Quando decidiu acompanhar o cotidiano dos indígenas Paresí, em Mato Grosso, o cineasta Severino Neto acreditava que encontraria respostas para uma pergunta que há anos divide opiniões no Brasil: indígenas podem plantar soja? Voltou com mais dúvidas do que certezas.
O resultado dessa travessia é "Hanama", documentário que acompanha a experiência de três etnias indígenas ( Haliti Paresí, Nambikwara e Manoki) que transformaram a agricultura em uma estratégia de sobrevivência econômica sem abrir mão da preservação da maior parte de seus territórios.
"Eu cheguei lá armado contra a ideia", admitiu Severino durante entrevista ao Jornal da Cultura. A confissão não é trivial.
Num país acostumado a enxergar os povos indígenas como personagens congelados no tempo, a imagem de tratores cruzando aldeias e lavouras de soja ocupando parte do território indígena produz desconforto em diferentes espectros ideológicos. "Eu sou um cara progressista. Fui preparado para ser contra e voltei a favor", afirmou.
Quando a fome bate à porta
O documentário resgata uma realidade pouco conhecida fora dos limites do Chapadão dos Parecis. Segundo Severino, no início dos anos 2000, a comunidade enfrentava graves problemas de insegurança alimentar. Casos de desnutrição infantil, mortalidade de idosos e ausência de perspectivas econômicas eram frequentes.
Cercados pela expansão do agronegócio e com recursos naturais cada vez mais escassos para garantir a subsistência tradicional, os indígenas passaram a discutir alternativas. A decisão foi tomada coletivamente.
Caciques, lideranças, anciãos e pajés participaram de um amplo debate interno para definir quais áreas poderiam ser utilizadas para produção agrícola. Nascentes, locais sagrados, áreas de caça e regiões frutíferas foram excluídas da atividade. O resultado foi a criação da Copihanama, cooperativa formada pelas etnias Haliti Paresí, Nambikwara e Manoki.
Hoje, cerca de 20 mil hectares são utilizados para o cultivo de soja, milho e milho-pipoca. O número parece expressivo até ser comparado à dimensão total do território. Segundo o cineasta, a área cultivada representa menos de 2% das terras indígenas ocupadas pelos grupos.
"Vocês colocaram esse peso sobre nós"
Entre todas as entrevistas realizadas durante a produção do documentário, uma fala permanece viva na memória do cineasta. Ao questionar uma jovem indígena sobre a aparente contradição entre preservar a natureza e plantar soja, Severino ouviu uma resposta que redefiniu sua percepção sobre o tema. "Ela disse: 'Vocês, brancos, colocaram nas nossas costas essa obrigação de sermos guardiões da natureza. Nós só queremos sobreviver'", relatou.
A frase atravessa o documentário como uma provocação. Ela desloca o debate do campo moral para o campo da realidade. Enquanto parte da sociedade discute o que os indígenas deveriam fazer, muitos povos seguem buscando alternativas para garantir renda, saúde, alimentação e permanência nos próprios territórios.
"Se não houver uma política séria de geração de renda para os povos indígenas, cada vez mais etnias vão procurar formas próprias de sobrevivência", afirmou o cineasta.
Uma cooperativa indígena que mudou a aldeia
O impacto econômico da produção agrícola aparece de forma concreta no cotidiano das comunidades. Segundo Severino, a renda gerada pela cooperativa é distribuída entre as aldeias conforme o número de moradores.
Além da produção agrícola, os recursos financiam atendimentos de saúde, transporte de pacientes e projetos comunitários. O diretor relata que o território passou por uma transformação social significativa. "O êxodo diminuiu. Antes havia menos de mil pessoas vivendo no território. Hoje são mais de quatro mil", contou.
A lógica de distribuição coletiva dos resultados também chamou sua atenção. "É uma estrutura capitalista funcionando de uma maneira quase socialista", brincou.
O novo caminho do etnoturismo
Mas a soja talvez não seja o futuro. Durante as filmagens, Severino percebeu que as lideranças indígenas enxergam no etnoturismo uma possibilidade ainda mais promissora. Campo Novo do Parecis, município que abriga parte dos territórios indígenas, reúne cachoeiras, rios cristalinos, formações naturais e manifestações culturais que começam a atrair visitantes.
Algumas aldeias já recebem turistas interessados em vivenciar aspectos da cultura indígena, conhecer a gastronomia local e participar de atividades tradicionais. "O potencial é gigantesco. Eles mesmos dizem que preservar a natureza também virou um negócio importante para o futuro", afirmou.
Severino evita definir Hanama como um documentário pró ou contra o agronegócio. Para ele, a obra busca algo mais complexo."Esse não é um filme que traz respostas. É um filme que traz perguntas."
Perguntas sobre autonomia indígena. Sobre preservação ambiental. Sobre geração de renda. Sobre quem tem autoridade para dizer como um povo originário deve viver. Ao final da experiência, o cineasta reconhece que a maior transformação aconteceu dentro dele próprio.
"Eu saí de lá um pouco envergonhado dos preconceitos que carregava. Quem somos nós para dizer o que eles podem ou não fazer com a própria terra?"
Talvez seja justamente essa a principal força de Hanama. Não a de convencer. Mas a de obrigar o espectador a repensar certezas que pareciam inquestionáveis.
O documentário ainda não está disponível. Isso porque está rodando festivais, o que exige certo ineditismo. A veiculação do material foi realizada somente durante da COP 30, ocorrida em Belém, no ano passado. A expectativa é que até o ano que vem já seja possível conferir essa produção mato-grossense.






