BLOG DO MAURO Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026, 09:01 - A | A

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MUNDO

Trump e a política da força

Mauro Camargo

Há um ponto em que a política deixa de ser disputa de ideias e vira ameaça ao mundo. Quando um presidente transforma o poder militar e econômico do seu país em instrumento de intimidação, a paz deixa de ser premissa e passa a ser acidente.

É isso que a escalada de Donald Trump sugere ao planeta: a volta do “manda quem pode”, do “toma quem tem força”, do “negocia quem teme”. E não há estabilidade possível quando a regra vira exceção e a exceção vira método.

Na política interna, a marca tem sido uma perseguição sistemática a imigrantes, vendida como solução simples para problemas complexos. A caça a pessoas, o incentivo à suspeita, a expansão de operações e deportações em massa criam um ambiente de medo permanente, como registraram reportagens sobre a ofensiva migratória e a pressão por deportações em larga escala. O alvo não é só quem cruza a fronteira; é a ideia de que direitos existem mesmo quando o governo não gosta de você. (Reuters; ABC News)

Quando um governo escolhe transformar o imigrante em inimigo, ele não está apenas endurecendo política migratória. Está construindo uma narrativa que autoriza abusos, normaliza humilhações e prepara o terreno para o passo seguinte: a erosão de garantias para qualquer grupo que vire bode expiatório da vez.

No plano internacional, a sinalização é ainda mais perigosa. O debate sobre “adquirir” a Groenlândia — território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca — cruzou uma linha inaceitável quando porta-vozes do governo admitiram publicamente a possibilidade de força.

Segundo a BBC, a Casa Branca afirmou que Trump avalia opções e que “todas as opções estão sempre em aberto” ao considerar o que entende ser do interesse dos Estados Unidos. (BBC)

Outros veículos registraram a mesma mensagem em termos ainda mais diretos: “Utilizar as Forças Armadas dos EUA é sempre uma opção”, disse a porta-voz Karoline Leavitt, conforme cobertura sobre a reação política ao tema. (CNBC)

Não é só uma frase agressiva. É a tradução contemporânea da doutrina que o mundo tentou enterrar depois de guerras: a soberania como moeda de troca e o território como prêmio.

Quando se fala de Groenlândia, fala-se de algo maior: o recado de que alianças, tratados e o próprio espírito do direito internacional podem ser tratados como obstáculos descartáveis. E quando um país com poder global decide que regras “atrapalham”, outros aprendem rápido — e copiam.

A América Latina sente esse vento primeiro. A região conhece bem a tentação da ingerência, a política externa que chega com “conselhos” e sai com condições, a lógica de “influência” que se confunde com tutela. Reportagens recentes mostram como tensões envolvendo Venezuela e discursos de preeminência regional acendem alertas no entorno, inclusive no México. (Al Jazeera)

Esse tipo de postura não “protege a ordem”. Ela produz o contrário: corrida armamentista, ressentimento, instabilidade, radicalização. E, no fim, risco real de conflito.

O mundo não precisa de um xerife. Precisa de instituições. Precisa de mediação. Precisa de diplomacia. Precisa de mecanismos multilaterais capazes de frear arroubos de potência — seja de quem for.

Mas, enquanto Trump testa limites com bravatas e ameaças, seu governo também tem sinalizado recuo da cooperação internacional. Reportagem da PBS registrou a saída dos Estados Unidos de dezenas de organismos internacionais, um passo que enfraquece coordenação global e empurra o planeta para um “cada um por si”. (PBS)

O multilateralismo não é romantismo: é o arranjo mínimo para que o forte não esmague o fraco sem custo. A ONU — com todas as falhas, burocracias e disputas — ainda é um dos poucos espaços em que o mundo se senta à mesa, registra posições, negocia, pressiona, constrói consensos e, às vezes, evita o pior.

Enfraquecer a ONU e tratar normas internacionais como enfeite é abrir caminho para uma política global baseada em chantagem: quem tem mais força impõe, quem tem menos se submete. Esse roteiro já foi escrito antes. E ele termina mal.

O que está em jogo, portanto, não é “ser contra ou a favor” de um presidente. É ser a favor da ideia de que nenhuma potência tem autorização para reescrever o mapa e as regras do planeta na base da ameaça.

O mundo precisa dizer, com clareza, que paz não se negocia com bravata. Paz se constrói com compromisso, com regras, com fiscalização e com limites. E limites existem para todos — inclusive para quem se acha grande demais para respeitá-los.

Se a democracia é frágil, a paz também é. E hoje elas são atacadas pelo mesmo impulso: o autoritarismo que despreza fatos, direitos e acordos quando eles atrapalham seus objetivos.

Mais paz. Menos ameaça. Mais ONU. Menos “opção militar”. Mais civilização. Menos culto à força.



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