NOTICIÁRIO Segunda-feira, 31 de Agosto de 2026, 11:03 - A | A

Segunda-feira, 31 de Agosto de 2026, 11h:03 - A | A

ELEIÇÕES 2026

Flávio Bolsonaro recua em pesquisas e disputa da direita ganha nova variável

Mauro Camargo

Andressa Anholete/Agência Senado

Fávio Bolsonaro

Duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira (31) produzem um sinal que merece atenção na disputa pela Presidência da República. Não porque permitam anunciar uma tendência definitiva, mas porque institutos diferentes encontraram, dentro de suas próprias séries, um movimento na mesma direção: Flávio Bolsonaro perdeu terreno no primeiro turno.

A AtlasIntel mostra Lula com 43,4% das intenções de voto e Flávio com 33,7%. Na rodada anterior, realizada em julho, o presidente tinha 44,9% e o candidato bolsonarista, 35,8%. Lula perdeu 1,5 ponto percentual; Flávio, 2,1 pontos. A distância entre os dois passou de 9,1 para 9,7 pontos.

Horas antes, a pesquisa BTG/Nexus havia apresentado outro cenário numérico, mas movimento semelhante. Lula passou de 41% para 39%, enquanto Flávio caiu de 37% para 33%. A diferença, nesse levantamento, aumentou de quatro para seis pontos.

Os números absolutos não devem ser misturados. Atlas e Nexus utilizam metodologias diferentes, realizaram coletas distintas e possuem séries próprias. A comparação jornalisticamente correta não é colocar 43,4% de uma pesquisa diante dos 39% de outra.

O dado relevante é outro: Flávio caiu dentro das duas séries.

A disputa pelo voto à direita

Há um segundo movimento que talvez seja ainda mais interessante.

Na Atlas, Augusto Cury chegou a 7,8% e aparece tecnicamente empatado com Renan Santos, que registra 7,6%. Juntos, os dois concentram 15,4% das intenções de voto.

Isso não significa que exista uma transferência automática de votos de Flávio Bolsonaro para esses candidatos. As pesquisas divulgadas até agora não permitem estabelecer essa relação de causa e efeito.

Mas revelam a existência de um espaço eleitoral considerável fora da polarização Lula-Flávio.

Essa é uma variável importante porque a candidatura de Flávio depende não apenas da manutenção do eleitor bolsonarista mais fiel. Para chegar competitivamente ao segundo turno e, principalmente, vencê-lo, precisa também agregar parcelas da direita e do centro-direita que não necessariamente se identificam integralmente com o bolsonarismo.

É nesse terreno que Cury e Renan começam a adquirir relevância.

Ainda é cedo para saber se representam candidaturas com capacidade de crescimento ou se funcionarão apenas como destinos temporários de um eleitorado que poderá migrar no decorrer da campanha. Mas 15,4% somados já constituem um contingente que não pode ser ignorado.

O segundo turno conta outra história

A cautela se torna ainda mais necessária quando se observam as simulações de segundo turno.

Na Atlas, Lula aparece com 47,1% e Flávio Bolsonaro com 42,6%. A diferença é de 4,5 pontos percentuais.

No BTG/Nexus, entretanto, Lula tem 46% e Flávio, 45%. É empate técnico.

Portanto, seria precipitado concluir que o recuo registrado no primeiro turno representa uma deterioração equivalente da competitividade de Flávio numa eventual disputa direta contra Lula.

Ao contrário: o conjunto dos levantamentos sugere que permanece disponível uma parcela significativa do eleitorado que hoje escolhe outros candidatos no primeiro turno, mas poderá se reorganizar quando restarem apenas duas alternativas.

É justamente por isso que o desempenho de Cury e Renan merece acompanhamento. Mais importante do que saber quantos votos eles possuem hoje será descobrir para onde esses eleitores caminharão numa eventual segunda rodada.

