A eleição para o Senado em Mato Grosso começou a ganhar identidade própria nas redes sociais. Depois de semanas subordinada à disputa pelo Governo, a corrida pelas duas vagas passou a ser movimentada pela divulgação de pesquisas, pelo início da propaganda eleitoral e, principalmente, pela disputa do segundo voto.
Mauro Mendes e Janaína Riva ocupam as posições de maior visibilidade. José Medeiros procura transformar fidelidade ideológica em critério eleitoral. Carlos Fávaro aposta na relação com o governo federal e nos recursos destinados aos municípios. Pedro Taques tenta recuperar espaço com experiência jurídica e política.
As manifestações públicas observadas entre 24 e 30 de agosto não permitem medir a preferência dos eleitores. Elas mostram, entretanto, como cada candidatura procura ser percebida — e quais resistências encontra.
Mauro lidera, mas Heritage permanece
Mauro Mendes (UP) aparece à frente nos levantamentos e concentra a maior exposição da disputa. Sua campanha se apoia nos resultados dos anos em que comandou o Estado, na defesa da capacidade administrativa e na associação com o projeto de continuidade representado por Pivetta.
O principal contraponto continua sendo a Operação Heritage. Mesmo abaixo do pico de repercussão registrado no início de agosto, o caso permanece ativo em vídeos, comentários e reportagens compartilhadas. A investigação sobre o acordo entre o governo estadual e a Oi é utilizada por adversários para questionar Mauro e por seus apoiadores para sustentar a tese de exploração eleitoral de uma investigação ainda sem julgamento.
Essa distinção é indispensável: ser citado ou atingido por medida investigativa não equivale a condenação. Ao mesmo tempo, a existência da investigação é um fato de interesse público que não desaparece pela simples negativa do candidato. Janaina disputa autonomia e segunda vaga
Janaína Riva aparece em posição competitiva para a segunda cadeira. Sua visibilidade decorre da trajetória parlamentar, da presença regional e da capacidade de comunicação. Nas redes, apoiadores destacam experiência e independência; críticos apontam suas relações familiares e as alianças que sustentam a candidatura.
O desafio é demonstrar o que uma eventual senadora Janaína acrescentaria à representação de Mato Grosso. A pergunta sobre sua agenda futura tende a ganhar peso conforme a campanha deixar de ser uma disputa de reconhecimento e passar a exigir compromissos concretos.
Sua aliança com o grupo de Wellington também produz uma situação peculiar: Janaína e Medeiros podem compartilhar parte do palanque, mas concorrem diretamente pela segunda escolha do mesmo eleitor.
Medeiros radicaliza identidade
José Medeiros foi o candidato ao Senado que mais interferiu na disputa pelo Governo durante a semana. Ao atacar Wellington e classificá-lo como “melancia”, procurou se apresentar como representante ideologicamente mais fiel do eleitor bolsonarista.
A estratégia pode mobilizar um segmento já identificado com sua candidatura, mas apresenta dois riscos. O primeiro é limitar sua capacidade de buscar votos fora da base mais engajada. O segundo é fazer com que o eleitor do PL o responsabilize por uma divisão capaz de beneficiar adversários do partido.
Medeiros ganhou centralidade, mas não necessariamente ampliou sua candidatura. A repercussão foi grande porque o ataque ocorreu dentro da própria aliança, e não porque tenha apresentado uma nova proposta para o Senado.
Fávaro e Taques procuram espaço
Carlos Fávaro busca associar seu mandato a investimentos federais, agronegócio e atendimento aos pequenos municípios. A narrativa procura mostrar que a redução das desigualdades regionais depende de direcionar recursos também às cidades com menor capacidade fiscal.
Nas redes, enfrenta a rejeição ao governo Lula em Mato Grosso e a dificuldade de converter entregas administrativas em mobilização eleitoral. Sua oportunidade está em documentar, município por município, recursos, obras e resultados, evitando que a campanha dependa apenas da identidade nacional do PSD e de seus aliados.
Pedro Taques procura recuperar lembrança eleitoral por meio da experiência como procurador, senador e governador. Seu discurso encontra receptividade em segmentos interessados em direito, instituições e combate à corrupção, mas ainda aparece com menor capilaridade digital que os nomes mais bem posicionados.
Uma eleição ainda aberta
O Paraná Pesquisas apresentou Mauro com 52,3%, Janaína com 33,7%, Medeiros com 18,8%, Taques com 16,5% e Fávaro com 14,6% no cenário estimulado agregado. Na pergunta espontânea, porém, 62,4% não souberam indicar um candidato.
Os números não podem ser confundidos com uma definição antecipada das vagas. O eleitor dispõe de dois votos, pode escolher candidatos de campos opostos e ainda demonstra baixo conhecimento espontâneo sobre parte das opções.
É justamente nesse espaço que as campanhas procuram atuar. Mauro tenta consolidar o primeiro voto; Janaína, ocupar a segunda posição; Medeiros, impor um filtro ideológico; Fávaro, converter entregas em preferência; e Taques, recuperar densidade política.
Nas redes, a intensidade da militância pode criar a impressão de uma disputa já resolvida. Os próprios levantamentos mostram o contrário: há uma parcela expressiva do eleitorado que ainda não organizou suas duas escolhas.
Monitoramento semanal
Para acompanhar esse processo, o Nossa República publicará semanalmente o Radar NR. O monitoramento analisará conteúdos públicos, narrativas de campanha, reação de internautas, atuação de militância, possíveis movimentos coordenados e sinais de desinformação.
O objetivo não é converter curtidas e comentários em intenção de voto. É compreender como candidaturas, acontecimentos e argumentos circulam no ambiente digital — e identificar perguntas que o jornalismo precisa responder.
Nota de Transparência
Esta análise foi produzida a partir do Radar NR, levantamento qualitativo de manifestações públicas acessíveis entre 24 e 30 de agosto de 2026. Foram priorizados Instagram e Facebook, além de conteúdos públicos no YouTube, X, páginas institucionais, perfis de candidatos e veículos de comunicação. Os percentuais eleitorais citados foram divulgados pelo Paraná Pesquisas. A análise não representa pesquisa eleitoral, não mede todo o universo das plataformas e não permite afirmar, sem dados adicionais, que determinado alcance resulte de impulsionamento ou coordenação artificial.






