Uma melancia cortada diante das câmeras transformou em propaganda eleitoral uma guerra que o PL de Mato Grosso já não consegue manter nos bastidores.
No primeiro dia do horário eleitoral, o candidato ao Senado José Medeiros (PL) apareceu diante de uma melancia, cortou a fruta e advertiu o eleitor contra políticos que se apresentam como conservadores, mas seriam “vermelhos por dentro”.
Não pronunciou o nome de Wellington Fagundes.
Nem precisava.
O candidato do próprio PL ao Governo vem sendo chamado de “melancia” por adversários e setores bolsonaristas em razão de sua antiga proximidade política com os governos de Lula e Dilma Rousseff.
“Mato Grosso é o maior produtor de soja do mundo. Mas quando começa a eleição, o que mais brota por aqui é melancia”, afirmou Medeiros na propaganda. No encerramento, resumiu a mensagem: “Melancia é bom pra se comer, mas na hora de votar, não dá certo não”.
A fruta tornou-se assim o símbolo de uma contradição que ameaça acompanhar Wellington durante a campanha: ele é candidato a governador pelo partido de Jair e Flávio Bolsonaro, mas enfrenta resistência justamente dentro do eleitorado e das lideranças que reivindicam representar o bolsonarismo mais ideológico em Mato Grosso.
E a história política utilizada contra Wellington não é invenção das redes sociais.
Wellington esteve com Lula
Documentos oficiais da Câmara dos Deputados permitem reconstruir parte dessa trajetória sem depender da versão de adversários.
Em 1º de novembro de 2006, poucos dias depois da reeleição de Lula, Wellington subiu à tribuna da Câmara para parabenizar o petista pela vitória.
Na época deputado federal pelo PL, lembrou que seu partido participara do primeiro governo Lula indicando José Alencar para vice-presidente.
Wellington também registrou que havia apoiado Lula desde o primeiro turno e destacou a atuação do então governador Blairo Maggi para aumentar a votação do presidente em Mato Grosso no segundo turno.
Não se tratava, portanto, apenas de uma relação institucional entre parlamentar e presidente da República.
Era apoio político.
Quatro anos depois, Wellington voltaria à tribuna para defender outra candidatura petista.
E apoiou Dilma
Em 5 de abril de 2010, já filiado ao PR — partido resultante da reorganização do antigo PL — Wellington comemorou publicamente a decisão partidária de apoiar Dilma Rousseff.
Disse que o PR havia sido o primeiro partido, depois do próprio PT, a aderir à candidatura.
Também elogiou Dilma e fez uma avaliação positiva dos sete anos de Lula na Presidência, destacando estabilidade econômica, credibilidade internacional e políticas destinadas à redução das desigualdades.
São declarações registradas nos anais da Câmara.
Isso permite afirmar documentalmente que Wellington participou das alianças políticas que sustentaram Lula e apoiaram a eleição de Dilma.
Não permite, entretanto, concluir que Wellington seja hoje, ou em qualquer tempo, “de esquerda”, “petista” ou qualquer outra classificação ideológica. Mas ele paga o preço por seu pragmatismo político e sua compulsão por estar sempre ao lado do governo. Qualquer governo.
Essa é uma interpretação política utilizada por seus adversários.
E a trajetória de Wellington também mudou.
Do apoio a Dilma ao bolsonarismo
Wellington aproximou-se posteriormente de Jair Bolsonaro, ajudou a consolidar sua presença no PL e hoje reivindica pertencimento ao campo conservador.
Diante dos ataques, passou a lembrar que votou pelo impeachment de Dilma em 2016.
Nesta semana, respondeu diretamente ao rótulo de “melancia”.
Argumentou que, ao longo de seus mandatos, trabalhou com diferentes presidentes para conseguir investimentos para Mato Grosso e sustentou que sua atuação municipalista não distingue governos ou prefeitos pela filiação partidária.
Também afirmou ter ajudado na construção do PL e celebrou a chegada de Bolsonaro como responsável pela transformação da legenda na maior força partidária do país.
É essa trajetória, porém, que seus adversários agora transformam em vulnerabilidade eleitoral.
E não são apenas adversários externos.
A guerra está dentro do PL
O problema mais sério para Wellington talvez não seja a propaganda de Pivetta.
