A dois dias do encerramento das convenções partidárias, a disputa pelo Governo de Mato Grosso tem três candidaturas estruturadas, duas grandes frentes políticas em confronto no campo da direita e uma aliança de centro-esquerda construída para oferecer palanque à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O cenário que antecede as convenções finais, marcadas para esta terça-feira (4), não inclui mais o MDB entre os partidos disponíveis para negociação. A legenda presidida pela deputada estadual Janaína Riva já definiu a aliança com o PL do senador Wellington Fagundes. Janaína disputará uma das duas vagas ao Senado na mesma coligação que terá Wellington como candidato ao Governo e o deputado federal José Medeiros, do PL, concorrendo à outra cadeira de senador.
As indefinições estão agora concentradas no Podemos, presidido pelo deputado Max Russi, no posicionamento político do senador Jayme Campos e no comportamento das lideranças do União Brasil que foram derrotadas na convenção estadual do partido.
Também falta concluir a escolha de alguns candidatos a vice-governador e fechar os espaços remanescentes das chapas majoritárias até quarta-feira (5), último dia do período de convenções.
PL rompe isolamento com o MDB
A aliança com o MDB altera substancialmente a posição de Wellington Fagundes na disputa. O senador iniciou a pré-campanha com as candidaturas do PL definidas — Flávio Bolsonaro à Presidência, Wellington ao Governo e José Medeiros ao Senado —, mas enfrentava dificuldades para ampliar o arco partidário.
Com a entrada do MDB, Wellington deixa de liderar uma candidatura essencialmente partidária e passa a contar com uma legenda que possui representação parlamentar, estrutura municipal e uma candidata competitiva ao Senado.
Janaína Riva aparece entre os nomes mais bem posicionados nas pesquisas para uma das duas vagas. Sua presença acrescenta força eleitoral à coligação e permite ao PL apresentar uma chapa completa ao Senado, com Medeiros identificado diretamente com o bolsonarismo e Janaína buscando alcançar um eleitorado mais amplo de centro-direita.
A composição, entretanto, não elimina as divergências acumuladas durante a pré-campanha.
Medeiros e outras lideranças do PL resistiram à aproximação com o MDB. O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, chegou a contestar publicamente a possibilidade de Janaína integrar o mesmo palanque dos candidatos bolsonaristas. A aliança formal encerra a disputa entre as direções partidárias, mas não assegura que as resistências internas tenham sido superadas.
Wellington terá de demonstrar capacidade para manter unidos os dois candidatos ao Senado e impedir que a disputa por votos entre Medeiros e Janaína se transforme em conflito dentro da própria coligação.
Também permanece em aberto a escolha do candidato a vice-governador. A vaga poderá ser utilizada para incorporar uma nova força partidária ou acomodar algum dos grupos que ainda não definiram seu posicionamento.
Podemos tornou-se a peça mais disputada
O Podemos realiza sua convenção nesta terça-feira sob o comando de Max Russi. O partido decidiu aguardar o resultado da convenção do União Brasil, atendendo inclusive a um pedido de Jayme Campos, que ainda tentava viabilizar sua candidatura ao Governo.
Com a derrota de Jayme, o Podemos precisa escolher entre os projetos já colocados.
Max mantém uma relação política próxima com Janaína Riva, construída ao longo de vários mandatos na Assembleia Legislativa. Essa proximidade favorece uma eventual adesão à coligação de Wellington. O presidente da Assembleia também possui, contudo, diálogo institucional com o governador Otaviano Pivetta e com o grupo político que comanda o Estado.
A decisão do Podemos terá efeitos que vão além da chapa majoritária. O partido precisa considerar as condições oferecidas às candidaturas proporcionais, a distribuição de recursos, a compatibilidade regional dos seus candidatos e as consequências da aliança para o projeto político de Max Russi.
Embora seja candidato à reeleição para a Assembleia, Max trabalha com uma perspectiva política que ultrapassa 2026. A escolha desta semana poderá posicioná-lo como integrante do grupo governista, como aliado do campo liderado por Wellington e Janaína ou como dirigente de uma força capaz de preservar alguma autonomia entre os dois blocos.
Derrota deixou Jayme sem candidatura
A convenção do União Brasil rejeitou por 30 votos a 19, além de um voto nulo, a proposta de candidatura própria de Jayme Campos e aprovou o apoio ao governador Otaviano Pivetta, do Republicanos.
O resultado representou uma vitória do grupo liderado pelo ex-governador Mauro Mendes e uma derrota política de grandes proporções para Jayme. Não se tratou apenas da retirada de uma candidatura. A maioria dos convencionais recusou o nome de um dos fundadores e principais dirigentes históricos do partido em Mato Grosso para apoiar um candidato de outra legenda.
Jayme declarou que respeitará a decisão da convenção, como exige o processo partidário. Respeitar o resultado, porém, não significa necessariamente trabalhar pela eleição de Pivetta.
O senador criticou a condução da convenção, mencionou a influência do poderio econômico e deixou evidente o desgaste com a direção estadual. Seu irmão, o deputado estadual Júlio Campos, e outras lideranças ligadas ao grupo também demonstraram inconformidade com a decisão.
