Um relatório da Polícia Federal produzido a partir da análise do celular de Daniel Vorcaro revelou uma sequência de encontros, mensagens e documentos que relacionam o ex-controlador do Banco Master ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O material foi tornado público nesta terça-feira, 1º de setembro, por decisão do ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o banco no STF.
A documentação registra pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes, mensagens enviadas pelo banqueiro ao ministro durante o avanço das investigações sobre o Master e a participação de Moraes na análise de uma minuta do contrato firmado entre o banco e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes. O acordo previa pagamentos que poderiam alcançar R$ 131 milhões.
As revelações provocaram reação dentro do Supremo, levaram a Procuradoria-Geral da República a questionar a legalidade de parte da investigação e desencadearam novos pedidos de impeachment de Moraes no Senado.
Fábio Faria aproximou Vorcaro e Moraes
Segundo o relatório da PF, o contato entre Vorcaro e Moraes foi intermediado pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria.
As mensagens mostram que Faria repassou ao banqueiro, no final de 2023, números de telefone de Moraes. Vorcaro salvou os contatos em sua agenda.
A documentação analisada pela PF indica pelo menos seis encontros entre o banqueiro e o ministro. Faria aparece em diferentes momentos intermediando reuniões e contatos entre os dois.
Em março de 2024, ao tentar organizar um novo encontro, Faria recebeu de Moraes uma mensagem informando que não conseguiria participar de um jantar, mas teria tempo para um encontro mais curto:
“Dá tempo de tomar um whisky.”
O diálogo foi encaminhado por Faria a Vorcaro.
Contrato poderia chegar a R$ 131 milhões
A PF também analisou documentos relacionados ao contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes.
Uma versão da minuta foi modificada em 15 de janeiro de 2024 por um perfil do Office 365 identificado nos metadados como “Ministro Alexandre de Moraes”. A alteração ocorreu depois de Vorcaro devolver uma versão do documento com revisões.
Dois dias depois, o contato identificado como “Vivi Moraes” encaminhou a versão final do contrato a Vorcaro.
O acordo previa remuneração mensal ao escritório e poderia atingir aproximadamente R$ 131 milhões durante sua vigência.
O escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro teve acesso ao documento. Em nota, informou que o setor de compliance consultou Moraes, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar a existência de possíveis impedimentos legais para a contratação.
Segundo o escritório, Moraes informou que não havia impedimento porque nunca havia julgado causa envolvendo o Banco Master e não estava prevista atuação da banca perante o STF no contrato.
A banca afirma que os serviços advocatícios foram efetivamente prestados.
“É o pagamento mais importante que temos”
Mensagens recuperadas do celular de Vorcaro mostram a atenção dedicada pelo banqueiro aos pagamentos ao escritório.
Em março de 2024, depois de ser alertado por Fábio Faria de que o pagamento não poderia atrasar, Vorcaro procurou auxiliares.
Em uma das mensagens, escreveu:
“Pqp. Não pagaram Barci de Moraes.”
Na sequência:
“Vamos ter problemas.”
Em outra comunicação, determinou:
“É o pgto mais importante que temos.”
Depois das cobranças, foi registrada uma transferência de aproximadamente R$ 3,4 milhões do Banco Master para o escritório.
Moraes participou de organização de fórum
Outro conjunto de mensagens analisado pela PF trata de um fórum jurídico realizado em Londres em abril de 2024, que teve Vorcaro entre seus organizadores.
Segundo as mensagens, Moraes opinou sobre a programação e participantes do evento.
Uma integrante da organização escreveu:
“Segui todas as recomendações que vieram do ministro.”
Em conversa entre Vorcaro e Fábio Faria, aparecem referências a convidados que teriam sido vetados por Moraes.
As mensagens também registram reclamações atribuídas ao ministro sobre a organização do encontro e sobre a posição de destaque concedida a determinados participantes.
Contatos continuam durante crise do Master
As mensagens analisadas pela Polícia Federal mostram que os contatos continuaram quando o Banco Master passou a enfrentar dificuldades e investigações.
Vorcaro utilizava um procedimento específico para parte das comunicações: escrevia mensagens no aplicativo de notas do telefone, produzia uma captura de tela e encaminhava a imagem pelo WhatsApp no modo de visualização única.
A perícia recuperou arquivos temporários e metadados e cruzou essas informações com registros dos aplicativos utilizados pelo banqueiro.
O relatório contém mensagens de Vorcaro relacionadas ao andamento das investigações e às autoridades responsáveis pelas apurações.
Em um dos registros aparecem referências a “Andrei” e “Paulo”. A PF relacionou os nomes ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
André Mendonça encaminhou o material à PGR e pediu manifestação sobre o conteúdo.
Vorcaro perguntou se deveria sair do país
Uma das mensagens foi enviada em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão de Vorcaro.
