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CLIMA EM RISCO

Mato Grosso perde 29% de vegetação nativa em 41 anos

Mauro Camargo

Infográfico produzido por IA

Infografico desmatamento

 

Mato Grosso chega a 2025 com uma transformação profunda em sua paisagem. Em 41 anos, a participação da vegetação nativa caiu de 90% para 61% do território estadual. São 29 pontos percentuais a menos desde 1985, uma das maiores reduções registradas no país.

Os dados fazem parte da Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, divulgada nesta quarta-feira (12). O levantamento permite enxergar a dimensão de uma mudança que, em Mato Grosso, vai além da questão ambiental: alcança a segurança hídrica, a produção agropecuária e a capacidade de adaptação de um Estado que reúne Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A nova coleção também acrescenta uma dimensão particularmente relevante. Ao cruzar as mudanças de uso da terra com informações climáticas do MapBiomas Atmosfera, os pesquisadores encontraram diferenças na forma como áreas naturais e áreas transformadas pelo homem responderam aos grandes episódios de El Niño.

O resultado coloca a preservação da vegetação também no centro da discussão sobre resiliência climática.

De 90% para 61%

Em 1985, nove de cada dez hectares de Mato Grosso estavam cobertos por vegetação nativa. Em 2025, são pouco mais de seis.

A redução coloca o Estado no grupo das maiores perdas proporcionais do país. Rondônia passou de 92% para 59%; Maranhão, de 91% para 61%; e Mato Grosso e Tocantins, de 90% para 61%.

No conjunto do Brasil, a vegetação nativa recuou de 79% para 65% do território durante os 41 anos analisados.

A transformação ocorreu paralelamente à expansão das atividades humanas. A agropecuária, que ocupava 18% do território brasileiro em 1985, alcançou 32% em 2025.

Na comparação direta entre o início e o final da série, 241 milhões de hectares do país apresentaram transição de cobertura ou uso da terra. Desse total, 136 milhões de hectares correspondem à conversão de vegetação nativa para áreas agropecuárias.

É a dimensão territorial de uma transformação econômica que ajudou a converter Mato Grosso em uma das principais potências agrícolas do mundo, mas que também alterou profundamente sua base ambiental.

Amazônia e Cerrado

Dois dos três grandes biomas existentes em Mato Grosso aparecem no centro dessas mudanças.

A Amazônia perdeu 53,9 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025. O Cerrado perdeu outros 51,7 milhões.

São as duas maiores reduções absolutas entre os biomas brasileiros.

Proporcionalmente, a situação do Cerrado é ainda mais expressiva: o bioma perdeu 34% de sua vegetação nativa no período.

Esse dado interessa diretamente a Mato Grosso porque grande parte de sua produção agropecuária está estabelecida justamente sobre territórios originalmente cobertos pelo Cerrado e pela Amazônia.

O desafio, portanto, não está em estabelecer uma oposição simplista entre produção e preservação. Está em compreender até que ponto a manutenção da capacidade produtiva no longo prazo depende dos serviços ambientais fornecidos pela vegetação, pelo solo e pela água.

O teste do El Niño

É nesse ponto que a Coleção 11 acrescenta uma informação importante.

Os pesquisadores cruzaram os mapas de cobertura e uso da terra com dados do MapBiomas Atmosfera e analisaram três grandes episódios de El Niño: 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024.

O El Niño resulta do aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial e interfere na circulação atmosférica, alterando regimes de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

No Brasil, os três episódios analisados produziram fortes anomalias climáticas.

A maior parte dos biomas enfrentou déficit de precipitação. Pampa e partes da Mata Atlântica apresentaram comportamento diferente, com aumento das chuvas.

Na Amazônia, o déficit ocorreu nos três episódios.

No El Niño de 2023/2024, a redução mais intensa foi observada justamente nas áreas destinadas à agropecuária. Nesses territórios, a precipitação entre setembro e novembro ficou 178 milímetros abaixo da média histórica.

O dado é particularmente relevante para Mato Grosso, onde a Amazônia convive com uma extensa fronteira agropecuária.

Não significa que o desmatamento tenha causado o El Niño ou que explique sozinho a redução das chuvas. O fenômeno possui origem oceânico-atmosférica e escala planetária.

O que o levantamento permite observar é outra coisa: o uso e a cobertura da terra estão associados a diferentes níveis de exposição e resposta aos extremos climáticos.

