A eleição para o Governo de Mato Grosso entrou em uma nova fase. A divulgação de duas pesquisas, o início da propaganda no rádio e na televisão e os conflitos surgidos dentro das próprias alianças deslocaram o debate das convenções partidárias para a comparação direta entre candidaturas.
Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes emergiram como os dois polos competitivos. Os levantamentos divergiram sobre quem ocupa a primeira posição numérica, mas convergiram no dado de maior importância política: a disputa está tecnicamente empatada.
O Paraná Pesquisas apresentou Pivetta com 39% e Wellington com 35%. A Quaest, divulgada em 25 de agosto, mostrou Wellington com 27% e Pivetta com 23%. Nos dois casos, a diferença ficou dentro da margem de erro. Natasha Slhessarenko apareceu com 8% na Quaest.
O empate técnico não permite declarar liderança efetiva de nenhum dos dois candidatos. Indica, ao contrário, uma eleição aberta, na qual a capacidade de manter a própria coalizão unida, sustentar uma narrativa coerente e conquistar o eleitor ainda sem escolha definida poderá ser tão importante quanto a estrutura partidária.
Duas pesquisas, duas comemorações
Nas redes sociais, os resultados foram utilizados de forma seletiva. Apoiadores de Pivetta destacaram o levantamento no qual ele aparece numericamente à frente. A militância de Wellington fez o mesmo com a pesquisa que favoreceu o senador.
Em parte dos conteúdos, a margem de erro, o universo pesquisado e os resultados menos convenientes receberam pouca atenção. O empate estatístico foi substituído pela apresentação de vencedores diferentes, conforme o interesse de cada campanha.
Esse comportamento não altera os números. Mostra, porém, que as redes serão utilizadas para disputar não apenas votos, mas a própria interpretação da realidade eleitoral.
A Quaest ouviu 804 eleitores entre 21 e 24 de agosto e tem margem de erro de três pontos percentuais. Além do equilíbrio entre Wellington e Pivetta, registrou um dado que recomenda cautela a todas as campanhas: 29% dos entrevistados declararam voto branco, nulo ou em nenhum candidato, enquanto 8% permaneciam indecisos.
Mais de um terço do eleitorado consultado, portanto, não estava incorporado a nenhuma das candidaturas apresentadas. A intensidade da militância nas plataformas pode produzir a impressão de uma disputa consolidada que os próprios levantamentos ainda não autorizam.
Pivetta consolida a continuidade
Pivetta saiu da semana com uma narrativa mais definida. Sua campanha procura associá-lo à continuidade administrativa, aos investimentos estaduais e à capacidade de execução do governo. Obras, infraestrutura, educação, saúde e apoio de prefeitos aparecem como demonstrações de que Mato Grosso deveria preservar o ciclo iniciado sob Mauro Mendes.
O argumento é objetivo: o Estado avançou e não deveria retroceder. A agenda divulgada pela campanha em Água Boa, por exemplo, vinculou crescimento econômico e investimentos públicos à permanência do atual projeto político.
A continuidade oferece a Pivetta uma base concreta de realizações, mas também transfere para sua candidatura os passivos do grupo que governa Mato Grosso. O principal deles, neste momento, é a Operação Heritage.
A investigação sobre o acordo de R$ 308,1 milhões entre o Estado e a Oi continua sendo utilizada pelos adversários para atingir Mauro Mendes e, indiretamente, seu sucessor. Pivetta não é apenas o candidato apoiado pelo ex-governador; apresenta-se como continuidade de sua administração. Essa escolha torna difícil reivindicar os resultados sem responder politicamente pelos questionamentos que cercam o mesmo período.
Outro ponto de atenção surgiu no campo ambiental. A tentativa do governo de modificar compromisso para permitir que até 5% da lenha consumida por usinas de biodiesel, depois de 2035, venha de desmatamento legal oferece aos adversários uma oportunidade para confrontar desenvolvimento, interesses econômicos e proteção ambiental.
O desafio de Pivetta será preservar a força da continuidade sem permitir que a campanha se transforme em plebiscito sobre Mauro Mendes.
Wellington exposto e dividido
Wellington Fagundes ganhou visibilidade com a Quaest, na qual apareceu numericamente à frente. Sua candidatura procura combinar experiência parlamentar, presença no interior, interlocução em Brasília e defesa de uma distribuição regional mais ampla da riqueza produzida por Mato Grosso.
