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Depois de anos de idas e vindas, Mato Grosso conseguiu garantir, por meio de contrato, o recebimento seguro e ininterrupto de gás natural proveniente da Bolívia. Fonte de energia limpa e com preços competitivos em relação a outros combustíveis, a matriz energética já foi motivo de sonhos e também de pesadelos para muitas pessoas, que viram seus investimentos feitos para o ingresso no sistema de distribuição do gás jogados fora com o constante desabastecimento. Tão importante quanto a manutenção de um contrato “firme”, o desafio da Companhia Mato-Grossense de Gás (MT Gás) é o de convencer setores da economia de que, enfim, a distribuição será constante.
O primeiro passo para isso já foi dado, explica o presidente da autarquia, Rafael Reis. No ano passado, o Governo de Mato Grosso firmou um novo contrato com a estatal boliviana Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (YPFB). Ele se soma ao acordo assinado com GasOcidente de Mato Grosso Ltda. (GOM), que controla o trecho mato-grossense do gasoduto e fará o transporte do insumo.
“Esses dois contratos asseguram a cadeia do gás. Por conta das mudanças políticas ocorridas na Bolívia, já estamos renovando o contrato de fornecimento até dezembro de 2029, com uma reserva mensal de 1,5milhão de m³. Pensando nos projetos que vamos colocar em prática nos próximos meses, dobramos essa reserva a partir de janeiro do ano que vem”, destaca o presidente da MT Gás, Rafael Reis.
De acordo com o diretor-executivo SindiPetróleo de Mato Grosso, Nelson Soares Junior, o estado inaugurou um novo marco de negociação com a Bolívia. “O gás já está chegando e está sendo distribuído principalmente pelo setor industrial e isso deve trazer um ganho de produtividade. É um componente importante para formação de preço nesses produtos, o que torna o estado mais competitivo”.
Mesmo fazendo fronteira com a Bolívia, país fortemente dependente da exportação de gás natural, Mato Grosso historicamente teve problemas com o combustível. Prova disso é que este acordo em vigor é o primeiro, desde a criação da Companhia, há 15 anos, que assegura um contrato firme, sem a possibilidade de interrupção do fornecimento, e com a entrega da quantia de combustível contratada.
Um dos problemas para isso é o fato de que o Estado não é contemplado pelo Gasoduto Bolívia-Brasil, também conhecido como Gasbol. Na cidade andina de São José de Los Chiquitos há uma bifurcação. Enquanto um ramal segue para Mato Grosso, pelos municípios de Cáceres, Poconé, Nossa Senhora do Livramento, Várzea Grande e Cuiabá, o Gasbol entra em território brasileiro pelo município de Corumbá (MS) e segue até Porto Alegre (RS).
Economia
A redução nos custos de diversos setores da economia com a adoção do gás natural é um importante atrativo, mas o trauma causado pela instabilidade na distribuição e no fornecimento ao longo dos anos gera desconfiança. “Mundialmente se busca uma energia confiável, limpa e com preços competitivos, como o gás natural. Em Mato Grosso ele atende a estes três requisitos. Justamente por isso, o desafio aqui é um contrato que assegure o fornecimento permanentemente”, destaca o presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt), Gustavo de Oliveira.
Ele estima que a economia gerada pela adoção do gás natural em relação ao gás liquefeito de petróleo (GLP) atinja 40%. “Quem teve que sair do gás natural para o GLP viu seu custo de produção subir nesta proporção, um aumento muito impactante nos seus custos”. Conforme Oliveira, ao menos 20 indústrias já estariam prontas para receber o gás, número que pode ser multiplicado por 10 em um curto espaço de tempo.
“Acreditamos que deverão voltar as oficinas de instalação, o governo do Estado vai fazer um programa de benefícios para quem for transformar o carro para o GNV e a nossa expectativa é que seja mais um produto ofertado ao consumidor ao longo do tempo, expandindo de Cuiabá para outras regiões”, destacou Junior.
Para Luiz Flávio Blanco, que é administrador do Posto Santa Elisa, localizado na Avenida Miguel Sutil, a retomada da revenda foi uma conquista para o comércio local. Por isso, a expectativa é de comercializar 60 mil m³ em pouco tempo. “Foi uma luta do setor de combustíveis a revenda do gás e isso tem beneficiado cada vez mais o consumidor e o comércio da nossa região”, afirmou Blanco.
Pandemia
A pandemia do novo coronavírus trouxe impactos para a retomada do gás natural, sobretudo no abastecimento de veículos, por meio do GNV. “Como diminuiu muito a circulação de veículos em grandes centros, a diminuição do petróleo derrubou o preço do etanol, que é concorrente do GNV. O segundo impacto ocorreu nas indústrias, uma vez que a demanda por produção caiu, mas isso não foi significativo. Estamos dando prazo maior para o pagamento do gás para que essas cadeias tenham um fôlego a mais”, explicou o presidente do MT Gás.
