“Eu faço esses registros para mim, para deixar para a história. A função de um documentarista, de uma pessoa que está dentro de um processo é essa, documentar, dar a sua contribuição. Nossa obrigação é dar visibilidade a tudo isso que está acontecendo. Deixar para a história. Não penso no hoje, penso em daqui a uns 100 anos”. O depoimento é do fotógrafo José Medeiros sobre os registros impactantes que ele tem feito das consequências das queimadas no Pantanal que ele chamou de Céu e Inferno em Terras Alagadas.
Há 25 anos Medeiros vai ao Pantanal e, ao longo destes anos, fez muitos amigos que hoje ele considera uma família. Fez também um livro, Pantanal de José Medeiros, lançado em 2014. O olhar atual para a maior planície alagada do planeta, patrimônio natural da humanidade pela Unesco, é de dor e desolação. As imagens retratam os animais carbonizados pelo fogo que já consumiu 10% da área do Pantanal segundo o governo de Mato Grosso.
“Fotografar não é só arrancar uma imagem. Não tiro só fotos, deixo um pouco do José Medeiros no Pantanal. Tem muita história lá com parceiros, amigos, ONGs. Além de documentar tudo isso sou voluntário. A gente vai se ajudando por lá. Acho que o mundo precisa um pouco mais disso. É tudo uma mensagem para a gente aprender a lidar com as pessoas, a prestar atenção ao que até então parece insignificante”, observa.
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Quando os incêndios começaram Medeiros estava no Pantanal fazendo registros sobre o modo de vida dos ribeirinhos dentro do projeto Lufada, além de atuar em um projeto de arrecadação de alimentos para essa população que ficou sem emprego, renda e modo de subsistência por conta da pandemia.
“Percorremos as comunidades Pantanal adentro, descemos o rio Cuiabá até o encontro do rio Paraguai, na chamada Barra do São Lourenço. Nos deparamos com pessoas que perderam a roça e estavam tendo que escolher se comiam no almoço ou na janta. Nesse trajeto eu fiz esse ensaio. Decidi retratar a queimada que está fora de controle, os animais mortos e dar mais visibilidade para o Pantanal, que arde em fogo”, explica. “Preciso tocar as pessoas com esse trabalho”.
O olhar atencioso de Medeiros captou, por exemplo, o casco de um jabuti carbonizado e um jacaré que morreu com a boca aberta, como que pedindo socorro, entre tantas outras. A atenção também está voltada àqueles que atuam dia e noite no combate ao fogo, brigadistas e voluntários, que o fotógrafo chama de heróis.
“Eles dominam o fogo e já conseguiram salvar muita coisa, mas tem a questão do vento que muda de direção muito rapidamente e atinge alturas inacreditáveis. É tudo muito perigoso, eles têm muita coragem”.
Entre os planos de José Medeiros para 2020 estava uma exposição celebrando os 30 anos de dedicação à fotografia, mas foram mudados por conta da pandemia de Covid-19. O fotógrafo, no entanto, diz que não pode deixar de contar a sua história, que agora inclui também os incêndios no Pantanal.
“Este é um ano de muitas perdas, de amigos próximos por conta da doença do novo coronavírus, de quase irmãos como o artista plástico Adir Sodré, com quem eu mantinha uma amizade de mais de duas décadas. Estou pensando em unir tudo isso em uma única exposição”, revela. “O objetivo é colocar esses sentimentos para fora. Quem me conhece sabe que sou muito intenso nos meus trabalhos”.
Além da fotografia, Medeiros se dedica a outras iniciativas em paralelo como uma ação para arrecadar fundos para os indígenas do Xingu durante a pandemia. Nesta ação, chamada SOS Ikpeng, estão sendo comercializadas cinco fotos inéditas de Medeiros (Veja na galeria abaixo). Os recursos arrecadados por meio da vaquinha virtual garantirão a sobrevivência de 109 famílias das aldeias Moygu, Arayo, Tupara, Rawo, Kumari, Paranua, Kurure e Polo Pavuru. Outras informações podem ser obtidas pelo WhatsApp (65) 98114-0315.
A outra iniciativa inclui a doação de cestas básicas para as populações ribeirinhas do Pantanal. As doações podem ser feitas através da ONG Panthera Brasil. O email é [email protected] ou pelos telefones (65) 9 9640-4908 - Suelen e (65) 9 9993-4117 - Elizeu Evangelista (67) 9 9654-8997.



















