NOTICIÁRIO Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2026, 06:00 - A | A

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CRÔNICA DO JULGAMENTO

A Sentença da História: o peso da justiça sobre os irmãos do crime

Mauro Camargo

A noite já havia caído sobre Nova Mutum quando, às 19h06, a defesa assumiu a palavra para tentar o que parecia impossível. O defensor público Guilherme Rigon, representando Rodrigo, adotou um tom pedagógico. Falou de "contrato social" e "democracia", tentando humanizar o réu que, horas antes, havia confessado o crime apenas com o silêncio.

Rigon não negou o óbvio. Admitiu que Rodrigo invadiu a casa, que espreitou na mata e que entrou pela janela do quarto das crianças. Reconheceu a brutalidade dos fatos e até a incidência do meio cruel — algo raro na tribuna defensiva —, rendendo-se à evidência irrefutável dos 40 golpes de faca. Sua estratégia, porém, foi cirúrgica: tentar salvar Rodrigo da qualificadora de feminicídio. O argumento era técnico: Rodrigo matou por dinheiro (R$ 4 mil) e por gratidão ao irmão reencontrado, não por ódio ao gênero feminino. Para a defesa, o feminicídio era um "pecado" exclusivo de Romero.

Às 19h42, foi a vez de Mauro Cezar Duarte Filho defender Romero. O advogado tentou resgatar a "autodefesa" do réu, pedindo aos jurados que não ignorassem a versão do mandante apenas por ser a dele. Romero negava a autoria, admitindo apenas o contato fraterno com Rodrigo. A defesa tentou, ainda, absorver o "motivo torpe" dentro do "feminicídio", buscando evitar uma dupla punição jurídica. Era uma batalha de conceitos em meio a um cenário de sangue.

Mas a noite pertencia à voz de Raquel, ecoada pela promotora Andreia Monte Alegre. Às 20h39, na réplica, ela subiu à tribuna não apenas como acusadora, mas como mulher e mãe. "O quebra-cabeça está perfeito e montado. A única peça que falta é a justiça", declarou. Sua fala foi um golpe emocional certeiro. Ela lembrou que Raquel foi morta por quem jurou amá-la e pelo cunhado, numa emboscada doméstica e covarde. "Não bastava matar, era preciso fazê-la sofrer", disse a promotora, descrevendo a agonia da vítima que segurou o próprio cabelo enquanto morria.

O promotor João Marcos encerrou os debates com um apelo à verdade dos autos. O júri, agora munido dos quesitos, retirou-se para a sala secreta. Eram 21h56. O tribunal silenciou. Do lado de fora, a ansiedade de uma família destruída; do lado de dentro, sete cidadãos decidiam o peso da lei.

Quando a juíza Ana Helena Alves Porcel Ronkoski retornou ao plenário, já passava das 23h50. A sentença foi lida sob a gravidade do momento. Para Rodrigo, os jurados foram implacáveis: materialidade, autoria, condenação. Reconheceram o homicídio, o furto e a crueldade. A pena: 33 anos, 3 meses e 20 dias.

Para Romero, o veredito foi ainda mais simbólico. Por 4 votos a 0 em quesitos cruciais, o Conselho de Sentença reconheceu tudo: a autoria intelectual, o motivo torpe, a ciência da crueldade, a emboscada e o feminicídio. A tese de que ele "não sabia" como o crime seria executado foi rechaçada. A juíza, ao fixar a pena, destacou a "culpabilidade elevada" e a "personalidade negativa" do réu, que planejou a morte da mãe de seus filhos com frieza calculista. A sentença: 30 anos de prisão.

Já era madrugada de sexta, 0h15, quando o martelo bateu pela última vez. A justiça não trouxe Raquel de volta, como bem lembrou sua mãe, Sandra. Mas a resposta do Estado foi dada. Os irmãos Mengarde saíram do tribunal não mais como suspeitos, mas como condenados pela história. O julgamento do caso Raquel Cattani encerrou-se ali, mas sua memória, defendida com vigor no plenário, permanece como um alerta permanente de que, em Mato Grosso, o feminicídio não encontrará o silêncio da impunidade.

 Leia também: Crônica do Julgamento - Parte 1



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