Essa diferença pode se tornar cada vez mais importante em uma economia fortemente dependente do regime de chuvas.

Pantanal acende outro alerta

No Pantanal, a situação é ainda mais sensível.

O El Niño de 2023/2024 contribuiu para um período de forte déficit de precipitação, e 2024 terminou como o ano mais seco da série histórica do MapBiomas.

O problema, entretanto, não começou naquele ano.

Levantamentos anteriores do próprio MapBiomas já mostravam uma redução prolongada da presença de água no bioma. Na última década, oito dos dez anos mais secos da série histórica ocorreram nesse período.

Outro estudo sobre a Bacia do Alto Paraguai, sistema responsável pelas águas que abastecem a planície pantaneira, mostrou profundas mudanças na cobertura do planalto onde estão as nascentes dos rios.

Na porção mato-grossense do planalto da Bacia do Alto Paraguai, as áreas naturais passaram de 72% para 46% entre 1985 e 2024.

A relação merece atenção porque o Pantanal não pode ser compreendido apenas a partir dos limites da planície inundável. O funcionamento do bioma depende das águas produzidas e transportadas pela bacia hidrográfica que começa nas áreas mais altas de Mato Grosso.

Vegetação como infraestrutura

Essa talvez seja a principal mensagem que emerge dos dados.

Florestas, savanas, campos e áreas alagadas não constituem apenas patrimônio paisagístico ou reserva de biodiversidade. Exercem funções relacionadas à proteção do solo, infiltração da água, manutenção das nascentes, regulação da temperatura e funcionamento dos ciclos hidrológicos.

Em um Estado agrícola, esses serviços ambientais possuem também valor econômico.

O próprio MapBiomas mostra que 335 milhões de hectares de florestas brasileiras permaneceram na mesma classe de cobertura ao longo do período analisado.

Ao mesmo tempo, o país perdeu 65 milhões de hectares de formações florestais, 46 milhões de hectares de formações savânicas e 6,3 milhões de hectares de campos alagados.

Segundo o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, embora as florestas tenham apresentado a maior perda em números absolutos, proporcionalmente as formações savânicas foram as mais atingidas: perderam 30% de sua área.

É justamente nessa categoria que está parte importante do Cerrado.

Produção diante do risco climático

Para Mato Grosso, os números sugerem uma discussão que precisa ultrapassar a velha divisão entre ambientalistas e produtores rurais.

O Estado construiu nas últimas quatro décadas uma das maiores estruturas agropecuárias do planeta. Essa produção, entretanto, depende de temperatura, disponibilidade de água e regularidade das chuvas.

A degradação desses ativos naturais pode deixar de ser apenas um problema ambiental para se transformar em variável econômica.

Preservar vegetação nativa, recuperar áreas degradadas, proteger nascentes e aumentar produtividade em áreas já abertas passam, nesse contexto, a fazer parte de uma mesma equação.

Os dados do MapBiomas não dizem que manter uma floresta em pé impedirá uma seca.

Dizem algo mais preciso — e talvez mais relevante.

Ao comparar quatro décadas de transformação territorial com os grandes extremos climáticos, mostram que a maneira como ocupamos o território importa quando o clima entra em situação extrema.

Para Mato Grosso, que perdeu 29 pontos percentuais de cobertura nativa em 41 anos e cuja economia depende diretamente do clima, esse deixou de ser apenas um alerta ambiental.

É também um alerta econômico.

 

Nota de Transparência

Esta reportagem foi produzida segundo o protocolo de fontes do SEI-NR. A pauta teve como referência reportagem de Fabíola Sinimbú, da Agência Brasil, distribuída nesta quarta-feira (12), sobre o lançamento da Coleção 11 do MapBiomas.

O Nossa República não reproduziu a estrutura narrativa nem trechos autorais da reportagem de referência. Os dados foram confrontados prioritariamente com informações do MapBiomas, incluindo a Coleção 11, a plataforma MapBiomas Atmosfera e levantamentos anteriores sobre cobertura e uso da terra, Pantanal e Bacia do Alto Paraguai.

Dados específicos da Coleção 11 divulgados nesta quarta-feira foram também submetidos a cruzamento com outras publicações jornalísticas que tiveram acesso ao levantamento.



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Redação: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

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