O final de semana que passou foi um dos mais intensos da história recente de Mato Grosso. Enquanto o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), inaugurava em Dom Aquino o primeiro trecho da Ferrovia Estadual Senador Vicente Emílio Vuolo — um marco logístico de repercussão nacional —, a capital Cuiabá recebia a Marcha para Jesus, evento que neste ano chamou a atenção mais pelo esvaziamento de público do que pela demonstração de fé. Os temas foram analisados pelo jornalista Mauro Camargo, no quadro Papo Político, do programa Tribuna, apresentado pela jornalista Nayana Bricat na Rádio Vila Real FM (98.3).
A ferrovia que o Brasil inteiro comemorou
Mauro Camargo abriu sua participação destacando que a inauguração dos 162 quilômetros de trilhos entre Rondonópolis e Dom Aquino transcende o interesse local. "Não é só o agro mato-grossense que está comemorando. O Brasil inteiro está comemorando. Nunca uma inauguração teve tanta repercussão positiva na imprensa nacional quanto essa", afirmou.
O jornalista explicou que a relevância da obra ultrapassa as fronteiras do estado: um dos maiores gargalos logísticos do país é a saturação do Porto de Santos, o maior da América Latina, que sofre com filas de caminhões e atrasos na atracação de navios. Com a ferrovia conectando o coração produtor de Mato Grosso à Malha Norte e, por ela, ao porto paulista, ganha-se eficiência logística, reduz-se o custo do frete e aumenta-se a competitividade da produção brasileira no mercado internacional.
"Às vezes as pessoas não têm ideia, mas chega um navio carregado ou vazio pra levar a carga e ele tem que esperar três, quatro, cinco dias. Quanto menor o tempo do navio parado, menor o custo. E isso significa mais dinheiro pro Brasil e mais competitividade", detalhou.
Mauro também esclareceu o modelo inovador que viabilizou a ferrovia. Diferente das concessões federais, que exigem licitação e se arrastam por anos na burocracia do IBAMA, ICMBio e ANTT, Mato Grosso instituiu uma lei estadual de autorização que permitiu à Rumo Logística investir R$ 5 bilhões sem contrapartida direta do Tesouro estadual.
"Não tem dinheiro público, não tem investimento do Estado naqueles trilhos. É 100% da Rumo. Diferente do BRT, por exemplo, que está sendo feito com dinheiro do contribuinte — mais de um bilhão de reais — e depois será concedido para alguém ganhar dinheiro sem ter investido", comparou.
Sobre a presença maciça de políticos no palanque, incluindo adversários históricos como Mauro Mendes e Jayme Campos ao lado de Alckmin, o jornalista foi direto: "Filho bonito todo mundo quer ser pai. A ferrovia foi feita por muitas mãos: o governo do Estado com a legislação, o governo federal com a não judicialização do processo e o financiamento do BNDES, e a iniciativa privada com o capital. Houve uma colaboração real, e por isso teve tanta gente querendo, pelo menos, ser pai de um pedaço dessa obra".
O esvaziamento da Marcha e o Estado laico
O segundo tema da entrevista foi a Marcha para Jesus, que neste ano registrou público muito abaixo da expectativa de 50 mil pessoas anunciada pelos organizadores. Mauro associou o fenômeno a um processo de desgaste provocado pela instrumentalização política do evento religioso.
"Ao longo do tempo, os políticos foram se aproveitando das igrejas, da fé das pessoas. Pessoas de muito boa-fé, incautos, se deixam manipular por discursos distorcidos sobre a Bíblia. É lamentável. Isso veio descambando ao longo dos anos num projeto político-eleitoral", criticou.
O jornalista lembrou que a Constituição brasileira estabelece o Estado laico, o que significa que todos os credos — evangélico, católico, umbandista, candomblecista — merecem igual respeito, e que os governantes devem fazer política para todos, independentemente da fé individual.
"Querer transformar o Brasil num Estado teocrático, na marra, não vai funcionar. É por isso que se tentou o golpe aqui no Brasil. Porque isso favorece as ditaduras, favorece governos que só atendem determinada parcela da população."
Mauro citou as participações dos ouvintes Bento e Rodrigo, que criticaram a transformação da Marcha em comício, e concordou: "Olha pros palanques. Quanta gente desonesta, respondendo processos por corrupção, por desvio de dinheiro público, disputando o voto das pessoas. Isso não é cristão."
O voto como responsabilidade individual
Encerrando sua participação, Mauro fez um apelo direto ao eleitor. Para ele, o primeiro critério na escolha de um candidato deve ser a vida pregressa: "É preciso olhar pra vida das pessoas. Esse cidadão tem um comportamento correto, probo, honesto? Ele tem uma vida pessoal dedicada às pessoas e com retidão de comportamento? Depois você vai ver as propostas."
E completou: "Não adianta a gente ficar se queixando depois da eleição. 'Ah, político é tudo ruim.' Não adianta, porque a escolha, em última análise, é de cada um de nós. Enquanto a gente não tiver uma postura rigorosa na escolha daquelas pessoas que a gente vai dar o nosso voto, a gente vai continuar reclamando."
Ouça aqui o Papo Político na íntegra:
As informações são da participação do jornalista Mauro Camargo no programa Tribuna, da Rádio Vila Real (98.3), apresentado pela jornalista Nayana Bricat.






