NOTICIÁRIO Terça-feira, 03 de Março de 2026, 11:51 - A | A

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GUERRA NO ORIENTE MÉDIO

Especialistas veem tentativa de mudança de regime no Irã e freio à China

Da Redação

Reprodução

Portos da China

Pujança da economia chinesa, que ameaça a liderança dos EUA, seria a principal motivação dos ataques ao Irã, dizem especialistas

A nova ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a segunda em um intervalo de oito meses, teria como objetivo central estimular uma troca de regime em Teerã, enfraquecer a expansão econômica da China e consolidar a hegemonia regional de Israel no Oriente Médio. A avaliação é de especialistas em geopolítica e relações internacionais ouvidos pela Agência Brasil neste domingo (1º), em reportagem assinada pelo jornalista Lucas Pordeus León, da Agência Brasil.

Segundo os analistas citados, o discurso oficial de Washington e Tel Aviv, de que se trata de um ataque “preventivo” para conter supostas ambições iranianas de construir uma bomba atômica, é questionado por não se sustentar diante do contexto diplomático imediatamente anterior aos bombardeios.

De acordo com a professora de pós-graduação em relações internacionais da PUC Minas, Rashmi Singh, houve sinalização pública de que as negociações mediadas por Omã estavam próximas de um acordo. Segundo ela, enviados do então presidente Donald Trump ao Oriente Médio, Steve Witkoff e Jared Kushner, foram “desmentidos” pelo ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, que afirmou que o entendimento estava perto.

Albusaidi, de acordo com a reportagem, revelou que o Irã teria aceitado não manter em estoque qualquer quantidade de urânio enriquecido — material associado à produção de artefatos nucleares. “Os EUA e Israel entraram em guerra quando um avanço diplomático e a paz estavam ao alcance”, afirmou Singh, segundo a Agência Brasil. Para ela, ambos teriam avaliado que o Irã estaria fragilizado, enxergando uma oportunidade para instalar um governo mais moderado, alinhado a Washington.

Ainda segundo Rashmi Singh, o objetivo seria implantar um governo “fantoche” e remover o que ela classificou como o principal obstáculo à hegemonia de Tel Aviv no Oriente Médio. A professora também mencionou o cenário político interno de Israel. De acordo com Singh, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta eleições gerais ainda este ano e poderia usar o conflito para fortalecer posição doméstica, como já teria feito em Gaza, segundo sua avaliação.

Energia e comércio: por que a China entra na equação

A hipótese de que o ataque também mira a China aparece em diferentes análises citadas na reportagem. Segundo o professor de relações internacionais Robson Valdez, do IDP, é “difícil” explicar as investidas apenas pela versão da contenção nuclear. Para ele, o elemento central é o equilíbrio de poder regional, incluindo a tentativa de conter a influência iraniana e impactos sobre a China, grande importadora de petróleo do Irã, que depende de rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz.

Na avaliação do cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos, citada pela Agência Brasil, como Israel não teria conseguido derrubar o governo iraniano na chamada “guerra dos 12 dias de 2025”, teria sido necessária uma nova investida. Segundo ele, enquanto houver capacidade de ataque iraniana por mísseis e drones, Israel não teria supremacia estratégica regional e poderia ser atingido.

Ali Ramos também afirmou que o Irã seria “o coração do mundo” em um projeto geoeconômico chinês e que uma eventual queda do governo iraniano poderia favorecer a circulação de armas em rotas na Ásia Central, com reflexos em Xinjiang, região sensível para Pequim, segundo sua tese. Ele ainda avaliou que um Irã alinhado ao Ocidente poderia servir como “cabeça de ponte” para sufocar projetos de infraestrutura chineses na Ásia Central.

O historiador de conflitos armados e geopolítica Rodolfo Queiroz Laterza reforçou, de acordo com a reportagem, que os EUA tentariam retirar o Irã de uma rota econômica construída por China e Rússia na Eurásia. Na leitura dele, a guerra deve ser entendida no contexto da disputa ampla entre Washington e Pequim pela supremacia econômica global.

