NOTICIÁRIO Sábado, 02 de Agosto de 2025, 11:13 - A | A

Sábado, 02 de Agosto de 2025, 11h:13 - A | A

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Ataque em Natal expõe simbolismo e escalada da violência de gênero no Brasil

Da Redação com Luiz Cláudio Ferreira/ABr

A agressão com 61 socos sofrida por Juliana Garcia em um elevador em Natal (RN), no último sábado (26), evidenciou a escalada da violência contra a mulher no país, trazendo à tona o debate sobre o simbolismo dos ataques e os dados alarmantes sobre o tema, conforme reportagem do jornalista Luiz Cláudio Ferreira, publicada pela Agência Brasil. O autor do crime, o namorado da vítima, Igor Cabral, foi preso em flagrante.

O episódio chamou a atenção pela repetição dos golpes no rosto da vítima enquanto ela estava caída. Segundo especialistas, o ato possui um simbolismo ligado a uma cultura machista de posse. "Agressores normalmente atacam o feminino do corpo humano, (incluindo) rosto, seios e ventre como um recado de que aquele corpo pertence a eles", afirma a promotora de Justiça Valéria Scarance, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Para a antropóloga Analba Brazão, educadora do SOS Corpo - Instituto Feminista para a Democracia, ataques direcionados ao rosto têm como objetivo desfigurar a vítima. "Atingir o rosto também demonstra poder. Ele quer aniquilar aquela mulher e deixar visível a sua marca", pontua.

Essa simbologia também é observada pela pesquisadora Télia Negrão, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que cita a mutilação de seios ou da região genital em outros crimes. "Há até chutes na área da barriga da mulher como forma de destruir a sua capacidade reprodutiva posterior", diz a pesquisadora, que integra o Levante Feminista contra o Feminicídio e Transfeminicídio.

O último Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicou um aumento no número de feminicídios, que chegou a 1.492 casos em 2024, o que representa uma média de quatro mulheres mortas por dia no Brasil. Este é o maior número registrado desde o início da série histórica, em 2015.

De acordo com o levantamento, 63,6% das vítimas de feminicídio eram negras e 70,5% tinham entre 18 e 44 anos. Oito em cada dez mulheres foram mortas por seus companheiros ou ex-companheiros, sendo que a maioria dos crimes (64,3%) ocorreu dentro de casa.

Os casos de tentativa de feminicídio, como o ocorrido com Juliana, somaram 3.870 no ano passado, um crescimento de 19% em relação ao ano anterior. Já os registros de agressões contra mulheres passaram de 256.584 casos em 2023 para 257.659 em 2024.

A promotora Valéria Scarance avalia que a Lei Maria da Penha inaugurou um "novo tempo" no país, ao tirar a violência contra a mulher do âmbito privado. "Antes, era comum que as pessoas não se manifestassem diante de uma ‘briga de casal’. Mas, hoje, a sociedade está atenta a essas violências, inclusive as que eram consideradas menos graves", contextualiza.

Scarance analisa ainda que o aumento da violência pode ser uma reação à conquista de espaço e ao empoderamento feminino, fenômeno que ela classifica como "backlash ou retaliação".

A promotora explica que as violências mais severas costumam ocorrer no término da relação ou quando a mulher não atende a uma ordem do agressor. "Esses homens são ao mesmo tempo egocêntricos e inseguros porque qualquer conduta da vítima – passar batom, usar roupas novas, trabalhar, ter amigas, sorrir – pode ser interpretada por eles como um ato de desrespeito ou traição", exemplifica.

Um dado do anuário revela um dos desafios na proteção das vítimas: ao menos 121 mulheres foram mortas entre 2023 e 2024 mesmo estando sob medidas protetivas de urgência ativas.

A falta de estrutura para denúncias é outro problema. Dalvaci Neves, pesquisadora e coordenadora da organização Quilombo, no Rio Grande do Norte, informa que o estado possui apenas 12 delegacias especializadas para mais de 160 municípios. Ela relata que, entre 2013 e 2023, mais de mil mulheres foram vítimas de feminicídio no estado, sendo 80% delas negras.

Essa carência é nacional. Um levantamento do Ministério da Justiça e da Segurança Pública apontou que existem 488 delegacias especializadas no país, mas apenas 204 atendem exclusivamente mulheres.

Para Télia Negrão, é preciso ir além das punições. "Nós não temos uma redução dos feminicídios ou da violência. Nós precisamos de mudança cultural", acredita.

Dalvaci Neves recomenda que as vítimas registrem queixa mesmo em casos de violência psicológica, como xingamentos. Ela também reforça a importância de testemunhas não se calarem. "Dessa forma, podemos evitar um feminicídio no futuro", afirma.

Como denunciar

Para denúncias ou orientação, a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) funciona 24 horas por dia, de forma gratuita. Em casos de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada imediatamente pelo número 190.



Comente esta notícia

Nossa República é editado pela Newspaper Reporter Comunicação Eireli Ltda, com sede fiscal
na Av. F, 344, Sala 301, Jardim Aclimação, Cuiabá. Distribuição de Conteúdo: Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Campo Verde, Nova Brasilândia e Primavera do Leste, CEP 78050-242

Redação: Avenida Rio da Casca, 525, Bom Clima, Chapada dos Guimarães (MT) Comercial: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

[email protected]/[email protected]

icon-facebook-red.png icon-youtube-red.png icon-instagram-red.png icon-twitter-white.png