NOTICIÁRIO Sábado, 24 de Janeiro de 2026, 12:21 - A | A

Sábado, 24 de Janeiro de 2026, 12h:21 - A | A

CRÔNICA DO JULGAMENTO

A trama da crueldade: o dia em que a Justiça ouviu o silêncio do Pontal do Marape

Mauro Camargo

Imagem produzida por IA

Juri de Raquel Cattani, Parte I

 

O relógio marcava 08h21 quando o silêncio solene do Tribunal do Júri foi quebrado pela leitura do termo de apregoamento. No banco dos réus, os irmãos Romero e Rodrigo Xavier Mengarde aguardavam o início do rito que selaria seus destinos. Do lado de fora, a cidade de Nova Mutum, e por extensão todo o Mato Grosso, prendia a respiração. Não era apenas um julgamento; era o epílogo de uma tragédia que expôs as vísceras da violência doméstica no coração do agro mato-grossense.

O Conselho de Sentença, sorteado minutos depois, formou-se com a predominância feminina que o caso simbolicamente exigia: cinco mulheres e dois homens. A juíza Ana Helena Alves Porcel Ronkoski, com a serenidade de quem conduz um processo de vida e morte, advertiu sobre a incomunicabilidade. Ali, naquele plenário, o mundo lá fora deixava de existir. Restavam apenas as provas, as dores e a busca pela verdade sobre a morte de Raquel Cattani.

A primeira voz a ecoar no tribunal foi a da técnica policial. O delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri, primeiro a depor, reconstruiu a cronologia do horror. Sua narrativa transportou os jurados de volta àquele julho de 2024, no Assentamento Pontal do Marape. Ele descreveu não apenas a cena do crime, mas a arquitetura da dissimulação. Romero, o ex-marido, apresentou-se espontaneamente à polícia, munido de um álibi que parecia blindado: churrascos, casas de prostituição, testemunhas. Uma rotina forjada para gritar inocência enquanto o sangue de Raquel ainda manchava o chão de sua casa.

Mas a frieza dos álibis não resiste ao calor dos fatos. O delegado narrou como a "cena perfeita" começou a ruir. Uma janela arrombada no quarto das crianças. Uma televisão abandonada do lado de fora com a marca de uma bota. E, dentro da casa, o corpo de Raquel, marcado por perfurações de defesa nos braços — os últimos gestos de quem lutou pela vida. Apenas o quarto dela estava revirado. O ladrão seletivo, que ignorou outros bens para simular um roubo, deixou sua assinatura: não era patrimônio que ele queria, era uma vida.

Às 09h12, o plenário ouviu o detalhe que gelou a espinha dos presentes. Rodrigo, o irmão executor, não apenas invadiu a casa; ele esperou. Ficou à espreita, escondido, sentindo o cheiro da rotina da vítima. Quando Raquel entrou, percebeu algo errado. O cheiro forte do intruso denunciou o perigo, mas já era tarde. A emboscada estava armada. A descrição do delegado sobre os 15 minutos fatais — entre a chegada de Raquel e o silêncio definitivo de seu celular — desenhou o quadro da premeditação brutal.

A promotoria, liderada por João Marcos de Paula Alves e Andreia Monte Alegre, explorou cada contradição. O comportamento de Romero foi dissecado: astuto, calculista, sem lágrimas. Um homem que, diante da morte da mãe de seus filhos, preocupou-se mais em observar os interlocutores do que em demonstrar luto. As perguntas dos promotores trouxeram à luz o histórico de controle e obsessão. Testemunhas falavam de uma Raquel vigiada, assustada, que dias antes havia profetizado o próprio fim: "Se acontecer alguma coisa comigo, foi ele".

A defesa tentou brechas. Questionou provas digitais, IPs de internet, a ausência de conversas no celular de Rodrigo. Mas a teia de provas técnicas era densa. As torres de telefonia (ERBs) haviam traçado o caminho da fuga de Rodrigo, a moto em alta velocidade, a camisa rosa. A tecnologia confirmou o que a intuição policial já gritava: os irmãos Mengarde estavam unidos pelo sangue e pelo crime.

Quando o delegado Edmundo Félix de Barros Filho assumiu o microfone às 10h22, a narrativa ganhou contornos ainda mais sombrios. Ele falou do "ciclo da violência". Raquel vivia entre a lua de mel e o terror psicológico. Romero manipulava, ameaçava suicídio, usava os filhos e a surdez parcial da vítima como armas de humilhação. A crueldade não começou com a faca; começou com as palavras, com o desprezo, com a desumanização diária.

Edmundo foi categórico: Rodrigo não tinha motivos para matar Raquel. Não havia ódio, não havia dívida, não havia relação. Ele foi a mão armada de uma vontade alheia. A promessa de pagamento e, talvez mais perverso ainda, a promessa de "resgate do prestígio familiar" junto ao irmão motivaram a execução. O crime foi o preço da reconciliação entre os irmãos Xavier Mengarde.

Mas foi às 11h31 que a técnica cedeu lugar à emoção bruta. Sandra Cattani, mãe de Raquel, sentou-se à frente dos jurados. Sua voz, embargada pela dor de quem enterrou uma filha, narrou o encontro com o corpo. A porta fechada, o silêncio, a esperança vã de que fosse apenas um desmaio, e o toque gelado da morte. Sandra não falou de IPs ou ERBs; falou de netos que pedem para ver vídeos da mãe no celular, de crianças que abraçam camisetas com o cheiro dela, de uma ausência que ocupa todos os cômodos da casa.

Ela descreveu o último almoço, a recusa de Raquel em tirar fotos com Romero, o choro dissimulado dele ao levar as crianças. O choro de quem sabia que aquela era uma despedida forçada, não uma separação. Sandra olhou para os jurados e para a história, e sua frase ecoou como uma sentença antecipada: "Ele tirou o direito de eles terem a mãe".

Quando a juíza suspendeu a sessão para o almoço, às 12h17, o ar no plenário estava pesado. As provas técnicas haviam construído a lógica da condenação, mas foi a dor de uma mãe que deu alma ao processo. A manhã havia dissecado a frieza dos réus; a tarde prometia o confronto final entre a barbárie e a justiça. O julgamento estava apenas começando, e a trama da crueldade no Pontal do Marape ainda tinha capítulos a serem revelados.

 (Continua amanhã)



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