A 23ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Mato Grosso chega neste ano com uma proposta ampliada: mais do que um ato festivo, o evento pretende consolidar-se como um espaço de afirmação de direitos civis, visibilidade social, empreendedorismo e mobilização política. Com o tema “Envelhecer com Orgulho: Democracia, Resistência e Memória”, a programação será realizada nos dias 26 e 27 de junho, em Cuiabá, reunindo atividades culturais, prestação de serviços públicos e debates sobre cidadania.
A avaliação é do professor e ativista Clóvis Arantes, uma das principais lideranças históricas do movimento LGBTQIA+ em Mato Grosso, que concedeu entrevista aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, no Jornal da Cultura, da Cultura FM 90.7, na manhã desta segunda, 22/06.
Segundo Arantes, a parada vive um momento de transformação diante dos desafios enfrentados pelo movimento em diferentes regiões do país. A proposta é ampliar os instrumentos de organização social da comunidade e fortalecer sua presença no debate público.
“Não podemos entender que a parada é o único instrumento que temos. Precisamos criar outras formas de visibilidade e de unidade para que a comunidade permaneça próxima e organizada”, afirmou.
Feira amplia protagonismo econômico
A principal novidade desta edição é a realização de uma grande feira na Orla do Porto, no dia 26, reunindo empreendedores LGBTQIA+, apresentações culturais, gastronomia, lançamento de livros e serviços públicos.
A iniciativa nasceu da necessidade de evidenciar uma dimensão pouco conhecida da comunidade: sua participação na economia local.
“Queremos mostrar aquilo que a população LGBT produz e que muitas vezes não aparece. Há empreendedores, artistas, profissionais liberais e trabalhadores que contribuem diariamente para a economia e para a cultura do estado”, destacou.
A programação contará com exposição de produtos, apresentações musicais, entrega de homenagens e lançamento de obras da professora Bruna Irineu, pesquisadora que desenvolve estudos sobre memória e diversidade em Mato Grosso.
Para os organizadores, a feira também responde a um problema estrutural: a exclusão de parte da população LGBTQIA+ do mercado formal de trabalho.
Arantes observou que travestis, transexuais e jovens expulsos precocemente da escola em razão da discriminação enfrentam obstáculos adicionais para conquistar emprego e renda.
“Muitas pessoas da nossa comunidade tiveram sua trajetória educacional interrompida pelo preconceito. Isso dificulta a entrada e a permanência no mercado de trabalho”, afirmou.
Envelhecimento entra no centro do debate
Pela primeira vez em seus 23 anos de história, a parada escolheu o envelhecimento da população LGBTQIA+ como tema central.
A escolha reflete uma realidade que, segundo o movimento, ainda recebe pouca atenção das políticas públicas.
“Estamos envelhecendo sem que existam políticas voltadas para essa população. Muitos foram expulsos de casa ainda jovens e hoje enfrentam a velhice em situação de solidão e vulnerabilidade”, explicou.
A proposta é resgatar a memória de militantes e pioneiros que contribuíram para a construção do movimento em Mato Grosso, mas que permaneceram invisibilizados ao longo dos anos.
Nesse contexto, ganha destaque o lançamento do Almanaque LGBTQIA+ de Mato Grosso, obra organizada por pesquisadores que registra trajetórias e histórias da comunidade no estado.
“Cuiabá não começou a ser LGBT agora. Existe uma história construída por pessoas que participaram do comércio, da cultura, da arte e do entretenimento. Era preciso registrar isso”, afirmou.
Prestação de serviços e cidadania
Além das atividades culturais, a feira oferecerá vacinação, orientação jurídica, regularização documental e atendimento por órgãos públicos.
A Defensoria Pública, o Detran, a Polícia Civil e a Polícia Militar participarão da programação.
O objetivo é aproximar serviços públicos de uma população que frequentemente encontra barreiras institucionais para acessar direitos básicos.
A organização também pretende realizar um levantamento do perfil dos participantes por meio de cadastro gratuito.
Segundo Arantes, a medida busca produzir dados que auxiliem futuras reivindicações junto ao poder público.
“Nós precisamos mostrar ao Estado quem somos, quantos somos e quais são nossas necessidades. Sem dados, fica ainda mais difícil construir políticas públicas”, argumentou.
