A Operação Heritage mudou a composição da chapa que disputa a reeleição ao Governo de Mato Grosso, provocou mudanças no primeiro escalão do Palácio Paiaguás, tornou-se uma das principais armas da campanha ao Senado e abriu uma sucessão de disputas na Justiça Eleitoral.
O que não mudou de maneira mensurável, até agora, foi a intenção de voto nos dois candidatos diretamente associados ao grupo político atingido pela investigação.
A um mês do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, esta é a principal conclusão de uma análise realizada pelo Nossa República sobre os efeitos políticos e eleitorais da operação deflagrada pela Polícia Federal em 6 de agosto.
A comparação mais segura disponível está nas duas pesquisas Real Time Big Data realizadas depois da Heritage. Mauro Mendes tinha 27% das intenções de voto para o Senado na primeira e continua com 27% na mais recente. Otaviano Pivetta tinha 26% para o Governo e agora aparece com 27%.
Pedro Taques, que transformou a Heritage em um dos principais temas de sua campanha ao Senado, passou de 11% para 13%. A oscilação está dentro da margem de erro e ocorreu sem perda correspondente de Mauro.
Os números não permitem afirmar que nenhum eleitor tenha mudado de voto por causa da operação. Pesquisas eleitorais não acompanham necessariamente os mesmos indivíduos e não identificam relações de causa e efeito.
Permitem uma conclusão mais restrita: até a última medição disponível, não apareceu perda eleitoral mensurável dos principais candidatos politicamente atingidos pela Heritage.
A operação mudou a política e mudou a campanha. Seu efeito sobre o voto, até agora, não apareceu nas pesquisas.
A operação que atingiu o centro do poder
A Polícia Federal deflagrou a Heritage em 6 de agosto para investigar suspeitas envolvendo o acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a Oi.
Segundo a PF, há indícios de que a operação financeira tenha sido utilizada para desviar recursos públicos por meio de fundos de investimento em cascata e empresas interpostas, destinadas a ocultar ou dissimular a origem, movimentação e destino do dinheiro.
Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. O Supremo Tribunal Federal também autorizou quebra de sigilos bancário e fiscal, bloqueio e indisponibilidade de bens até aproximadamente R$ 316 milhões, recolhimento de passaportes, proibição de saída do país e restrições de contato entre investigados.
A PF investiga, em tese, crimes como peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada.
Investigação, busca, bloqueio patrimonial ou qualquer outra medida cautelar não representam condenação. As responsabilidades individuais permanecem sob apuração.
Mas os efeitos políticos começaram a aparecer cinco dias depois.
A Heritage refez a chapa
Em 11 de agosto, Fábio Garcia deixou a candidatura a vice-governador na chapa de Pivetta e voltou à disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados.
A relação entre a decisão e a Heritage não precisa ser presumida.
O próprio Fábio reconheceu que as restrições determinadas no âmbito da investigação, especialmente a proibição de contato entre pessoas alcançadas pelas medidas, pesaram na decisão. A situação criava dificuldades objetivas para uma campanha majoritária articulada com Mauro Mendes, principal liderança política do grupo governista.
Gisela Simona assumiu a candidatura a vice.
No mesmo dia, Mauro Carvalho deixou a Casa Civil.
Carvalho afirmou que pretendia dedicar-se à família, às empresas e à própria defesa. Ressaltou que não havia sido afastado por decisão judicial e negou participação no acordo investigado.
Adjaime Ramos assumiu o comando da Casa Civil.
São efeitos demonstráveis da crise política aberta pela Heritage. Não porque tenham ocorrido depois de 6 de agosto, mas porque existem manifestações e circunstâncias que permitem relacioná-los à operação.
A diferença é importante.
Nem todo acontecimento político posterior à Heritage foi provocado por ela. Sequência temporal não é causalidade.
Da investigação para a campanha
A operação rapidamente deixou de ser apenas um caso policial e judicial.
Wellington Fagundes passou a utilizar o acordo da Oi no confronto com Pivetta. Na disputa pelo Senado, Pedro Taques transformou a Heritage em eixo permanente de sua ofensiva contra Mauro Mendes.
A intensidade da disputa acabou levando o caso ao Tribunal Regional Eleitoral.
Decisões da Justiça Eleitoral restringiram propagandas nas quais acusações relacionadas à investigação eram apresentadas como fatos consumados. Houve também concessão de direito de resposta.
Essas decisões precisam ser interpretadas com precisão.
O TRE não julgou o mérito da Operação Heritage nem declarou inexistentes as investigações contra Mauro Mendes. Em uma das controvérsias, o próprio conteúdo de um direito de resposta concedido a Taques esclareceu que a Justiça havia restringido a forma utilizada na propaganda, sem declarar falsa a existência da investigação.
A fronteira estabelecida pela Justiça Eleitoral é outra: investigação pode ser discutida durante uma eleição; suspeita não pode ser automaticamente convertida em culpa comprovada.
A Heritage passou, portanto, a interferir também nos limites jurídicos da narrativa eleitoral.
O teste das pesquisas
Para verificar se toda essa turbulência chegou ao eleitor, é necessário evitar uma armadilha frequente: comparar percentuais de institutos diferentes como se constituíssem uma única série.