Centro-Oeste acende outro sinal

Para Mato Grosso, existe ainda um recorte particularmente interessante na pesquisa Atlas.

No Centro-Oeste, Flávio Bolsonaro lidera com 42,5%, contra 30,9% de Lula. Cury aparece com 13,5%.

É uma fotografia coerente com a força eleitoral que o bolsonarismo demonstrou na região nas últimas eleições, mas o desempenho de Cury chama atenção.

Há, entretanto, uma ressalva indispensável: a Atlas não divulgou margem de erro específica para esse subgrupo regional. Quanto menor o número de entrevistados de um recorte, maior tende a ser a incerteza estatística. Os 13,5%, portanto, devem ser tratados como indicação, e não como medida precisa do eleitorado do Centro-Oeste.

Ainda assim, o número sugere uma pergunta política relevante: existe dentro de uma das regiões mais conservadoras do país um eleitor de direita disposto a procurar uma alternativa ao candidato da família Bolsonaro?

Se as próximas pesquisas confirmarem esse movimento, a resposta terá consequências que ultrapassam a eleição presidencial.

Mato Grosso também entra nessa conta

Em Mato Grosso, a questão interessa diretamente às campanhas estaduais.

O Estado deu a Jair Bolsonaro algumas de suas maiores votações nas eleições anteriores e o campo político da direita continua predominante. A eleição estadual de 2026, porém, está dividida entre diferentes grupos que reivindicam parcelas desse mesmo eleitorado.

A eventual consolidação de Flávio Bolsonaro como candidato nacional dominante da direita favorece campanhas locais capazes de estabelecer associação direta com ele.

Uma fragmentação maior produz efeito diferente.

Quanto mais o eleitor conservador se distribui entre alternativas presidenciais, menor tende a ser a capacidade de uma candidatura estadual monopolizar a identidade da direita apenas pela vinculação nacional.

Esse movimento interessa particularmente à disputa pelo Governo e pelo Senado em Mato Grosso, onde candidatos situados no mesmo campo ideológico competem pelo eleitor que apoiou Bolsonaro nas eleições anteriores.

É cedo para medir qualquer efeito local. Mas já não é cedo para acompanhar a variável.

Uma fotografia, não uma sentença

Pesquisas eleitorais realizadas a pouco mais de um mês da votação ganham naturalmente maior importância, mas continuam sendo fotografias de um processo em movimento.

A propaganda eleitoral no rádio e na televisão acaba de começar. A campanha entrou numa fase de maior exposição dos candidatos. A judicialização aumentou. Os ataques entre Lula e Flávio ganharam intensidade. E ainda haverá debates, novas pesquisas e acontecimentos capazes de alterar a agenda eleitoral.

Por isso, a palavra mais importante neste momento é convergência.

Uma pesquisa isolada pode registrar uma oscilação circunstancial. Duas pesquisas, com metodologias diferentes, apontando perda de Flávio dentro de suas respectivas séries justificam atenção.

Ainda não justificam uma sentença.

As próximas rodadas mostrarão se estamos diante de simples oscilação ou do início de uma mudança na eleição.

E talvez a pergunta mais importante não seja apenas se Flávio Bolsonaro caiu dois ou quatro pontos.

É saber para onde está indo o eleitor que deixou de escolhê-lo.

 

Nota de Transparência

Esta análise utiliza resultados das pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus divulgadas em 31 de agosto de 2026. Na AtlasIntel, foram entrevistados 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto, por recrutamento digital aleatório. A margem de erro nacional informada é de 1 ponto percentual, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-07972/2026. A margem de erro nacional não deve ser aplicada automaticamente ao recorte do Centro-Oeste.

Os resultados e informações metodológicas foram confrontados com as publicações disponíveis sobre os levantamentos. Comparações entre pesquisas de institutos diferentes são utilizadas apenas para identificar eventual convergência de movimentos; os percentuais absolutos não são tratados como séries diretamente comparáveis.



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