BLOG DO MAURO Sábado, 29 de Agosto de 2026, 08:17 - A | A

Sábado, 29 de Agosto de 2026, 08h:17 - A | A

GUERRA DA MELANCIA

O PL de Wellington está unido apenas no papel

Mauro Camargo

Pixabay

Guerra da Melancia

O problema de Wellington Fagundes não é José Medeiros ter aparecido na televisão cortando uma melancia.

Também não é Janaína Riva ter recorrido à Justiça para disputar com Medeiros alguns segundos a mais no horário eleitoral.

Esses são sintomas.

O problema real é mais profundo: a candidatura de Wellington começa a campanha sem conseguir reunir integralmente o campo político que deveria constituir sua base eleitoral mais sólida.

Formalmente, não há dúvida. Wellington é o candidato do PL ao Governo de Mato Grosso. Tem o apoio da direção nacional e recebeu o aval público de Flávio Bolsonaro. A composição com o MDB também foi chancelada nacionalmente.

Politicamente, porém, a fotografia é outra.

José Medeiros disputa o Senado pelo PL, mas tornou-se o principal porta-voz de uma ala que rejeita a flexibilização ideológica feita para ampliar a chapa. Na primeira propaganda eleitoral, colocou uma melancia diante das câmeras e advertiu os bolsonaristas contra políticos verdes por fora e vermelhos por dentro. Não pronunciou Wellington. Mas utilizou um símbolo que já vinha sendo associado justamente ao candidato a governador de seu partido. 

É difícil imaginar fogo amigo mais didático.

A rebelião não termina em Medeiros.

Em Rondonópolis, Cláudio Ferreira foi muito além: subiu no palanque de Otaviano Pivetta e declarou apoio ao adversário de Wellington. A direção estadual reagiu retirando-o da presidência municipal do PL e determinando sua saída da legenda, sob ameaça de expulsão.

Não estamos mais diante de divergências de bastidor.

Estamos diante de uma disputa sobre quem tem legitimidade para representar o bolsonarismo em Mato Grosso.

De um lado está o bolsonarismo institucional. Flávio Bolsonaro e a direção nacional do PL aceitam uma coalizão eleitoral mais ampla, capaz de incorporar o MDB de Janaína Riva e maximizar as possibilidades da chapa.

Do outro está o bolsonarismo identitário, menos interessado na amplitude da aliança e mais preocupado com coerência ideológica.

Medeiros representa hoje essa segunda corrente com clareza.

Sua disputa, portanto, já não é apenas por uma das duas vagas ao Senado.

É também pelo eleitor conservador que olha para Wellington e pergunta: ele é realmente um dos nossos?

A pergunta é especialmente incômoda porque Wellington possui uma trajetória política longa e pragmática. Conviveu e construiu alianças com governos de diferentes orientações. Hoje está no PL e alinhado à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

O problema eleitoral é que campanhas não são tribunais históricos.

São máquinas de simplificação.

E a melancia é uma simplificação extraordinariamente eficiente.

Wellington sabe disso. Por isso evita responder a Medeiros na mesma intensidade. Já declarou que, de sua parte, não há rusga e que pedirá votos para o correligionário.

Faz sentido.

Para Wellington, uma guerra aberta com Medeiros seria particularmente perigosa. Significaria disputar credenciais bolsonaristas justamente com um candidato que possui maior identificação histórica com esse eleitorado.

Pivetta observa tudo isso de posição confortável.

Não precisa convencer Medeiros a atacar Wellington. Não precisa expulsar ninguém do PL. Não precisa sequer radicalizar sua própria campanha.

Quanto mais a candidatura adversária se desgasta internamente, maior a possibilidade de Pivetta preservar sua imagem de gestor moderado enquanto recolhe dissidentes da direita.

Cláudio Ferreira já atravessou a ponte.

E isso ocorre num momento eleitoral delicado. A Quaest divulgada nesta semana colocou Wellington com 27% e Pivetta com 23% — empate técnico dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Natasha aparece com 8%. Quatro pontos separam os dois primeiros.

Nesse cenário, perder uma fração do eleitorado bolsonarista não é detalhe.

Pode decidir uma eleição.

Natasha também observa.

Quanto mais Pivetta e Wellington transformarem a eleição numa guerra pela hegemonia da direita, maior será o espaço disponível para que ela tente ocupar o território da alternativa.

Não significa que os votos automaticamente migrem para sua candidatura. Significa algo anterior: ela ganha possibilidade de falar enquanto seus dois principais adversários discutem entre si.

A campanha está apenas começando e Wellington ainda dispõe de ativos importantes. Lidera numericamente pesquisas recentes, possui estrutura partidária, longa experiência eleitoral e o apoio formal de Flávio Bolsonaro.

Seria precipitado transformar uma crise política em sentença eleitoral.

Mas há uma diferença fundamental entre ter uma coligação e ter um exército.

Wellington conseguiu montar a primeira.

Agora precisa provar que possui o segundo.

Porque eleição majoritária não se vence apenas com partidos reunidos numa ata.

Vence-se quando quem está na ata decide marchar na mesma direção.

 

NOTA DE TRANSPARÊNCIA

Este é um artigo de opinião e análise política. Os fatos utilizados como base — manifestações públicas de José Medeiros, Wellington Fagundes, Abilio Brunini e Cláudio Ferreira, apoio de Flávio Bolsonaro à chapa e reação do PL à dissidência em Rondonópolis — foram confrontados com informações publicadas e declarações públicas disponíveis.

A referência à divisão entre um bolsonarismo “institucional” e outro “identitário”, assim como as avaliações sobre possíveis benefícios políticos para Otaviano Pivetta e Natasha Slhessarenko, constituem interpretação do autor sobre o cenário eleitoral e não são apresentadas como fatos consumados ou como projeção de resultado.

A pesquisa Quaest citada foi realizada entre 21 e 24 de agosto, com 804 eleitores, margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado sob os números MT-04846/2026 e BR-00817/2026. Wellington aparece com 27%, Pivetta com 23% e Natasha com 8%; pesquisas eleitorais representam a opinião dos entrevistados no período de realização e não constituem previsão do resultado da eleição. 



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