Quando a sessão foi retomada às 13h26, o tribunal já não respirava o ar da incerteza. A manhã havia sido devastadora para a defesa, mas a tarde prometia o confronto direto com os réus. A primeira testemunha pós-intervalo, Marcos Bilibio, trouxe uma peça sutil, mas cortante, ao quebra-cabeça. Ele descreveu um encontro casual com Romero no dia do crime. Uma conversa rápida, de beira de estrada, sobre a venda de novilhas. Parecia banal, não fosse o contexto: Romero estava ali, naquele horário, naquela rota. E estava sozinho, ou assim parecia. O detalhe de que o encontro não foi próximo ao sítio de Raquel, mas em outro ponto, ajudou a mapear os deslocamentos que a defesa jurava não existirem.
A estratégia da defesa de Romero tentou se sustentar em álibis de fumaça e álcool. Testemunhas por videoconferência, como Anderson e Samoel, foram trazidas para pintar a imagem de uma noite de boemia. Falaram de bares, prostíbulos e caixas de cerveja consumidas até a madrugada. Mas, ao tentarem salvar o réu, acabaram por entregar munição à acusação. O promotor, cirúrgico, arrancou a informação crucial: Romero pagou tudo. Cerveja, mulheres, noitada. Um homem com um "bolo de dinheiro" em espécie no bolso, custeando a diversão alheia horas depois de encomendar a morte da mãe de seus filhos. A generosidade de Romero não era festiva; era o preço do álibi.
Às 14h36, o momento mais aguardado chegou. Rodrigo Xavier Mengarde, o executor confesso na fase policial, escolheu o silêncio. Diante dos jurados, calou-se. Mas seu silêncio falou alto, ecoando a brutalidade dos 40 golpes de faca que o laudo pericial descreveria mais tarde. Sem palavras para se defender, deixou que as provas gritassem por ele.
Romero, por outro lado, escolheu falar. E falou muito. Às 14h37, começou um interrogatório marcado pela tentativa desesperada de reescrever a história. Negou tudo. Pintou-se como o homem que tomou a iniciativa da separação, que buscava apenas reorganizar a vida em Lucas do Rio Verde. Tentou vender a imagem de um irmão distante e ético, que anos antes havia confrontado Rodrigo por furtos domésticos — um celular, comida de um freezer. A narrativa era clara: ele era o irmão "certo", Rodrigo era a "ovelha negra".
Mas a promotora Andreia Monte Alegre não estava ali para ouvir contos de fraternidade rompida. Ela confrontou Romero com as contradições. Perguntou sobre a "coincidência" de ter ido à casa dos pais de Raquel, assustando-a dias antes do crime. Romero negou. A promotora insistiu: os dados técnicos mostravam conexões de celular quase simultâneas entre os irmãos no dia do crime. Diferença de apenas um segundo na queda de sinal da mesma torre. Romero, encurralado pela tecnologia, tentou a cartada final do réu sem saída: alegou tortura policial. Disse ter sido afogado, amarrado, forçado a confessar. Uma tentativa tardia de invalidar o inquérito que agora o sufocava no plenário.
Às 16h45, o promotor João Marcos de Paula Alves iniciou a sustentação oral que selaria o destino dos réus. Ele não pediu apenas condenação; pediu memória. Exibiu a foto de Raquel sorrindo, viva, produtora de queijos premiada, mãe. "Essa é a imagem que eu quero que vossas excelências guardem", clamou. E então, contrastou-a com a realidade forense.
O Ministério Público dissecou a crueldade. Falou dos 40 golpes de faca. Da rigidez cadavérica que indicava horas de agonia. Do tufo de cabelo que Raquel arrancou da própria cabeça em desespero, tentando se proteger de um ataque que vinha de todos os lados. A promotoria revelou a prova biológica irrefutável: o DNA de Rodrigo na urina encontrada no vaso sanitário da cena do crime. Não havia como negar a presença física do executor.
Mas foi ao desmontar a mente intelectual do crime que a acusação brilhou. O promotor expôs a pesquisa apagada no celular de Romero: buscas sobre "guarda de filhos" feitas exatamente enquanto o crime acontecia. "Se ele não soubesse o que estava acontecendo, por que procurar esse tipo de informação naquele exato momento?", trovejou o promotor. A pergunta ficou suspensa no ar, sem resposta possível que não a culpa.
A acusação também exibiu o vídeo da vizinha confrontando Romero horas após o crime. "Deus sabe o que tu fez", dizia ela, enquanto Romero encenava o luto ao lado da sogra. A promotora reforçou: "Quem só ouvir a versão do Romero sai com ele aqui abraçado". Mas ali, diante das evidências de um plano diabólico — que incluiu o uso do próprio irmão "recuperado" do crime para um serviço final de morte —, o abraço possível era apenas o da condenação.
Quando o sol se punha lá fora, o plenário de Nova Mutum estava mergulhado na descrição técnica da barbárie. O promotor lembrou que o filho de Raquel faria aniversário no dia em que o corpo da mãe foi encontrado. O presente de Romero para o filho foi a orfandade. "Acabou com a vida dele, com a vida do irmão... Chega Romero e acaba com a vida de todos".
A noite se aproximava, e com ela, a hora da sentença. O júri tinha diante de si não apenas réus, mas a anatomia completa de um feminicídio: o motivo torpe, o meio cruel, a traição da confiança e a frieza de quem planejou apagar uma vida como quem apaga um histórico de celular.
(Continua...)
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