessar uma temporada marcada por custos elevados, margens reduzidas e maior exposição ao risco climático.
Pesquisa realizada pelo Imea em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT) mostra que 62,62% dos produtores consultados enfrentam alta dificuldade para contratar novos funcionários. A falta de qualificação técnica foi apontada por 69,16% como o principal obstáculo.
O levantamento ouviu 415 produtores de 87 municípios, com nível de confiança de 95% e margem de erro de cinco pontos percentuais para os resultados estaduais. Entre os entrevistados, 83,82% informaram estar em busca de novos trabalhadores.
A função com maior demanda é a de operador de máquinas agrícolas, mencionada por 63,77% dos produtores. Em seguida aparecem trabalhadores para serviços gerais, com 38,65%; técnicos agrícolas ou agrônomos, com 14,25%; monitores de pragas, com 10,87%; e gerentes ou encarregados, com 10,39%.
Na pecuária, embora esse segmento não tenha sido incluído na pesquisa mais recente, Gauer identifica a contratação de vaqueiros como um dos principais gargalos.
“O vaqueiro é uma mão de obra especializada. Não é simples trazer uma pessoa de fora e colocá-la nessa atividade, porque existe uma barreira de entrada muito grande”, explicou.
O diagnóstico é compatível com o mercado de trabalho aquecido de Mato Grosso. De acordo com o IBGE, o Estado registrou taxa anual de desocupação de 2,2% em 2025, a menor do país. Também apresentou o maior nível de ocupação entre as unidades da Federação, com 66,7% da população em idade de trabalhar efetivamente ocupada.
A reduzida disponibilidade de trabalhadores afeta diferentes setores, mas ganha características específicas no campo. Muitas vagas exigem deslocamento ou residência nas propriedades, distantes dos centros urbanos. Além disso, o êxodo rural das últimas décadas afastou filhos e famílias das atividades agrícolas.
Para Gauer, parte da dificuldade de contratação está relacionada à percepção ainda existente de que o trabalho rural continua baseado predominantemente em esforço físico. A realidade das propriedades, segundo ele, mudou com a mecanização, a agricultura de precisão e a incorporação de sistemas digitais.
“Hoje é um agro muito mais tecnológico, com máquinas, equipamentos e implementos, e que exige também uma sofisticação da mão de obra”, afirmou.
O operador precisa compreender painéis eletrônicos, interpretar dados, regular equipamentos e identificar falhas que possam reduzir a produtividade ou aumentar perdas. A formação profissional passou a incluir cursos para pilotos de drones e operadores de colheitadeiras, pulverizadores e máquinas específicas.
O Senar-MT funciona como principal braço de qualificação do Sistema Famato. A estratégia é preparar tanto pessoas que já trabalham nas propriedades quanto moradores de cidades próximas às regiões produtoras interessados em iniciar ou mudar de carreira.
A escassez também alterou as formas de remuneração. Além dos salários fixos, produtores oferecem alimentação, moradia, transporte, treinamento, acesso à internet e bonificações relacionadas ao resultado das safras.
Segundo a pesquisa, 96,12% das propriedades participantes utilizam a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para contratar funcionários fixos. A alimentação é fornecida por 85,19% dos produtores e 84,95% disponibilizam moradia ou alojamento.
Gauer afirmou que se tornou comum a participação dos trabalhadores nos resultados das duas safras. O pagamento adicional funciona como um “14º ou 15º salário”, conforme expressão usada no meio rural, e procura estabelecer vínculos duradouros entre as propriedades e os profissionais qualificados.
Conectividade avançou, mas ainda tem limites
A ampliação da internet via satélite reduziu uma das principais barreiras tecnológicas do campo. Conforme Gauer, mais de 95% das propriedades mato-grossenses já possuem algum tipo de conexão em suas sedes.
O avanço, porém, não significa que o problema esteja resolvido. Operações autônomas, controle remoto de máquinas e transmissão de grandes volumes de dados exigem conexões estáveis, rápidas e de baixa latência.
Em regiões distantes, a internet disponível pode atender às necessidades administrativas da fazenda, mas ainda não oferecer qualidade suficiente para comandar equipamentos em tempo real. O tamanho do território de Mato Grosso e as grandes distâncias entre as propriedades elevam o custo da infraestrutura.
Na avaliação de Gauer, a inteligência artificial não deve simplesmente substituir trabalhadores. Sua aplicação mais imediata será o processamento de informações geradas por máquinas, sensores, agrônomos, técnicos e operadores.
O objetivo é transformar os dados em projeções e recomendações que permitam compreender melhor o microclima, o solo e a resposta das lavouras a diferentes decisões de manejo.
Gauer comparou a produtividade média de Mato Grosso, próxima de 66 sacas de soja por hectare, com resultados superiores a 85 ou 90 sacas obtidos por produtores de alto desempenho.
Para ele, a diferença nem sempre está na tecnologia disponível, mas na capacidade de interpretar as condições específicas de cada propriedade e realizar ajustes mais precisos.
“A tecnologia é a mesma, o produto é o mesmo. O manejo e o entendimento do microssistema acabam fazendo a diferença. É o aspecto humano da tomada de decisão que distingue um produtor do outro”, afirmou.
El Niño eleva risco da próxima safra
A possibilidade de formação de um El Niño de forte intensidade acrescenta incerteza ao planejamento da temporada 2026/27. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera a circulação atmosférica e pode modificar a distribuição das chuvas.
