O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, anunciou nesta quarta-feira (2) que adotará medidas diante das revelações sobre as relações mantidas por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, com integrantes da Corte.
Sem mencionar Alexandre de Moraes, André Mendonça ou Vorcaro, Fachin classificou o momento como de “especial gravidade” e afirmou que os indícios conhecidos até agora exigem encaminhamento institucional.
“A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades”, afirmou o presidente do Supremo.
Fachin disse que a Presidência do STF está analisando os fatos e anunciará providências nos próximos dias.
“Esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias”, declarou.
A manifestação ocorre um dia depois de André Mendonça retirar o sigilo do relatório da Polícia Federal que reuniu mensagens, documentos e registros de encontros entre Vorcaro e Alexandre de Moraes.
O relatório de 218 páginas revelou pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro, comunicações mantidas durante a crise do Banco Master e a participação do ministro na análise de uma minuta do contrato firmado entre o banco e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
Mendonça também recebeu Vorcaro
A crise ganhou um novo componente nesta quarta-feira com a revelação de que o próprio André Mendonça também se reuniu com Vorcaro.
Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro e divulgados originalmente pelo jornalista Paulo Motoryn mostram a articulação para a realização do encontro em São Paulo, em 14 de março de 2025.
A aproximação teria sido intermediada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
Em uma das mensagens recuperadas, Ciro afirmou a Vorcaro que Mendonça conhecia a situação enfrentada pelo Master no Banco Central.
O advogado disse ter conversado com o ministro sobre o assunto e informou que Mendonça pretendia receber Vorcaro.
O material também registra a preparação do encontro. No dia 14 de março, Cezinha enviou mensagem a Vorcaro pouco antes da reunião:
“Ministro já está te esperando.”
Registros do celular mostram Vorcaro encaminhando ao motorista o endereço do encontro, na Alameda Santos, em São Paulo.
Ministro confirma reunião
Depois da divulgação das mensagens, o gabinete de André Mendonça confirmou o encontro.
Segundo a versão apresentada pelo ministro, Vorcaro foi recebido uma única vez, por iniciativa do próprio empresário.
Mendonça afirmou que “se limitou a ouvi-lo”.
O gabinete informou ainda que o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo que discutia créditos de precatórios de interesse do banco. Mendonça também confirmou ter recebido separadamente Ciro Soares no mesmo mês e informou que conserva os memoriais apresentados naquela ocasião.
Áudios mencionam Banco Central
A versão apresentada por Mendonça de que o encontro tratou de precatórios passou a ser confrontada com o conteúdo das mensagens e áudios divulgados nesta quarta-feira.
Antes da reunião, Ciro Soares afirmou a Vorcaro que havia conversado com Mendonça sobre os problemas enfrentados pelo Banco Master no Banco Central.
Em outro áudio, disse que o ministro já conhecia a situação porque também havia sido procurado por Cezinha de Madureira.
As mensagens mostram a articulação feita pelos dois intermediários para aproximar Vorcaro de Mendonça, mas não registram o conteúdo integral da conversa ocorrida durante a reunião de 14 de março.
Encontro ocorreu antes da relatoria
A reunião aconteceu em março de 2025, antes de André Mendonça assumir a relatoria das investigações relacionadas ao Banco Master no Supremo.
Foi como relator que Mendonça determinou diligências sobre as mensagens encontradas no celular de Vorcaro e, nesta semana, retirou o sigilo do relatório da Polícia Federal que expôs os contatos entre o banqueiro e Alexandre de Moraes.
Mendonça também defendeu que os novos elementos sejam analisados pelo plenário do Supremo.
Fachin fala em responsabilidade
Foi nesse ambiente que Fachin se pronunciou nesta quarta-feira.
O presidente do STF afirmou que a instituição precisa preservar a autoridade de suas decisões, o cumprimento de suas normas e a confiança da sociedade.
“Os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional”, afirmou.
Fachin não antecipou quais medidas pretende adotar nem estabeleceu prazo específico além da indicação de que serão anunciadas “nos próximos dias”.
Leia a íntegra da nota do ministro Edson Fachin
Em momentos de especial gravidade, é dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição.
Os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional. Circunstâncias relacionadas, de um lado, à atuação processual e, de outro, a sérios elementos de fatos que exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza.
A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal.
Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias.
Brasília, 2 de setembro de 2026.
Ministro Luiz Edson Fachin
Presidente do Supremo Tribunal Federal
Nota de Transparência
As informações sobre o encontro entre Daniel Vorcaro e André Mendonça foram reveladas originalmente pelo jornalista Paulo Motoryn a partir de mensagens e áudios extraídos do celular do ex-controlador do Banco Master. A realização da reunião foi posteriormente confirmada pelo gabinete do ministro. As declarações de Edson Fachin foram feitas publicamente nesta quarta-feira durante evento no STF.






