NOTICIÁRIO Segunda-feira, 04 de Maio de 2026, 09:51 - A | A

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SEGURANÇA PÚBLICA

Jovens morrem, Estado recua e facções avançam: alerta sobre escalada da violência em MT

Mauro Camargo

Mato Grosso vem assistindo a uma escalada silenciosa de homicídios, puxada principalmente por jovens homens assassinando jovens homens. Em entrevista à Cultura FM 90.7, o defensor público e mestre em Criminologia, Fernando Soubhia, foi direto: a explicação está na disputa feroz entre facções por territórios estratégicos. Não é coincidência; é dinâmica de guerra. “Quando falamos de jovens vitimizando jovens, estamos falando de facção contra facção”, afirmou.

Os números confirmam a gravidade. Segundo o Ministério da Saúde, com base no Datasus, mortes por arma de fogo já são a segunda principal causa de óbito entre jovens no Brasil, atrás apenas de acidentes de trânsito. Em Mato Grosso, onde quatro facções atuam simultaneamente, esse dado ganha contornos mais dramáticos. O IPEA já identificou o estado como aquele que mais concentra municípios da Amazônia Legal sob disputa territorial. Não há estabilidade possível onde há guerra contínua pelo controle do crime.

Soubhia refuta o discurso político fácil, tão repetido quanto ineficaz, de que aumentar penas reduziria a violência. O exemplo é o feminicídio: mais de uma década de endurecimento legal, campanhas, mecanismos de punição — e Mato Grosso segue entre os estados com maiores índices. “Se pena resolvesse, o feminicídio teria diminuído. A punição cresceu e o crime também”, afirmou. O mesmo vale para o enfrentamento às facções. “Solução fácil só interessa a quem busca voto, não resultado.”

Segundo ele, a entrada de jovens no crime é multifatorial. Cultura, desigualdade, ausência estatal, sensação de injustiça e oportunidades distorcidas compõem um ambiente no qual o tráfico se torna, para muitos, a alternativa mais pragmática. Não porque seja melhor. Mas porque o outro lado da fronteira simbólica — o da vida legal — muitas vezes oferece pouco e exige muito. A criminologia, lembra Soubhia, não trabalha com determinismo, mas com correlação: pobreza não produz crime, mas a forma como a pessoa vivencia sua pobreza, sim, pode levar ao risco.

A disputa entre facções, no entanto, não afeta só quem está dentro delas. Atinge também quem não tem qualquer vínculo. São trabalhadores desaparecidos após suspeitas infundadas, adolescentes executados por gestos percebidos como símbolos de facções, crianças crescendo sem pais, comunidades inteiras sitiadas. “Sempre há dano colateral”, disse Soubhia. “Nunca é apenas morte entre faccionados. Em qualquer guerra, há mortes colaterais.”

O impacto econômico disso é brutal. Jovens mortos interrompem ciclos produtivos, drenam a força de trabalho e alimentam o medo coletivo. Pesquisas mostram que regiões violentas pagam mais caro por transporte, por seguro, por energia, por serviços básicos. Há um custo invisível que pesa sobre toda a sociedade. “Não é só mais um CPF cancelado”, frisa o defensor. “É uma comunidade inteira que se desorganiza.

Soubhia explica que enfrentar facções só é possível quando o Estado deixa de reagir e começa a se antecipar. Uma das medidas mais eficazes é o policiamento orientado a hot spots, focado nos pontos onde os homicídios de fato acontecem. Mas isso exige outra postura policial — uma postura de presença e de vínculo, não de intervenção hostil. A comunidade, para ele, precisa confiar na polícia. Sem isso, o fluxo de informação seca e fortalece as facções, que ocupam rapidamente o espaço deixado pelo Estado.

A relação entre polícia e periferia também passa por revisão do modelo de atuação. O Brasil tem uma das maiores taxas de mortes por intervenção policial no mundo; Mato Grosso, uma das maiores do país. Não se trata de culpar a polícia individualmente, mas de reconhecer que o formato atual cria uma espiral de desconfiança e violência. Para Soubhia, instrumentos como câmeras corporais são indispensáveis para proteger policiais e cidadãos — e a resistência local ao equipamento é inexplicável. “Seguranças de shopping usam câmera corporal. Por que a polícia não pode usar?”, provocou.

Outro eixo essencial é atingir o coração financeiro das facções. Hoje elas operam como empresas sofisticadas: limpam dinheiro por fintechs, movimentam recursos via fundos, replicam modelos do mercado formal. Operações recentes na Faria Lima revelaram estruturas que rivalizam com conglomerados reais. Combater esse fluxo é mais eficiente do que multiplicar prisões de jovens pobres, substituíveis e descartáveis na lógica do crime.

Ainda assim, a recomendação mais dura de Soubhia é também a mais simples: o Estado precisa ocupar os espaços que abandonou. Educação, esporte, cultura, presença institucional. Ele cita o óbvio incômodo: em muitos bairros, quem organiza torneio de futebol, festa infantil, distribuição de cesta básica — e estabelece “ordem” — é a facção. O Estado chega tarde, quando chega. “Se a prioridade é reduzir homicídios, o dinheiro tem que ir para onde o problema está. Não pode ser gasto em publicidade.”

A entrevista avançou sobre o fenômeno de moradores recorrerem às facções para resolver conflitos. Casos assim têm se multiplicado. Soubhia foi taxativo: quem faz isso contrai dívida com o crime — e a cobrança vem. “Imagina o nível de desespero de alguém que prefere recorrer à criminalidade organizada em vez do Estado”, disse. É o retrato do colapso institucional: quando a população vê mais efetividade na sombra do crime do que na luz da lei.Questionado sobre a afirmação recorrente de que “a facção resolve”, ele responde com a objetividade que a criminologia exige: resolve para si, não para a comunidade. E cobra caro.

Para Soubhia, a condição de Mato Grosso precisa ser entendida com frieza. A taxa de homicídios cai no Brasil, mas sobe no estado. O motivo é cristalino: onde facções dominaram territórios, houve estabilização — a violência diminuiu porque a guerra terminou. No Nordeste, isso explica grande parte da queda dos homicídios. Em Mato Grosso, porém, a guerra está aberta. PCC, CV, Tropa do Castelar e Bonde dos 40 disputam rotas internacionais e controle de cidades inteiras. Não há hegemonia. E enquanto houver disputa, haverá sangue.

O defensor encerra com o alerta que deveria ser ouvido em Brasília, Cuiabá e em cada prefeitura deste país: criminalidade não se combate com frases de efeito. Não desaparece com promessas eleitorais. Não se resolve com mais pena. É um fenômeno complexo, histórico e teimoso. Exige políticas contínuas, inteligência, dados, especialistas. E tempo. “Quem disser que vai acabar com a criminalidade em quatro anos está mentindo”, diz. “Só quer o seu voto.”

Um Estado que não compreende isso continua enxugando gelo enquanto os corpos se acumulam e as facções se fortalecem. Mato Grosso é hoje o retrato mais nítido desse erro — e também o teste mais urgente para superá-lo.

As informações são da jornalista Michely Figueiredo, do Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7).

 

 



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