O Centro de Ressocialização Industrial Ahmenon Lemos Dantas foi palco de um momento inédito e histórico para o sistema penitenciário de Mato Grosso. Em celebração ao Dia de Iemanjá, neste 2 de fevereiro de 2026, foi realizada a primeira manifestação religiosa de matriz africana dentro de uma unidade prisional do estado.
A atividade ocorreu das 8h às 10h, no auditório da unidade, e reuniu cerca de 34 reeducandos, além de lideranças religiosas do Candomblé e da Umbanda. O encontro contou com apoio institucional da Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de Mato Grosso e foi articulado com autorização solicitada pelo Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (CEPIR-MT).
Diante da adesão e da relevância do momento, já existe solicitação formal dos reeducandos para que os encontros religiosos de matriz africana passem a ocorrer de forma regular, assim como já acontece com as celebrações católicas e evangélicas dentro da unidade prisional.
“Isso, para mim, foi fazer parte da história. Pela primeira vez, dentro de uma penitenciária, a gente teve contato com a nossa religião”, relatou o reeducando identificado pelas iniciais J.O.
Entre as autoridades e lideranças presentes estiveram o tateto e presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial, Kafuluande (Manoel Silva); Tata Kature’Nganga, sacerdote de Umbanda da Casa de Axé Pai João de Minas, em Cuiabá, e filho de santo de Mameto Kissiana; a Yamolá Fátima Regina Soares Vieira; além do diretor da unidade, Edson Cassimiro da Silva Filho.
Para Manoel Silva, a iniciativa representa um avanço concreto na garantia de direitos fundamentais. “Essa ação reafirma a liberdade religiosa existente no país. Demonstra que esse direito está sendo assegurado a todos, inclusive às pessoas privadas de liberdade. É um momento importante para que esses reeducandos vivenciem sua fé, fortaleçam sua identidade e se sintam acolhidos”, afirmou.
Outro relato marcante foi do reeducando identificado como M.A.S., que antes da prisão atuava como pai de santo. “Em quase seis anos no sistema prisional, enfrentei muita rejeição e perseguição religiosa. Toda tentativa de exercer minha fé era negada. Hoje, participar do primeiro encontro de religiões de matriz africana dentro do sistema prisional é um momento de gratidão a Deus e aos Orixás”, declarou.
Segundo ele, o encontro abre caminhos para a continuidade do trabalho religioso dentro da unidade e para o fortalecimento da identidade de pessoas que, até então, não tinham liberdade de expressar sua fé. “Muitas pessoas que são de terreiro não tinham essa liberdade. Esse encontro abre portas para que possamos nos reunir e cultuar nossa espiritualidade”, completou.
A próxima luta do grupo é a criação de uma ala específica para pessoas privadas de liberdade que professam religiões de matriz africana, nos moldes do que já ocorre com internos evangélicos.
“Alguns reeducandos hoje estão em alas religiosas que não representam sua fé. Saíram dessas alas para participar do encontro. Nossa intenção é pleitear um espaço onde o povo de santo possa rezar, colocar imagens dos Orixás, fazer seu axé e exercer sua religião com dignidade”, concluiu M.A.S.







Roncali 02/02/2026
Que maravilha saber que o estado de MT também deu um importante passo para nossos irmãos reeducando terem esta oportunidade. Sou ogã do Templo de Umbanda Caboclo Pena Branca na cidade de Taubaté - SP, onde fazemos este trabalho também junto a nossa dirigente mãe Márcia Moreira. Parabéns a todos os envolvidos e que pai Oxalá e os Orixás abençoe este belo trabalho. Roncali Prof da Escola de Curimba e Arte umbandista Caboclo Girassol.
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