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AGROINDUSTRIALIZAÇÃO

Produção de etanol salta de 1,2 bi para 8,4 bi de litros e setor pressiona por soluções logísticas e energéticas

Mauro Camargo com Michely Figueiredo

Arte produzida por IA

Etanol de Milho

 

O setor de bioenergia de Mato Grosso vive um crescimento explosivo — e enfrenta gargalos estruturais na mesma proporção. Em entrevista ao Jornal da Cultura (CULTURA FM 90.7) nesta segunda-feira (20), o diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Bioenergia do Estado de Mato Grosso (BioInd), Wellington Andrade, traçou um panorama de números expressivos e desafios iminentes.

A produção de etanol no estado saltou de 1,2 bilhão de litros na safra 2017/2018 para uma projeção de 8,4 bilhões de litros na safra 2026/2027. Desse total, 7,3 bilhões de litros vêm do etanol de milho e 1,1 bilhão de litros da cana-de-açúcar. O crescimento exponencial, segundo Andrade, foi puxado principalmente pela instalação de indústrias de etanol de milho a partir de 2017.

"O principal motivo por essas indústrias se instalarem em Mato Grosso é a matéria-prima. Você está do lado da matéria-prima. Mato Grosso é o maior produtor de milho do Brasil", afirmou. O estado responde hoje por 62% de toda a produção nacional de etanol de milho.

E32 e o fator geopolítico

Uma das principais notícias para o setor foi a decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de elevar o percentual de etanol anidro na gasolina para 32% — o chamado E32.

Em menos de um ano, a mistura subiu cinco pontos percentuais: de 27% no primeiro semestre de 2025 para 30% em agosto, e agora 32%. Cada ponto percentual tem impacto direto na indústria. "Só esses dois pontos percentuais atuais vão elevar a produção em 900 milhões de litros. Com isso, a gente deixa de importar 900 milhões de litros de gasolina", explicou Andrade.

O principal argumento do governo para adotar a medida foi geopolítico. A escalada do conflito no Leste Europeu e no Oriente Médio, expõe o Brasil às oscilações internacionais do preço do petróleo. "Mesmo que o conflito acabe, as infraestruturas locais foram destruídas. Leva médio e longo prazo para serem reestruturadas", disse.

Andrade ressaltou que o benefício mais relevante não é necessariamente a redução no preço da bomba — que depende da correlação entre o preço do etanol e da gasolina na refinaria —, mas a estabilidade do ambiente geopolítico e a menor exposição às oscilações internacionais.

A crise da biomassa e o prazo de 2035

Um dos gargalos mais delicados do setor é a origem da biomassa usada na produção de etanol de milho. Atualmente, as indústrias utilizam biomassa de floresta plantada (eucalipto) e de floresta nativa, oriunda de desmatamento legal.

O governo de Mato Grosso assinou um termo de compromisso ambiental com o Ministério Público que estabelece metas progressivas: até 2034, no máximo 40% da biomassa poderá vir de floresta nativa. A partir de 2035, zero. Toda a biomassa deverá ser originada de floresta plantada.

"O estado hoje planta em torno de 200 mil hectares de floresta plantada. Isso não é suficiente para atender todas as plantas", alertou Andrade. O governo construiu um plano de desenvolvimento florestal com meta de atingir 700 mil hectares até 2040.

Para efeito de comparação, Mato Grosso do Sul tem atualmente dois milhões de hectares de floresta plantada. O custo de implantação é alto, e o tempo é curto: o primeiro corte do eucalipto leva de seis a sete anos. Até lá, só investimento.

"A partir do ano que vem, todos esses projetos de expansão precisariam ser implantados para dar tempo do primeiro corte. Isso também pode ser um fator desafiador, porque quando todo mundo corre para uma mesma matriz, pode aumentar o custo de produção", afirmou.

Logística: etanol duto, ferrovia e multimodalidade

O escoamento da produção é outro desafio estrutural. Mato Grosso está longe dos centros consumidores (Sudeste e Nordeste) e dos portos exportadores. Andrade anunciou que o BioInd vai contratar um estudo de viabilidade econômica para um etanol duto ligando Mato Grosso a Uberlândia (MG) — primeiro ponto do etanol duto que segue até Paulínia (SP).

"Por enquanto não tem nenhum projeto concreto. Mas no médio e longo prazo, essa seria a principal solução para o transporte logístico do etanol em Mato Grosso", afirmou.

A Ferrovia Senador Vicente Vuolo também é vista com otimismo. O ramal que chegará ao Médio Norte — principal polo produtor de etanol de milho, nos municípios de Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sinop — reduzirá custo logístico, tempo de transporte e emissão de CO₂.

Andrade defendeu a multimodalidade. "Ainda dependemos dos caminhões para o frete curto até o terminal. Mas se tiver rodovia, ferrovia e duto de escoamento, seria o sonho para a produção do estado."

Energia trifásica, mão de obra e reforma tributária

O setor recebeu com bons olhos o programa MT Trifásico, do governo estadual, que leva energia trifásica aos polos produtivos. "A produção geralmente chega mais rápido do que a infraestrutura. Existem casos de armazéns que deixaram de operar por instabilidade de energia elétrica", lembrou Andrade.

Na mão de obra, o problema é inverso ao de outros estados: Mato Grosso está em pleno emprego, com taxa de desocupação de apenas 2,5%. "Há uma concorrência por mão de obra, especialmente a especializada. Treinamos o profissional e ele fica exposto a um concorrente vir e tomar", disse.

Sobre a reforma tributária, Andrade reconheceu que o setor depende dos incentivos fiscais — especialmente o crédito outorgado — para compensar o custo logístico. "Não é para colocar dinheiro no bolso, é para compensar a distância dos mercados." O período de transição vai até 2033, e o estado precisa fazer sua parte com investimentos em infraestrutura para manter a atratividade.

Impacto econômico

 

Os números do setor são expressivos. Em 2025, a bioenergia gerou 147 mil empregos (diretos, indiretos e induzidos) e arrecadou R$ 3,3 bilhões em impostos. O setor responde por 12% de toda a arrecadação estadual.

"É um dos setores que individualmente mais arrecadam para o Estado, e tudo isso é revertido em benefício social e políticas públicas", destacou Andrade.

Preço na bomba

Sobre a reclamação recorrente dos consumidores — por que o etanol não é mais barato nas bombas de Mato Grosso, sendo o maior produtor nacional? —, Andrade foi objetivo: o preço pago à usina gira em torno de R$ 2,70 por litro. O consumidor paga cerca de R$ 3,40 na bomba. "Não é um problema das usinas. As usinas estão vendendo a esse preço. Têm as distribuidoras, têm outros agentes que podem margear nesse caminho até a bomba."

El Niño no radar

Para fechar, Andrade mencionou a preocupação com o fenômeno El Niño, que pode ser um dos mais fortes dos últimos tempos. "Isso significa excesso de chuva no Sudeste e Sul e déficit hídrico no Centro-Oeste. Pode interferir na produtividade do milho e da cana. Ainda não há confirmação, mas se confirmar, será um desafio para a próxima safra."

As informações são de entrevista concedida por Jonathan Gabriel da Silva, coordenador do EJA no SESI Escola Várzea Grande, à jornalista Michely Figueiredo no Jornal da Cultura (CULTURA FM 90.7), em 20 de julho de 2026.



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