O banqueiro perguntou ao contato atribuído a Moraes:
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”
Vorcaro seria preso dois dias depois no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em uma aeronave particular.
A defesa informou na ocasião que a viagem internacional estava previamente programada.
“Conseguiu bloquear?”
A PF também recuperou mensagens enviadas por Vorcaro ao contato salvo em seu telefone como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Entre elas aparece a pergunta:
“Conseguiu bloquear?”
Segundo a reconstrução apresentada no relatório, as mensagens estavam inseridas nas tratativas de Vorcaro relacionadas às medidas que poderiam atingir o Banco Master.
Outros registros mencionam contatos com autoridades e iniciativas destinadas a evitar medidas contra a instituição.
Moraes já havia contestado anteriormente interpretações feitas a partir de parte dessas mensagens e classificou como “ilação mentirosa” a afirmação de que teria atuado para proteger Vorcaro.
“Dívida de vida”
Outro trecho do material registra agradecimentos de Vorcaro a Moraes depois de um encontro.
O banqueiro escreveu:
“Muito obrigado por tudo.”
Em outra passagem, declarou ter uma:
“dívida de vida”.
Vorcaro citou atuação junto ao Banco Central
As revelações também alcançam as tratativas para tentar viabilizar uma solução para o Banco Master.
Segundo mensagem obtida pela PF, Vorcaro afirmou a um diretor do Banco Central que Alexandre de Moraes daria um “aperto no Paulo”.
A conversa ocorreu no contexto das negociações para a venda de parte do Banco Master ao Banco de Brasília, o BRB.
André Mendonça leva relatório ao STF
André Mendonça retirou o sigilo do procedimento e pediu ao presidente do Supremo, Edson Fachin, a realização de uma sessão presencial para que os ministros discutam os novos elementos apresentados pela Polícia Federal.
A decisão sobre a realização da sessão cabe à Presidência da Corte.
PGR questiona investigação
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, questionou a legalidade da parte da investigação determinada por André Mendonça envolvendo autoridades citadas nas mensagens.
A PGR sustenta que o relator não poderia determinar de ofício o aprofundamento da apuração envolvendo outro ministro do STF sem a observância das regras específicas aplicáveis à investigação de integrantes da Corte.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também manifestou entendimento de que a ordem de Mendonça poderia gerar nulidade e caracterizar abuso de autoridade, segundo informação divulgada pelo UOL.
Senado recebe novos pedidos de impeachment
A divulgação do relatório provocou reação imediata entre senadores.
Carlos Viana apresentou formalmente novo pedido de impeachment de Moraes. Flávio Bolsonaro também defendeu a saída do ministro do Supremo.
Damares Alves, Esperidião Amin, Cleitinho, Izalci Lucas, Luis Carlos Heinze, Magno Malta e Alessandro Vieira também se manifestaram sobre o caso.
A Ordem dos Advogados do Brasil defendeu a apuração das informações reveladas.
Segundo a Folha de S.Paulo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, indicou a interlocutores que não pretende dar andamento imediato aos novos pedidos de impeachment e deverá aguardar a manifestação do próprio Supremo sobre a investigação.
Fávaro cobra explicações e admite impeachment
Em Mato Grosso, o senador Carlos Fávaro foi o primeiro integrante da bancada a apresentar uma manifestação específica sobre as novas revelações.
Em nota distribuída por sua assessoria nesta terça-feira, Fávaro cobrou explicações públicas de Alexandre de Moraes.
“Diante dos fatos revelados pela Polícia Federal, o ministro Alexandre de Moraes tem a obrigação de vir a público e explicar, com clareza, tudo o que aconteceu.”
O senador defendeu o direito de defesa do ministro:
“Ele tem direito à defesa, mas a sociedade também tem direito à verdade.”
Fávaro afirmou ainda que, na ausência de esclarecimentos, Moraes deveria renunciar ao STF. Caso isso não ocorra, defendeu a atuação do Senado:
“Se não houver explicação e também não houver renúncia, o Senado Federal precisa estar pronto para cumprir o seu papel e abrir imediatamente o processo de impeachment.”
“Ninguém pode estar acima das instituições, e a sociedade brasileira merece transparência, responsabilidade e respeito”, concluiu o senador.
Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida a partir do relatório da Polícia Federal tornado público por decisão do ministro André Mendonça. A versão do escritório Barci de Moraes sobre o contrato com o Banco Master e manifestações de Alexandre de Moraes relacionadas aos fatos foram incorporadas ao texto.
A manifestação do senador Carlos Fávaro foi encaminhada por sua assessoria ao Nossa República. Até o fechamento desta edição, não havíamos obtido posicionamentos dos senadores Jayme Campos e Wellington Fagundes sobre as novas revelações.