Quaest, Paraná Pesquisas, MT Dados, Real Time Big Data e outros levantamentos produziram fotografias diferentes da disputa durante agosto. Amostras, questionários, períodos de campo e metodologias variam.
A comparação mais consistente para o objetivo desta reportagem é aquela realizada dentro do mesmo instituto.
A primeira Real Time Big Data posterior à Heritage ouviu 1.600 eleitores entre 7 e 11 de agosto. A margem de erro era de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Wellington Fagundes tinha 34% para o Governo. Pivetta, 26%.
No levantamento divulgado em 3 de setembro, novamente com 1.600 entrevistados e margem de dois pontos, Wellington continua com 34%.
Pivetta passou de 26% para 27%.
É estabilidade estatística.
A constatação se torna particularmente relevante porque Pivetta não apenas pertence ao mesmo grupo político dos principais atingidos pela operação como precisou administrar seus efeitos no governo e reconstruir a própria chapa.
Ainda assim, a série Real Time não detectou queda de sua intenção de voto.
Mauro mantém os mesmos 27%
No Senado, onde a Heritage foi explorada de maneira ainda mais intensa, o resultado é semelhante.
Mauro Mendes tinha 27% no consolidado dos dois votos na pesquisa realizada entre 7 e 11 de agosto.
Na pesquisa divulgada nesta quinta-feira (3), continua com 27%.
Janaina Riva passou de 25% para 26%. Carlos Fávaro, de 13% para 14%. José Medeiros, de 12% para 13%. Pedro Taques, de 11% para 13%.
As oscilações permanecem dentro da margem de erro.
O comportamento de Mauro e Taques é especialmente importante para esta análise.
Durante praticamente todo o período entre as duas pesquisas, Taques utilizou a Heritage para confrontar Mauro. A investigação ganhou vídeos, entrevistas, propaganda eleitoral, postagens nas redes sociais e até um jogo digital construído em torno do bordão “Panhô?”.
Mesmo assim, Mauro não caiu na série Real Time.
E o crescimento numérico de Taques não pode ser apresentado como transferência de votos de Mauro: além de estar dentro da margem de erro, ocorreu sem redução do percentual do adversário.
A evidência disponível, portanto, não sustenta a tese de que a Heritage tenha provocado até agora perda eleitoral mensurável de Mauro Mendes.
R$ 14 milhões entram no último dia
Há uma ressalva importante.
A acusação potencialmente mais concreta apresentada por Pedro Taques surgiu somente nesta quinta-feira (3), depois de encerrado o campo da última pesquisa disponível.
Taques apresentou documentos que, segundo ele, permitiriam reconstruir parte do caminho do dinheiro investigado na Heritage.
Registros analisados também pelo Diário de Cuiabá confirmam uma sequência de movimentações financeiras: o Venture Finance Fundo de Investimento recebeu aporte milionário; posteriormente realizou uma operação de R$ 14 milhões com a Minerbrás Mineração, empresa ligada à família de Mauro Mendes; no dia seguinte, R$ 13,2 milhões foram transferidos pela Minerbrás para a Sollo Participações, holding familiar.
Taques sustenta que os R$ 14 milhões correspondem a parte dos recursos provenientes do acordo da Oi.
Esse elo ainda não está demonstrado publicamente.
Os documentos disponíveis permitem acompanhar a movimentação entre Venture, Minerbrás e Sollo, mas não estabelecem, até agora, de maneira independente, que o dinheiro recebido pelo Venture tenha origem nos R$ 308,1 milhões pagos pelo Estado.
Não há manifestação pública da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República ou do Supremo Tribunal Federal validando especificamente essa conclusão.
Até o fechamento desta edição, Mauro Mendes não havia se manifestado especificamente sobre a sequência de R$ 14 milhões e R$ 13,2 milhões apresentada por Pedro Taques, apesar das solicitações encaminhadas pela reportagem. Suas manifestações anteriores negam irregularidades na Operação Heritage e sustentam a legalidade do acordo com a Oi, mas antecedem a divulgação desses documentos.
A nova acusação, portanto, deve ser tratada como aquilo que é: uma afirmação de Taques apoiada em movimentações financeiras cuja existência pode ser documentada, mas cuja origem no dinheiro da Oi ainda precisa ser demonstrada.
Seu eventual impacto eleitoral também não pode ser medido pela pesquisa Real Time. O levantamento foi concluído antes de a acusação tornar-se pública.
Nota de Transparência
Esta reportagem é a primeira Prova de Campo do Sistema Editorial Inteligente do Nossa República (SEI-NR) e foi produzida a partir de monitoramento iniciado com a deflagração da Operação Heritage, em 6 de agosto.
Foram cruzados documentos e informações da Polícia Federal, decisões e atos judiciais tornados públicos, manifestações dos personagens envolvidos, dados eleitorais registrados na Justiça Eleitoral e cobertura jornalística utilizada de forma complementar. A comparação eleitoral privilegiou séries do mesmo instituto, períodos de campo e respectivas margens de erro. A repercussão nas redes sociais foi utilizada para avaliar agenda, narrativa e estratégias de campanha, nunca como representação estatística do eleitorado.
Ferramentas de inteligência artificial auxiliaram no monitoramento, organização das evidências, comparação de dados, identificação de contradições e auditoria de afirmações. A apuração, interpretação, edição e responsabilidade pela publicação são de Mauro Camargo.