A legislação e os prazos eleitorais limitam as alternativas formais de Jayme. O ponto em aberto é essencialmente político: ele participará da campanha de Pivetta, ficará afastado da disputa majoritária ou aproximará seu grupo do palanque de Wellington Fagundes?
As conversas anteriores entre Jayme e Wellington dão consistência à última hipótese, mas não constituem, até agora, um acordo confirmado. Qualquer entendimento terá de considerar o fato de que Jayme permanece no União Brasil, partido que deliberou formalmente pelo apoio a Pivetta.
Dissidência pode reduzir força de Pivetta
Otaviano Pivetta saiu fortalecido da convenção do União Brasil. Além do Republicanos, sua candidatura reúne a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, e conta com o apoio da Federação PSDB-Cidadania.
É, até agora, a composição com maior proximidade da estrutura administrativa estadual e com forte presença entre prefeitos, deputados e lideranças municipais.
Essa força formal convive, entretanto, com uma fragilidade política: a decisão do União Brasil dividiu profundamente o partido.
Os 19 votos recebidos pela candidatura de Jayme demonstram que a dissidência possui dimensão e liderança. O comportamento desse grupo poderá variar entre o apoio público a Wellington, o afastamento da campanha majoritária e uma participação apenas protocolar no palanque de Pivetta.
Para os candidatos proporcionais, o problema é ainda mais delicado. Eles dependem dos recursos, da estrutura e dos votos da federação, mas também precisam preservar suas bases políticas, algumas delas historicamente vinculadas aos Campos.
Mauro Mendes venceu a convenção. Agora terá de demonstrar se consegue transformar a vitória interna em unidade eleitoral. Caso não consiga, Pivetta poderá ter uma grande coligação no papel e uma parcela dos seus integrantes trabalhando com pouco empenho ou até em direção contrária.
Frente lulista chega com chapa completa
No campo da centro-esquerda, a composição já está definida. A médica Natasha Slhessarenko, do PSD, disputará o Governo tendo Diogo Botelho como vice. O ex-ministro da Agricultura Carlos Fávaro, também do PSD, e o ex-governador Pedro Taques, do PSB, concorrerão ao Senado.
A frente reúne PSD, PT, PV, PCdoB, PSB e PDT e terá como principal referência nacional a candidatura de Lula à reeleição.
O PT abriu mão de ocupar os principais postos da chapa estadual para garantir uma aliança mais ampla. A presidente estadual da legenda, Rosa Neide, sustenta que a divisão dos espaços foi necessária para somar partidos e assegurar ao presidente um palanque organizado em Mato Grosso.
A frente conseguiu alcançar unidade antes dos adversários, mas ainda precisa transformar composição partidária em competitividade eleitoral.
Natasha terá de ampliar seu conhecimento entre os eleitores. Fávaro precisará defender sua passagem pelo Ministério da Agricultura num estado fortemente ligado ao agronegócio. Pedro Taques buscará reconstruir sua imagem política depois do desgaste sofrido ao final do mandato de governador.
Lula deverá participar pessoalmente da campanha no estado pelo menos uma vez, segundo Rosa Neide. A visita será importante para vincular a candidatura presidencial à chapa estadual e impulsionar as nominatas proporcionais.
Três candidaturas e duas disputas internas
O quadro construído até agora apresenta três candidaturas com características distintas.
Pivetta lidera o bloco vinculado ao atual governo, reúne a maior estrutura partidária e administrativa, mas precisa administrar a ruptura provocada pela derrota de Jayme.
Wellington consolidou a aliança entre PL e MDB, rompeu o isolamento partidário e montou uma chapa forte para o Senado. Em contrapartida, terá de conciliar Janaína e Medeiros e superar as resistências de setores bolsonaristas à presença do MDB.
Natasha comanda uma frente de seis partidos, possui o palanque de Lula e chega à campanha com a composição majoritária completa. Seu desafio é crescer eleitoralmente num estado em que a direita conquistou ampla maioria nas últimas eleições.
As convenções desta terça-feira não deverão criar uma quarta candidatura competitiva ao Governo. Elas servirão para completar os três blocos existentes e mostrar onde estarão Max Russi, o Podemos e as lideranças que saíram derrotadas da convenção do União Brasil.
O período de construção partidária termina na quarta-feira. A partir daí, o tamanho formal das coligações deixará de ser o único parâmetro. Começará a fase em que cada candidato precisará demonstrar se os apoios anunciados no papel estarão efetivamente presentes nos palanques, nas ruas e na busca pelo voto.
Nota de Transparência
Esta matéria foi produzida pelo Nossa República a partir do acompanhamento das convenções partidárias de PL, União Brasil, Federação Brasil da Esperança e partidos aliados; das composições majoritárias anunciadas pelas direções partidárias; das declarações públicas dos candidatos e dirigentes.
Foram consultados, entre outros registros, a decisão da convenção do União Brasil, a composição homologada pela frente liderada por Natasha Slhessarenko, a marcação da convenção do Podemos para 4 de agosto e registros das negociações anteriores entre Jayme Campos e Wellington Fagundes.
O texto segue os critérios do SEI-NR — Sistema Editorial Inteligente do Nossa República, com distinção entre fatos confirmados, contexto, análise e cenários ainda dependentes das convenções dos dias 4 e 5 de agosto.






