NOTICIÁRIO Domingo, 19 de Julho de 2026, 12:14 - A | A

Domingo, 19 de Julho de 2026, 12h:14 - A | A

EM COLETIVA DE IMPRENSA

Pivetta anuncia autoridade metropolitana de transporte, plano de R$ 80 mi para água em VG e entrega do BRT até o fim do ano

Mauro Camargo e Michely Figueiredo

O governador Otaviano Pivetta (Republicanos) recebeu dezenas de jornalistas de veículos de comunicação de Cuiabá na tarde da última sexta-feira (17) no Palácio Paiaguás, em uma coletiva que durou mais de duas horas e abordou desde a crise hídrica em Várzea Grande até a eleição de outubro. O clima foi descontraído. O governador circulou entre os presentes, cumprimentou pelo nome cada jornalista, fez questão de apresentar toda a sua equipe e, repetidas vezes, pediu para ser questionado. "Nada melhor do que ouvir os profissionais da imprensa de Mato Grosso", disse ao abrir a conversa.

O tom leve, no entanto, contrastou com o peso das revelações. Pivetta anunciou três decisões de alto impacto para a região metropolitana e fez uma avaliação política que ecoará na campanha eleitoral.

Autoridade metropolitana sai na terça

A novidade de maior alcance institucional veio na área da mobilidade. Pivetta afirmou que vai enviar à Assembleia Legislativa, na próxima terça-feira (21), um projeto de lei criando a autoridade metropolitana de transporte coletivo, um novo órgão que centralizará a gestão, a operação e a cobrança do sistema de transporte público na região que envolve Cuiabá, Várzea Grande e os municípios do entorno.

O modelo, segundo o governador, foi copiado de Goiânia. "Encontramos lá o modelo mais articulado, mais moderno, versátil, bem concebido do ponto de vista de transporte coletivo urbano", explicou.

A proposta define o formato jurídico da autoridade - se empresa pública, agência reguladora ou sociedade de economia mista - e como será feita a gestão da cobrança, da manutenção e da operação dos ônibus.

Pivetta pediu prazo até terça-feira para ultimar os estudos técnicos e jurídicos. "Trabalhamos final de semana", disse.

BRT: entrega até dezembro, passagem sem reajuste

O governador reafirmou o compromisso de colocar o BRT em operação até o fim deste ano. Os corredores dos primeiros trechos — Aeroporto-CPA e CPA-Aeroporto — já estão prontos, em fase de sinalização. Faltam obras pontuais de calçadas, canteiros centrais e paisagismo.

O contrato do lote viário, que inclui pavimentação, paisagismo e iluminação, foi prorrogado por 150 dias e se estenderá até novembro. O secretário-adjunto de Infraestrutura, Isaac Nascimento Filho, detalhou os números da prestação de contas. VLT original: contratado por R$ 1 bilhão, com R$ 1,066 bilhão pagos até a 22ª medição. Venda dos veículos e equipamentos: R$ 925 milhões recuperados. Total aplicado no BRT: cerca de R$ 900 milhões. Saldo a executar no trecho 1: aproximadamente R$ 450 milhões. Estimativa para o trecho Coxipó (2ª etapa): R$ 250 milhões

"São 77 estações centrais climatizadas, com ar-condicionado. Três terminais, sendo eles em Várzea Grande, Porto (com CCO) e CPA. E todo um sistema de inteligência por trás, com semáforos inteligentes que reconhecem a travessia de pedestres", detalhou Filho.

Sobre a tarifa, o governo garantiu que não haverá aumento. "O estado está fazendo todo o investimento nos veículos elétricos justamente para não ter impacto na tarifa", afirmou Nantes. Isso significa dizer que o preço a ser adotado deve permanecer no patamar executado hoje no transporte público. 

O governador também ouviu com atenção o apelo do Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) para reavaliar o trajeto do segundo trecho — que originalmente passaria pela Avenida Fernando Corrêa — e desviá-lo para a Beira Rio, evitando novos prejuízos ao comércio local. "Me parece uma ideia cheia de fundamento", respondeu Pivetta, determinando que sua equipe técnica avalie a viabilidade.

No entanto, o adjunto afirmou que a Fernando Correa foi escolhida para a execução do segundo ramal por ser a localidade que mais recebe ônibus do transporte coletivo. Ainda assim, disse que numa eventual expansão do trajeto do BRT pode ser avaliada pela Beira Rio. 

Sobre o Complexo Leblon (Todimo), a promessa é 30 de julho, a parte de cima da trincheira será liberada. 30 de agosto, o trecho até o Complexo Leblon.

Aliança pela Água: R$ 80 milhões e 200 policiais para Várzea Grande

O anúncio de maior impacto social veio na área de saneamento. Pivetta revelou que o estado concluiu um plano de ação de 180 dias para levar água tratada a todos os domicílios de Várzea Grande, cidade que vive uma crise hídrica crônica e cuja prefeita, Flávia Moretti (PL), decretou calamidade financeira.

