O que eu, mulher, trago às minhas costas?
Quando amada, sou livre para criar, estou ao alcance dos sonhos. Elevo-me, flano, flutuo, voo sem medo, beijo o céu, brinco com as nuvens. Ganho asas, as mais belas e resistentes desde Ícaro.
Chamam-me anjo, pássaro, fada. E posso mesmo me perder num amanhecer ou pôr do sol sem fim, feliz tal como sou. Plena.
Quando julgada, culpabilizada, condenada sem o mínimo direito, sem ao menos um olhar de relance para tudo o que sou e o que foi feito de mim, sou louca, senhora louca, demônia, psicótica, histérica, surtada, leviana, lasciva, imoral.
Atam-me os braços, tapam meus ouvidos, calam minha voz, fecham meus olhos. Pesa-me e aprisiona uma camisa de força, colocam-me trancafiada, enclausurada num quarto acolchoado à prova de vida, à prova de ar, à prova de mim mesma. Irrecuperável, irremediável.
E assim sigo, seguimos todas nós, filhas de Gaia, Eva, Lilith, oscilando entre sagradas e profanas, ao sabor dos ventos que nos conduzem, nem sempre coerentes, nem sempre honestos, nem sempre de acordo com nossas vontades. Rotuladas, etiquetadas, muitas vezes mercadorias nas gôndolas para o consumo imediato, carne para a próxima refeição.
Mas sempre seguimos, quase sempre com o mundo a nos pesar à coluna e ao ventre. No peito, uma vontade feroz, incontrolável, e ao mesmo tempo, suave, de viver. Uma gana maior e mais forte do que qualquer limite que possam querer nos impor.
Nascemos todas e morreremos assim, não importam as diferenças. Desde as bruxas ardendo nas fogueiras, é sempre sem querer, sem a menor intenção.
E não há outro destino para nós, senão sutilmente resistir.
Simara 08/11/2020
Viajo lendo seus textos maravilhosos. Obrigada por tanto.
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