Gauer ressaltou que os efeitos sobre Mato Grosso não são lineares. Ao contrário do Sul do país, onde o El Niño costuma estar associado ao aumento das precipitações, o comportamento no Centro-Oeste depende também de outros fatores oceânicos e atmosféricos.
O Imea trabalha com a perspectiva de presença do fenômeno nos próximos meses. Por prudência, o instituto já projeta produtividade menor do que a registrada nas duas safras anteriores, consideradas excepcionais.
A primeira preocupação está na abertura da janela de plantio. Atrasos ou irregularidade nas chuvas podem postergar a semeadura da soja e reduzir o período disponível para o milho de segunda safra. Veranicos durante o desenvolvimento das lavouras também podem comprometer o rendimento.
“Diante dos fatores colocados e da possibilidade de o El Niño ganhar intensidade, é grande a probabilidade de reflexo sobre a produtividade, quando comparada aos últimos dois anos”, disse.
A projeção não significa que as perdas ocorrerão necessariamente. Trata-se de uma avaliação de risco, condicionada à intensidade do fenômeno e à forma como ele influenciará as chuvas em cada região do Estado.
Dívida reduz margem para enfrentar perdas
O problema climático encontra produtores financeiramente pressionados. Conforme Gauer, a deterioração começou a ganhar força depois da quebra da safra 2021/22, quando a produtividade da soja caiu para aproximadamente 52 sacas por hectare em Mato Grosso.
Nos anos seguintes, os preços da soja recuaram e permaneceram, em diferentes períodos, próximos de R$ 100 a R$ 110 por saca, enquanto os custos de produção aumentaram. A margem diminuiu e reduziu a capacidade de absorver erros ou frustrações de safra.
Gauer afirmou que a inadimplência nas operações oficiais acompanhadas pelo Banco Central aproxima-se de 5%. Quando são incluídos créditos em atraso superior a 90 dias, dívidas renegociadas e parcelas prorrogadas, os chamados ativos problemáticos alcançariam 20% da carteira, ou cerca de R$ 22 bilhões.
Os bons resultados produtivos das duas últimas temporadas ajudaram a sustentar a receita. O risco para 2026/27 é que uma eventual redução da produtividade ocorra ao mesmo tempo em que os custos voltam a subir.
“Se eu já estou com dificuldade para pagar as dívidas dos últimos anos e coloco um ingrediente de pressão na próxima safra, o desafio se torna ainda maior”, avaliou.
O superintendente também relativizou o impacto dos volumes anunciados pelo governo federal no Plano Safra. Segundo ele, a existência dos recursos não significa que todos os produtores consigam contratá-los.
O endividamento reduz as garantias disponíveis e faz com que as instituições financeiras adotem critérios mais rigorosos. Além disso, o faturamento das propriedades de Mato Grosso retira parte dos produtores das faixas destinadas à agricultura familiar e aos médios produtores.
Uma propriedade considerada pequena na realidade mato-grossense, com 300 hectares de soja e cultivo de milho na segunda safra, pode ultrapassar os limites de enquadramento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp).
Nessas condições, o produtor passa a depender de linhas destinadas aos chamados “demais produtores”, do crédito privado, de operações com tradings ou do mercado de capitais. Em alguns casos, segundo Gauer, o custo final de uma operação privada pode ser mais competitivo do que o financiamento oficial, quando são incluídas exigências, garantias e despesas bancárias.
Gestão será decisiva
Para atravessar a próxima temporada, Gauer defende medidas dentro e fora das propriedades. No campo institucional, Famato e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) acompanham propostas de renegociação das dívidas rurais e mecanismos de crédito destinados a preservar a capacidade de plantio.
Na administração das fazendas, o produtor terá de controlar três fatores: custo, produtividade e preço de venda.
Entre as recomendações estão evitar alavancagem excessiva, utilizar instrumentos de troca de insumos por produção — as operações de barter —, travar custos e preços sempre que houver margem, respeitar as condições de umidade do solo e reduzir a exposição em áreas arenosas ou consideradas marginais.
Gauer também recomendou avaliar cuidadosamente o investimento em fertilizantes. Em propriedades que construíram reserva adequada de nutrientes no solo, pode haver espaço para ajustes temporários, desde que baseados em análise técnica e sem comprometer a produtividade futura.
A safra 2026/27, portanto, exigirá mais do que máquinas modernas e escala produtiva. O cenário descrito pelo Imea combina risco climático, restrição financeira e necessidade de profissionais capazes de transformar tecnologia e informação em decisões mais eficientes.
Ao mesmo tempo, a falta de trabalhadores cria oportunidades para jovens, moradores das cidades do interior e profissionais interessados em mudar de carreira.
“O agro oferece oportunidade de emprego, carreira e desenvolvimento para quem estiver preparado”, concluiu Gauer.
NOTA DE TRANSPARÊNCIA
Esta reportagem foi produzida (redação e edição) a partir da entrevista concedida pelo superintendente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) e do Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária), Cleiton Gauer, à jornalista Michely Figueiredo (apuração). As declarações foram editadas para eliminar repetições e marcas próprias da linguagem oral, sem alteração de sentido. Os dados sobre mão de obra foram confrontados com a pesquisa divulgada pelo Imea, Senar-MT e Sistema CNA. Os indicadores do mercado de trabalho foram verificados na PNAD Contínua do IBGE. Os valores relativos à inadimplência, aos ativos problemáticos, à conectividade rural e às projeções da safra foram atribuídos ao entrevistado e ao Imea, por não terem sido disponibilizadas, junto à entrevista, as respectivas bases completas de cálculo.