O plano, batizado de Aliança pela Água, prevê investimentos da ordem de R$ 70 a R$ 80 milhões e inclui o destacamento de 200 policiais militares para patrulhar o sistema de abastecimento e coibir furtos e ligações clandestinas.

A execução, no entanto, depende de um imbróglio jurídico. O Tribunal de Contas já solicitou ao Ministério Público a intervenção estadual no DAE (Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande). Pivetta deixou claro que, sem decisão judicial, não pode intervir. "O governador só assina um ato desse quando for notificado pela Justiça. Até lá, o município é autônomo, a prefeita é a maior autoridade", afirmou.

Mas o estado está pronto para os dois cenários. Se a Justiça determinar a intervenção, o plano sai imediatamente. Se não houver determinação, o governo tentará um acordo voluntário com a prefeitura, a Aliança pela Água, pelo mesmo modelo. "Nós estamos negociando para fazer de maneira voluntária. Estado e município com um comitê de gestão de crise", explicou.

Pivetta foi questionado sobre a situação fiscal de Várzea Grande como um todo. "Infelizmente, a questão de Várzea Grande tem problema crônico, histórico. É lamentável que a prefeita tenha tido que declarar calamidade financeira", disse.

A prefeita decretou calamidade pela quinta vez desde que assumiu o posto, sendo esta última provocada pelo bloqueio judicial de R$ 19 milhões pelo não pagamento de precatórios dos anos de 2023 e 2024. 

Consignados: "CPI em ano eleitoral não é normal"

Sobre a crise dos consignados, que levou a Polícia Federal a deflagrar a Operação Fugazi no último dia 15, com 13 mandados em São Paulo e no Rio Grande do Sul, Pivetta tratou o assunto com frieza.

A operação, segundo ele, "foi destinada às empresas que fizeram consignados aqui e em outros estados. Não houve nada que desabonasse a conduta de ninguém das nossas equipes", afirmou ao negar que mudanças na Secretaria Estadual de Planejamento (Seplag) possam acontecer. 

Sobre a possibilidade de uma CPI na Assembleia Legislativa, que o presidente da Casa disse ganhar corpo após a operação, o governador afirmou não ter "nenhum problema". Mas fez questão de contextualizar.

"Esse assunto não é novo. Nós estancamos isso em junho do ano passado. Aprovamos uma lei que proibiu agente financeiro sem endereço em Mato Grosso de fazer consignado, eliminamos todo e qualquer cartão benefício. Entramos na Justiça e os valores estão sendo depositados em juízo. Nós estamos agindo em defesa dos servidores."

E completou: "É claro que CPI, em época de campanha política, ninguém gosta, e também não é normal. Os deputados estão no papel deles. Parlamento tem que falar, tomar decisões, formar consenso ou disputar ideias no voto. Respeito a atividade parlamentar."

Tarifaço dos EUA: "É bastante grito e pouca lã"

Pivetta foi direto ao ser perguntado sobre o tarifaço de 25% imposto pelo governo Donald Trump ao Brasil. Recorreu a um dito popular do seu tempo de guri no Rio Grande do Sul.

"Isso aí é que nem tosa de porco. É bastante grito e pouca lã. Você já viu porco sendo tosado? Impossível. Só que porco, você segura ele, é uma gritaria do cão. Não aconteceu nada, só que ele grita muito. É mais ou menos isso que está acontecendo no Brasil. Todo mundo se apegando nisso, com fins eleitoreiros."

Para ele, o impacto sobre Mato Grosso é "zero". "Nós não temos os Estados Unidos como mercado importante pra nós. A carne está fora dessa tributação. Máquinas agrícolas, o Brasil importa dos Estados Unidos. Nós compramos muito. Pro Brasil, não sei qual setor está sendo prejudicado, porque foi excluído mil produtos do portfólio. Parece que não sobrou nada pra ser taxado."

A declaração contrasta com a posição do governo federal e coloca o governador em rota divergente da narrativa de "marco lastimável" adotada pelo Palácio do Planalto e também com o discurso de setores da indústria mato-grossense, que veem riscos no médio prazo.

Eleição: preparado, mas sem vice

Perguntado se está preparado para disputar a eleição ao governo contra o senador Wellington Fagundes (PL) e o senador Jayme Campos (União), Pivetta foi sucinto: "Estou preparado para disputar a eleição." Não confirmou nem negou composições, e se recusou a dar o nome do vice. "Vamos pular essa parte pra gente não perder tempo."

Sobre a relação com a ex-mulher e a possibilidade de ataques na campanha, incluindo o episódio envolvendo a Lei Maria da Penha, do qual foi inocentado, o governador disse estar preparado.

"Já sofro há muito tempo. Sobre a Lei Maria da Penha, fui inocentado em Santa Catarina e fui inocentado aqui. Nunca me referi a esse assunto por respeito e amor às crianças que participavam dessa vida conjugal. Não é agradável, mas eu me proponho. Quero ser um homem público."

 



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