O principal problema da semana, entretanto, não veio de Pivetta. Surgiu dentro do próprio PL.
José Medeiros, candidato do partido ao Senado, chamou Wellington de “melancia”, expressão utilizada para insinuar que alguém seria verde por fora e vermelho por dentro. O ataque expôs uma disputa sobre quem representa com maior autenticidade o eleitor bolsonarista.
Medeiros procura transformar identidade ideológica em critério eleitoral. Wellington precisa de uma candidatura mais ampla, capaz de preservar o eleitor conservador e alcançar setores moderados, lideranças municipais e grupos que não se organizam exclusivamente em torno da polarização nacional.
As duas estratégias podem coexistir apenas enquanto não se desautorizam publicamente. Quando um candidato ao Senado questiona a identidade política do candidato ao Governo de sua própria legenda, a aliança passa a fornecer argumentos aos adversários.
O episódio teve mais repercussão do que as propostas apresentadas por Wellington. Também reforçou críticas públicas à organização de sua campanha. O senador ganhou exposição, mas perdeu coesão justamente quando o empate técnico exigia demonstração de unidade.
Seu desafio imediato não é apenas responder a Pivetta. É restabelecer uma direção política reconhecível dentro de sua própria candidatura.
Natasha busca transformar recepção em voto
Natasha Slhessarenko ocupa posição diferente. Sem a mesma estrutura dos dois líderes, procura apresentar-se como alternativa à continuidade administrativa e às contradições do campo adversário.
Sua comunicação recebeu avaliações favoráveis pela ênfase em mudança, cuidado e saúde. A candidata também pode encontrar espaço na rejeição à polarização entre Pivetta e Wellington e no contingente de eleitores que ainda não escolheu um nome.
O problema está em transformar boa apresentação em centralidade. Natasha continua sendo frequentemente descrita pela distância que a separa dos dois primeiros colocados. Para romper esse enquadramento, precisará mostrar um projeto completo de governo, estabelecer diferenças objetivas e converter sua experiência na saúde em respostas para economia, segurança, educação, infraestrutura e gestão pública.
O conflito interno do PL abre uma oportunidade, mas não transfere votos automaticamente. É preciso ocupá-la.
Continuidade, alternância e confiança
O confronto eleitoral começa a se organizar em torno da oposição entre continuidade administrativa e alternância de poder. Essa formulação, entretanto, ainda é insuficiente para explicar toda a disputa.
Pivetta precisa demonstrar que continuidade não significa submissão política nem incorporação automática dos problemas do governo anterior. Wellington precisa convencer o eleitor de que alternância não representa improvisação e que sua coalizão consegue atuar de maneira coordenada. Natasha precisa provar que uma terceira via é viável e dispõe de projeto, equipe e sustentação para governar.
Nas manifestações públicas observadas pelo Radar NR, o sentimento predominante foi crítico, polarizado e desconfiado. A amostra foi fortemente influenciada por militantes, campanhas, veículos de comunicação e mecanismos de distribuição das plataformas. Por isso, volume de postagens, curtidas ou comentários não pode ser tratado como pesquisa eleitoral ou representação estatística dos mato-grossenses.
O ambiente digital revela argumentos, vulnerabilidades e movimentos de campanha. Não antecipa o resultado das urnas.
O dado central da semana é mais simples: Pivetta e Wellington estão tecnicamente empatados, Natasha procura espaço e uma parcela expressiva do eleitorado ainda não aderiu a nenhuma candidatura. Neste cenário, controlar os próprios aliados, explicar as contradições e sustentar uma proposta verificável de governo passou a ser parte essencial da disputa.
Nota de Transparência
Esta matéria foi produzida a partir do Radar NR, monitoramento qualitativo de manifestações públicas acessíveis nas redes sociais entre 24 e 30 de agosto de 2026, com prioridade para Instagram e Facebook. Foram considerados conteúdos de candidatos, partidos, militantes, instituições, veículos jornalísticos e internautas, além dos levantamentos Paraná Pesquisas e Quaest. A Quaest ouviu 804 eleitores entre 21 e 24 de agosto, com margem de erro de três pontos percentuais. O monitoramento das redes não constitui pesquisa eleitoral, não representa estatisticamente o eleitorado e não permite identificar todo o conteúdo impulsionado ou distribuído em ambientes privados.