É a resistência dentro de seu próprio partido.
Abilio Brunini, prefeito de Cuiabá e uma das principais lideranças bolsonaristas do Estado, já comunicou ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que sua campanha será para Flávio Bolsonaro à Presidência, José Medeiros ao Senado e os candidatos proporcionais do partido.
Wellington e Janaína Riva ficaram fora da lista.
Abilio rejeita a composição feita pelo candidato a governador com o MDB e não pretende participar da campanha da chapa majoritária.
Agora surgiu uma dissidência ainda mais explícita.
O prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira, também do PL, participou na quinta-feira de evento sem Wellington e declarou apoio a Otaviano Pivetta para governador, Mauro Mendes e José Medeiros para o Senado.
“Sei que eu vou pagar um preço”, reconheceu publicamente.
O preço começou a aparecer.
Neste sábado, a crise já é tratada nos bastidores partidários como uma disputa que poderá alcançar o próprio comando do PL de Mato Grosso depois das eleições.
Pivetta aproveita a fruta
A campanha adversária percebeu rapidamente a oportunidade.
Pivetta também passou a utilizar a melancia como representação de Wellington nas redes sociais.
A coligação de Wellington recorreu ao TRE-MT para tentar suspender uma publicação impulsionada na qual uma fatia da fruta aparece no lugar do candidato do PL.
O pedido de retirada imediata foi rejeitado pelo juiz Marcelo Morgado, que não identificou, nesta fase, dano grave suficiente para justificar a medida liminar. A decisão não representa julgamento definitivo do mérito.
Cria-se uma situação eleitoral particularmente desconfortável.
Medeiros fornece o símbolo.
Pivetta o transforma em arma contra Wellington.
E Wellington precisa explicar por que o ataque produzido dentro de seu próprio campo político não se aplica a ele.
Flávio está com Wellington
Existe, porém, uma contradição adicional.
A rebelião de parte do bolsonarismo mato-grossense não significa que Wellington tenha perdido o apoio da cúpula nacional.
Flávio Bolsonaro já apareceu publicamente ao lado dele, pediu apoio à chapa e confirmou Janaína Riva e José Medeiros como seus candidatos ao Senado em Mato Grosso.
A composição PL-MDB também recebeu o aval da direção nacional do partido.
A eleição passa, portanto, a apresentar uma divisão incomum dentro da direita.
De um lado está a legitimidade institucional: direção nacional do PL e Flávio Bolsonaro avalizam Wellington.
Do outro está uma parcela importante do bolsonarismo local, representada por Medeiros e por lideranças como Abilio e Cláudio Ferreira, que rejeita integral ou parcialmente a composição.
A disputa passa a ser também pelo direito de definir quem representa Bolsonaro em Mato Grosso.
Muito além da melancia
A força da propaganda de Medeiros está justamente em sua simplicidade.
O eleitor não precisa conhecer a história das alianças partidárias brasileiras, saber que o antigo PL integrou o primeiro governo Lula ou lembrar que o PR apoiou Dilma em 2010.
Precisa apenas compreender uma fruta.
Verde por fora.
Vermelha por dentro.
O problema de Wellington é que sua trajetória oferece aos adversários fatos verdadeiros a partir dos quais constroem uma interpretação política discutível: ele efetivamente apoiou Lula e Dilma; disso não decorre automaticamente que continue alinhado ideologicamente à esquerda.
Essa distinção será fundamental para uma campanha que pretende disputar o eleitor bolsonarista.
A melancia, portanto, é apenas o símbolo.
A verdadeira disputa é outra.
Wellington conseguiu o PL. Agora precisa convencer uma parte do bolsonarismo de que também conseguiu tornar-se um deles.
Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida com cruzamento de fontes primárias e informações jornalísticas públicas. Os antigos apoios de Wellington Fagundes a Lula e Dilma Rousseff foram verificados diretamente nos registros oficiais de discursos da Câmara dos Deputados de 2006 e 2010.
A reportagem verificou ainda declarações públicas recentes de Wellington Fagundes, José Medeiros, Abilio Brunini, Cláudio Ferreira e Flávio Bolsonaro, além da decisão da Justiça Eleitoral relativa à publicação da campanha de Otaviano Pivetta.