Críticas à ausência de políticas públicas
Durante a entrevista, Clóvis Arantes foi enfático ao afirmar que Mato Grosso ainda carece de políticas públicas estruturadas para a população LGBTQIA+.
Segundo ele, embora existam iniciativas pontuais e diálogo com alguns setores governamentais, não há programas permanentes nem mecanismos institucionais capazes de formular ações específicas.
“O Estado não possui uma política pública voltada para a população LGBT. Existem conversas e espaços de diálogo, mas isso não se transforma em programas concretos”, avaliou.
Entre as reivindicações do movimento está a criação do Conselho Estadual de Políticas Públicas para a População LGBTQIA+, considerado fundamental para institucionalizar a interlocução com o governo.
A ausência desse canal, segundo o ativista, dificulta o enfrentamento de problemas relacionados à saúde, educação, segurança pública e inclusão social.
Documento para candidatos
Em ano eleitoral, a parada também assumirá caráter de mobilização política.
A organização prepara um documento com reivindicações e propostas que será apresentado a candidatos aos cargos de deputado estadual, deputado federal, senador e governador.
A intenção é cobrar compromissos concretos dos futuros representantes.
“Não basta comparecer ao evento ou fazer discursos. Queremos compromissos objetivos com políticas públicas e direitos humanos”, afirmou.
Segundo Arantes, a iniciativa busca ampliar a participação da comunidade nos debates eleitorais e estimular a formação de uma bancada parlamentar comprometida com pautas de cidadania e inclusão.
Debate sobre educação
Outro tema abordado na entrevista foi a recente legislação aprovada em Mato Grosso relacionada à chamada “ideologia de gênero”.
Arantes criticou a medida e argumentou que o conceito utilizado pelos defensores da lei não possui respaldo acadêmico.
Para ele, a restrição ao debate sobre gênero e diversidade nas escolas dificulta o combate à violência contra mulheres, pessoas LGBTQIA+ e outros grupos vulneráveis.
O ativista também demonstrou preocupação com o avanço do modelo cívico-militar nas escolas estaduais, afirmando que o ambiente educacional deve preservar autonomia pedagógica e estimular debates sobre cidadania e direitos humanos.
Parada como manifestação política
Ao responder críticas frequentes dirigidas ao evento, Clóvis Arantes reafirmou que a Parada LGBTQIA+ possui caráter político e nunca escondeu essa característica.
Segundo ele, a luta por direitos civis faz parte da própria existência da população LGBTQIA+.
“Nós assumimos que a parada é um ato político. Ela também é uma festa, uma manifestação cultural, mas nossas vidas são políticas porque ainda enfrentamos preconceito e violência”, afirmou.
A avaliação é que a mobilização segue necessária diante dos desafios enfrentados pela comunidade no Brasil.
Transição geracional
Fundador do movimento organizado em Mato Grosso e há décadas envolvido na defesa dos direitos LGBTQIA+, Clóvis Arantes também revelou que se prepara para uma transição de liderança.
Aos 60 anos e com cerca de quatro décadas de militância, ele afirmou que pretende deixar a presidência da associação responsável pela parada nos próximos anos, abrindo espaço para uma nova geração.
A homenagem recebida nesta edição da parada, como uma das principais referências históricas do movimento, foi encarada por ele como reconhecimento coletivo e compromisso com o futuro da causa.
“Nós construímos uma diretoria formada majoritariamente por jovens. É hora de passar o bastão, mas continuar contribuindo com a luta”, afirmou.
Celebração e resistência
A expectativa dos organizadores é reunir milhares de pessoas nos dois dias de programação.
A concentração da parada ocorrerá na Praça Ipiranga, no dia 27, às 15h, seguindo em direção à Orla do Porto, onde serão realizados shows culturais e apresentações artísticas.
Mais do que uma celebração da diversidade, a parada busca reafirmar sua dimensão histórica como movimento de direitos civis.
Ao colocar temas como envelhecimento, memória, trabalho, saúde e participação política no centro do debate, o evento procura ampliar sua agenda e reforçar a mensagem de que cidadania plena continua sendo uma pauta em construção.
“É o momento de dizer à sociedade que existimos, resistimos e queremos construir uma memória de luta, de felicidade e de direitos para toda a população”, concluiu Clóvis Arantes.






