NOTICIÁRIO Terça-feira, 03 de Fevereiro de 2026, 11:14 - A | A

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POLÍTICA & PODER

Liderança feminina sob pressão e o tabuleiro de 2026 na análise de Karol Garcia

Mauro Camargo

A jornalista e pesquisadora em comportamento humano e neurociência Karol Garcia foi a convidada do Nossa República para uma entrevista que percorreu os temas mais sensíveis da política mato-grossense neste início de 2026. Com a precisão de quem transita entre redação, consultoria estratégica e estudos avançados sobre reputação e comportamento, ela analisou a crise de protagonismo na Câmara de Cuiabá, a força e as limitações das principais lideranças estaduais e o impacto emocional e simbólico do eleitor que irá às urnas no próximo ano.

Karol afirmou que a mesa diretora exclusivamente feminina da Câmara de Cuiabá não entregou (até agora) o simbolismo histórico que representava. Segundo a pesquisadora, a eleição do comando feminino foi celebrada como um marco democrático, um avanço simbólico e institucional importante e um sopro de renovação na política municipal. No entanto, passado o entusiasmo inicial, a prática revelou um distanciamento entre expectativa e realidade.

Para Karol, a Câmara tornou-se “menor do que as vereadoras”, especialmente pela postura de submissão política ao Executivo e pela falta de firmeza institucional. “É como um time que funciona no treino, mas não consegue jogar quando entra em campo”, resumiu. Ela considera que o problema não está na capacidade individual das parlamentares, que considera qualificadas e aguerridas, mas no comportamento coletivo que enfraquece o discurso histórico da representatividade feminina.

Ao perderem protagonismo, argumenta Karol, elas não apenas prejudicam seus próprios mandatos, mas oferecem munição aos setores que sempre resistiram à presença da mulher no poder. “Se enfraquece o discurso da representatividade, você fortalece quem sempre disse que mulher não dá conta do poder. E isso não é verdade, mas o comportamento atual reforça estereótipos”, afirmou.

A pesquisadora sugeriu que a mesa diretora reassuma a dimensão institucional do cargo, lembrando que a primeira secretaria não existe apenas para desempenhar funções administrativas, mas para representar a Câmara, defender sua autonomia e conduzir sua narrativa pública. Para ela, ainda há tempo de reposicionamento, desde que ocorra um gesto de autoconsciência e ruptura. “Saiam de cena por um instante, se olhem de fora e entendam que a instituição não pode ser menor do que vocês”, recomendou, destacando que reputação política é um movimento contínuo e nunca definitivo.

O desafio das lideranças estaduais

Ao contrário do desempenho da Câmara de Cuiabá, Karol destacou a deputada estadual Janaína Riva como um dos casos mais sólidos de protagonismo feminino no estado. Segundo a pesquisadora, a parlamentar construiu uma narrativa coerente ao longo dos anos, consolidou uma identidade política própria e se firmou como uma liderança que se mantém presente independentemente do calendário eleitoral. Karol relembrou o período em que Janaína repetia publicamente que “tinha CPF próprio”, separando sua trajetória da do pai, o ex-deputado José Riva, como marco fundamental para a construção de sua reputação. Essa postura, avalia, criou uma blindagem narrativa que hoje a credencia para disputar cargos mais altos, como o Senado. “Ela não é uma política sazonal. Ela está sempre alerta, sempre posicionada, e comunica com firmeza e autenticidade”, disse.

Sobre o tabuleiro eleitoral de 2026 e as figuras que se movimentam em direção ao Governo do Estado, Karol analisou o vice-governador Otaviano Pivetta, reconhecendo sua experiência administrativa, mas apontando que a comunicação dele “assusta”, não pela firmeza, mas pela dureza e falta de sedução. “Política é também sedução. É conexão. É entender o eleitor. E hoje o eleitor está mais sensível e menos tolerante. Não basta competência técnica; é preciso traduzir isso em humanidade”, afirmou. Para ela, Pivetta ainda não demonstrou disposição para dialogar com o eleitorado em campo aberto, etapa indispensável para quem pretende disputar o Executivo estadual.

Sobre o senador Wellington Fagundes, Karol destacou seu histórico como vantagem competitiva, lembrando que é um político conhecido, querido em muitos municípios e com longa trajetória legislativa. Mas ponderou que sua vinculação ao PL bolsonarista pode limitar sua mobilidade política, especialmente em um cenário em que a direita tenta se reorganizar após os desgastes do bolsonarismo. Segundo ela, a força do senador reside justamente em sua capacidade de transitar, e não em alinhar-se a extremos. Por isso considera que Wellington poderia se beneficiar de uma comunicação que reforçasse sua imagem de político articulador e não a de representante da ala mais radical da direita.

Ao avaliar Jayme Campos, Karol foi direta ao afirmar que o senador é um fenômeno político que “exala autoridade” e domina a narrativa popular. Para ela, Jayme tem carisma próprio, estilo espontâneo e capacidade natural de gerar fatos, elementos que o colocam em posição privilegiada para disputar o governo caso confirme entrar no jogo. Sua autenticidade, segundo a pesquisadora, dialoga com o imaginário do eleitor conservador mato-grossense e com a demanda emocional de um eleitorado que busca figuras fortes, francas e reconhecidas.

O eleitor de 2026 e a política como narrativa emocional

A partir de sua área de pesquisa, Karol analisou o comportamento do eleitor, destacando que vivemos um período em que a reputação política é volátil e que o eleitor se encontra dividido entre o cansaço e a expectativa. Disse que a Geração Z, por exemplo, não se move por ideologia, mas por benefício direto: “O que eu ganho com isso?”. Lembrou que a comunicação política hoje precisa ser simples, emocional e verdadeira — e que personagens artificiais não resistem ao teste do tempo. Citou ainda a busca inconsciente por narrativas heroicas, explicando que sociedades em crise tendem a procurar símbolos, personagens e histórias de superação que sirvam como guia. “O brasileiro busca a figura do herói. Isso está no inconsciente coletivo. Mas herói não se constrói em propaganda; se constrói em trajetória”, afirmou.

Na avaliação de Karol, a direita vive um momento de reorganização e carência de lideranças, buscando reconstruir seu discurso na figura de novos protagonistas, como o deputado Nicolas Ferreira. Mas destacou que, apesar do impacto midiático de Nicolas, seu perfil rígido o impede de liderar um movimento amplo. Em contrapartida, a esquerda conta com uma vantagem simbólica poderosa: Lula. Para ela, a disputa de 2026 será contra Lula, independentemente de quem venha a ser o adversário.

Karol encerrou dizendo que o eleitor está cansado da política performática e das figuras criadas artificialmente. O que fará diferença em 2026, afirmou, será a reputação construída ao longo do tempo, a coerência das escolhas e a capacidade de cada candidato apresentar uma história que faça sentido emocional e racional para o eleitor. “O eleitor quer verdade. Quer alguém que faça sentido. A política está menos sobre propaganda e mais sobre autenticidade.”

 



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