Segundo a Agência Brasil, o Irã é o quinto maior produtor de petróleo do planeta e disputa a terceira posição entre os países com maiores reservas comprovadas de hidrocarbonetos. Na avaliação dos especialistas, essa dimensão energética torna o país um eixo sensível para qualquer rearranjo geopolítico que envolva comércio, sanções e controle de rotas.

Israel e o desenho regional: “hegemonia incontestável”, dizem analistas

Outra linha de interpretação apresentada é a de que a ofensiva busca impedir o surgimento de qualquer potência regional que desafie Israel. Segundo o professor da UFABC, Mohammed Nadir, a justificativa pública de “ameaça nuclear” não seria o motivo real e o objetivo seria manter a hegemonia israelense. “Esta guerra não é uma guerra americana, mas é uma guerra de Benjamin Netanyahu e, por extensão, de Israel”, afirmou Nadir, segundo a Agência Brasil.

O professor também lembrou, de acordo com a reportagem, a justificativa usada pelos EUA em 2003 para invadir o Iraque — a existência de “armas de destruição em massa” — que posteriormente se mostrou falsa.

O argumento do TNP e a crítica ao “pretexto nuclear”

O professor de relações internacionais da UnB Roberto Goulart Menezes destacou, segundo a Agência Brasil, que os EUA usam o programa nuclear iraniano como pretexto em mais de meio século de hostilidade. Ele lembrou que o Irã faz parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e pode ser inspecionado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) “a qualquer momento, sem aviso prévio”, segundo sua fala.

Ao mesmo tempo, a reportagem ressalta que Israel, mesmo acusado de possuir bombas atômicas, nunca teria permitido inspeções internacionais em seu programa nuclear, enquanto o Irã sustenta que seu programa tem fins pacíficos, com abertura a inspeções, segundo a Agência Brasil.

O que antecedeu os ataques e o pano de fundo histórico

A reportagem contextualiza que Israel e EUA atacaram o Irã em meio a negociações sobre o programa nuclear e balístico. Ainda no primeiro governo Trump, os EUA abandonaram o acordo firmado em 2015, sob Barack Obama, que previa inspeções internacionais do programa nuclear iraniano.

Ao assumir o segundo mandato, em 2025, Trump teria iniciado nova ofensiva exigindo, além do desmantelamento do programa nuclear, o fim do programa de mísseis de longo alcance e o fim do apoio iraniano a grupos de resistência a Israel, como Hamas e Hezbollah, segundo o texto base.

De acordo com a reportagem, um dia antes da agressão, o chanceler de Omã disse que as negociações estavam próximas de um entendimento e que o Irã teria concordado em não manter estoque de urânio enriquecido — ponto considerado inédito. O próprio Albusaidi afirmou, em entrevista à CBS, que haveria “zero acumulação, zero estocagem e verificação completa”, conforme citado.

Por fim, o texto lembra que o atual ciclo de hostilidades remete a 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou um governo aliado de Washington. Desde então, o Irã é alvo de sanções econômicas, segundo a reportagem, com objetivo de fragilizar a economia do país persa.

FAQ

Por que especialistas falam em “troca de regime” no Irã?

Segundo analistas ouvidos pela Agência Brasil, os ataques ocorreram apesar de sinais de avanço diplomático e seriam uma oportunidade para forçar um governo mais alinhado a Washington.

Qual a relação entre a ofensiva e a China?

De acordo com especialistas citados, a guerra pode afetar o fluxo de petróleo iraniano e rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, além de atingir projetos geoeconômicos ligados a Pequim.

O argumento da “ameaça nuclear” é unanimidade?

Não. Segundo pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, a justificativa é questionada, e há menção ao fato de o Irã integrar o TNP e ser passível de inspeções pela AIEA.

O que Omã disse sobre as negociações antes dos ataques?

Segundo a reportagem, o chanceler de Omã afirmou que o acordo estava próximo e que o Irã aceitou não manter estoque de urânio enriquecido.

 



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