O perfeccionismo, especialmente o chamado perfeccionismo emocional, tem se tornado um fator silencioso de sofrimento psíquico e adoecimento mental. O tema foi abordado em entrevista ao Papo com Ela pela psicóloga Maria Alaíde, que explica como esse comportamento se constrói ao longo da vida e quais impactos ele pode gerar nas relações e na saúde mental.
Segundo a especialista, pessoas com traços de perfeccionismo são mais suscetíveis ao burnout e a outros quadros de adoecimento psicológico. “O perfeccionismo está muito ligado à nossa história de vida e à nossa personalidade. Famílias com pouco diálogo, relações mais autoritárias e a ideia constante de que é preciso acertar contribuem para a construção desse padrão”, explica.
De acordo com Maria Alaíde, o perfeccionismo nasce, sobretudo, do medo: medo de errar, de não dar conta, de ser criticado ou julgado. “Esse medo acompanha a pessoa ao longo da vida e interfere diretamente na forma como ela se relaciona consigo mesma e com os outros.”
Conflitos, cobranças e relações desgastadas
O perfeccionismo não afeta apenas quem o vivencia internamente. Ele também impacta as relações interpessoais. Pessoas muito perfeccionistas tendem a exigir dos outros o mesmo nível de desempenho que exigem de si. “Isso se torna uma fonte constante de conflito, porque cada pessoa tem um jeito diferente de agir, pensar e se comportar”, pontua a psicóloga.
Esse padrão pode se manifestar tanto na vida familiar quanto no trabalho. No ambiente profissional, é comum que a pessoa perfeccionista assuma responsabilidades excessivas, por acreditar que ninguém fará tão bem quanto ela. Já nas relações conjugais, a dinâmica pode gerar desequilíbrio. “Muitas vezes, a pessoa toma a frente de tudo e depois se sente sobrecarregada, reclamando que o outro não participa”, observa.
Ao contrário do que se imagina, o perfeccionismo pode ter dois efeitos opostos. Em alguns casos, a pessoa se paralisa por medo de não fazer algo de forma impecável. Em outros, ela assume tarefas em excesso para provar que dá conta de tudo. “Essa pessoa tem dificuldade de dizer não, carrega responsabilidades coletivas sozinha e acaba sobrecarregada emocionalmente”, explica Maria Alaíde.
A psicóloga alerta que é fundamental diferenciar perfeccionismo de excelência. “Buscar excelência é dar o melhor dentro das condições possíveis, com consciência e propósito. Já o perfeccionismo não tolera o erro e transforma qualquer falha em fracasso”, afirma.
Quando o erro deixa de ser visto como parte do aprendizado, surgem sentimentos de culpa, ansiedade e sofrimento psíquico. “A ansiedade já é hoje uma das principais causas de adoecimento e afastamento do trabalho, e essa realidade tende a se intensificar nos próximos anos”, alerta.
O perfeccionismo emocional e a negação da vulnerabilidade
Outro aspecto destacado na entrevista é o perfeccionismo emocional, caracterizado pela tentativa constante de parecer bem, forte e equilibrado o tempo todo. “Existe a ideia de que não posso demonstrar cansaço, irritação, tristeza ou vulnerabilidade. Mas isso é impossível de sustentar”, afirma a psicóloga.
A tentativa de manter essa imagem gera estresse crônico, que se reflete tanto nas relações quanto no corpo. Dores de cabeça, problemas gastrointestinais, taquicardia e outros sintomas físicos podem surgir. “O corpo começa a dar sinais. Cada pessoa responde de uma forma diferente à sobrecarga emocional”, explica.
Saúde mental ainda em segundo plano
Para Maria Alaíde, apesar do aumento de informações sobre saúde mental, o tema ainda não ocupa o lugar que deveria na vida cotidiana. “Aprendemos historicamente a cuidar do corpo, mas não das emoções. Vivemos em uma rotina acelerada, tentando dar conta de tudo, e só paramos quando o corpo para.”
Ela destaca, no entanto, avanços recentes, como a obrigatoriedade de empresas gerenciarem riscos psicossociais, o que inclui a saúde mental. “A longo prazo, isso tende a trazer impactos positivos para as organizações e para a sociedade.”
A psicóloga reforça que a saúde mental é uma construção coletiva. “Ela envolve o físico, o emocional e o social. O perfeccionismo pode levar ao isolamento, gerar conflitos e fazer com que a pessoa seja vista como difícil nas relações.”
Embora não haja dados conclusivos sobre prevalência do perfeccionismo por gênero, Maria Alaíde observa que as mulheres costumam ser mais afetadas pelo burnout. “As mulheres enfrentam dupla ou tripla jornada, são mais cobradas socialmente, e essa sobrecarga se associa facilmente ao perfeccionismo.”
Entre os sinais de alerta estão a necessidade constante de fazer tudo perfeitamente, o desconforto psíquico quando algo não sai como o esperado, a dificuldade em delegar tarefas e os conflitos frequentes nas relações. “É importante observar os próprios padrões, revisitar a história de vida, entender quais crenças foram construídas e quais gatilhos mantêm esse comportamento”, orienta.
Segundo a psicóloga, esse processo pode ser elaborado e transformado. “É possível mudar e ter mais qualidade de vida. O perfeccionismo tem trazido mais vantagens ou prejuízos para a minha vida?"
Ela reforça que organização é algo positivo, mas o excesso pode ser prejudicial. “Tudo em excesso faz mal. O equilíbrio é o caminho.”