Além de afetar a produção, a Covid-19 mexeu no mercado de câmbio, fazendo com que o Real se desvalorizasse junto ao Dólar. Mas isso, ressalta o presidente da Fiemt, não representa um problema para a viabilidade do gás natural. “Isso porque além do câmbio, o preço do petróleo impacta no mercado. Como não está vantajosa a extração do petróleo, cai a oferta do GLP, mantendo os preços mais altos e tornando viável o gás natural”.
Projetos
Atualmente, a MT Gás trabalha com três eixos prioritários. Além do GNV, a companhia pretende instalar um corredor de Gás Natural Liquefeito ou GNL, começando em Rondonópolis e seguindo até Miritituba (PA). A ideia é possibilitar o abastecimento do combustível aos caminhões, reduzindo o custo do frete. “No caso do GNL, há um clamor das transportadoras, uma vez que a redução no custo, em relação ao diesel, chega a 37%. Então, acreditamos que em outubro já teremos o avanço desta proposta”, projeta o presidente da autarquia.
Em outra frente, as empresas do Distrito Industrial de Cuiabá deverão ser contempladas com o fornecimento do gás. A ideia é que no ano que vem seja lançado o edital para escolha da empresa que vai construir a rede e fornecer a matriz às indústrias instaladas naquela localidade.
Para a presidente da Associação de Empresas do Distrito Industrial de Cuiabá (AEDIC), Margareth Buzetti, o preço competitivo do gás natural é o maior atrativo. Há cerca de 300 empresas instaladas no Distrito, e uma crescente demanda por terrenos para instalação de novos empreendimentos na região, revela.
"É uma opção interessante, mais barata, que pode vir a contribuir para que haja maior industrialização. Porque hoje a gente procura a diminuição do custo, e esta é a matriz energética mais barata, comparando com a elétrica e à lenha", afirma.
Por fim, a empresa pretende aumentar a oferta de GNV, capacitando empresas para a conversão dos veículos e ampliando a rede de postos.
Agropecuária
O gasoduto, que percorre aproximadamente 280 quilômetros em Mato Grosso, tem uma capacidade de transporte de 4 milhões m³ por dia. Segundo um estudo feito no Centro de Pesquisa para Inovação em Gás (RCGI), a substituição da atual matriz energética, que é o diesel, pelo gás natural seria uma grande vantagem para o estado, levando em consideração a produção de soja, algodão, milho e carne bovina.
A ideia do grupo do RCGI é que o gás natural chegue a Cuiabá pelo gasoduto, passe por processo de liquefação no City Gate de Cuiabá (local onde a MT Gás recebe o gás vindo da Bolívia e que existe a usina termelétrica – a UTE Mário Covas, com capacidade de 400 MW) e, de lá, siga por via rodoviária para os pontos escolhidos nas cinco grandes regiões do estado. E para ser consumido, o gás deve ser regaseificado.
“Temos uma perspectiva enorme de agregação de valor do GNV e podemos até imaginar do gás de cozinha encanado ser implantado em Cuiabá. Tem muita coisa para ser feita. A indústria tem se apropriado muito desse produto, substituindo fontes de energias mais caras. Mas, o consumidor vai poder usufruir de uma energia bastante efetiva no sentido de produtividade, já que o gás natural tem um rendimento convidativo e é o único combustível que a gente conhece que se queima quase 100%, então não gera agravante na área de meio ambiente”, explicou Soares Junior.
A utilização do gás como insumo energético apresenta vantagens sobre outras fontes fósseis de energia, principalmente em relação à segurança e eficiência. Por se tratar de um elemento mais leve que o ar, incolor, inodoro e não-tóxico, o gás natural não necessita ser atomizado para a queima, o que lhe confere uma combustão limpa e eficiente no que se refere ao seu rendimento térmico.
“O potencial é ilimitado, à medida que conseguimos transferir esse gás para fora da região metropolitana, temos ganho também na região do agronegócio que utiliza lenha ou óleo combustível e passando a utilizar o gás natural só traz benefícios para economia”, disse Junior.
Entretanto, o que ainda dificulta esse crescimento no setor é investimento. Nelson Soares Junior explica que a segurança jurídica ainda é uma preocupação. Para trabalhar com esse produto é necessário além da demanda, uma contratação clara e definida com uma série de regulações que garantam o fornecimento. “Estamos iniciando um processo que na Europa e Estados Unidos já é avançado. Precisamos crescer para ter uma representatividade e impacto econômico ainda no estado. Não será um crescimento rápido, porque os custos do investimento são elevados” disse Junior.
“O que sonhamos é que exista uma rede de gasoduto atendendo todo estado, saindo de Alta Floresta e chegando até a divisa com Mato Grosso do Sul e Goiás. O projeto inicial era esse, que conseguisse criar uma rede de atendimento utilizando só o gás natural”, pontuou Soares Junior.





