A primeira semana da propaganda eleitoral no rádio e na televisão confirmou nas redes sociais uma disputa pelo Governo de Mato Grosso ainda concentrada entre Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes. Ao mesmo tempo, tornou mais visíveis as diferenças entre as estratégias adotadas pelos candidatos e os problemas que cada campanha terá de enfrentar até outubro.
O comportamento público dos internautas, contudo, precisa ser interpretado com cautela. Comentários, compartilhamentos e reações disponíveis nas plataformas revelam argumentos, sentimentos e movimentos de militância, mas não representam uma amostra estatística do eleitorado. Alcance digital tampouco equivale automaticamente a intenção de voto.
Entre 24 e 30 de agosto, dois levantamentos eleitorais forneceram o principal combustível da conversação. O Paraná Pesquisas apresentou Pivetta com 39% e Wellington com 35%. A Quaest mostrou Wellington com 27% e Pivetta com 23%. Nos dois casos, a diferença ficou dentro da margem de erro.
As campanhas utilizaram os resultados de maneira seletiva. Apoiadores de Pivetta destacaram o levantamento que o colocava numericamente à frente. Os de Wellington fizeram o mesmo com a pesquisa que favorecia o senador. Em parte dos cards e comentários, a informação essencial — o empate técnico — perdeu espaço para a tentativa de apresentar um vencedor.
Pivetta aposta na continuidade
Pivetta procurou reforçar a imagem de administrador e sucessor de um ciclo de investimentos. Obras, infraestrutura, educação, saúde e apoio de prefeitos apareceram com frequência nos conteúdos oficiais. A mensagem central é simples: Mato Grosso avançou e não deveria interromper esse percurso.
A estratégia tem a vantagem de oferecer realizações concretas para a campanha. Também produz uma fragilidade: Pivetta herda não apenas os resultados do governo anterior, mas seu passivo político. A Operação Heritage, que investiga suspeitas envolvendo o acordo de R$ 308,1 milhões entre o Estado e a Oi, continuou sendo usada para vincular sua candidatura a Mauro Mendes.
Nas manifestações críticas, aparecem questionamentos sobre continuidade, concentração de poder e relações entre governo e grupos econômicos. Na militância favorável, prevalecem entrega, experiência e crescimento. O debate espontâneo sobre a qualidade específica das políticas públicas ainda é menor que a reprodução de slogans e peças eleitorais.
Wellington enfrenta o conflito interno
Wellington Fagundes entrou na semana com a oportunidade de explorar a liderança numérica registrada pela Quaest. Sua campanha procura associar experiência política, presença nos municípios e distribuição da riqueza produzida pelo Estado.
O fato político mais relevante, porém, ocorreu dentro do próprio campo. José Medeiros, candidato do PL ao Senado, chamou Wellington de “melancia”, expressão usada para sugerir que alguém seria verde por fora e vermelho por dentro. O ataque revelou uma disputa sobre quem representa com maior autenticidade o bolsonarismo em Mato Grosso.
O episódio mobilizou apoiadores ideológicos, adversários e veículos de comunicação. Para os críticos de Wellington, reforçou a ideia de ambiguidade política. Para seus defensores, Medeiros passou a ser responsabilizado por enfraquecer a chapa do próprio partido. A repercussão desviou a campanha do confronto com Pivetta para uma discussão interna que não produz votos novos e pode afastar setores moderados.
Wellington ganhou exposição, mas perdeu controle sobre a narrativa da semana.
Candidata busca romper a polarização
Natasha Slhessarenko foi recebida de forma favorável em parte das manifestações relacionadas à propaganda eleitoral. Sua apresentação enfatizou mudança, cuidado e saúde, procurando diferenciá-la dos dois candidatos com maior estrutura.
O desafio é transformar avaliação qualitativa positiva em centralidade política. Com 8% nos dois levantamentos citados, Natasha aparece como terceira força, mas ainda tem seus movimentos descritos em função de Pivetta e Wellington. Sua oportunidade está justamente no desgaste recíproco dos líderes e na divisão do PL.
Para crescer, precisará demonstrar que representa um projeto completo de governo, e não apenas uma alternativa de linguagem e imagem.
O comportamento dos eleitores
Nas redes, a reação eleitoral ficou dividida em quatro conjuntos: militância organizada, divulgação oficial das campanhas, repercussão produzida por veículos de comunicação e manifestações aparentemente orgânicas de cidadãos.
A militância mostrou maior capacidade de repetição, sobretudo em torno das pesquisas e da identidade bolsonarista. As manifestações orgânicas foram mais dispersas e frequentemente relacionadas a problemas concretos — segurança, atendimento público, violência contra a mulher, queimadas e custo de vida.
O dado político mais importante talvez esteja fora da disputa direta entre candidatos. Na Quaest, 29% declararam voto branco, nulo ou em nenhum dos nomes, enquanto 8% estavam indecisos. Isso ajuda a explicar por que uma campanha ruidosa nas redes ainda pode conviver com uma eleição amplamente aberta fora delas.
Monitoramento semanal
O Nossa República passa a publicar semanalmente o Radar Político MT, monitoramento qualitativo das manifestações públicas acessíveis nas redes sociais. O trabalho observará tendências, argumentos, campanhas, militância, possíveis sinais de coordenação e desinformação, sempre distinguindo repercussão digital de pesquisa de opinião.
Nota de Transparência
Esta análise foi produzida a partir do Radar Político MT, levantamento qualitativo de conteúdos públicos acessíveis entre 24 e 30 de agosto de 2026, com prioridade para Instagram e Facebook e apoio de publicações no YouTube, X, páginas de candidatos, instituições e veículos jornalísticos. Foram considerados, entre outros fatos detonadores, os levantamentos Paraná Pesquisas e Quaest. O monitoramento não mede a totalidade das publicações, não identifica todos os conteúdos impulsionados e não representa pesquisa eleitoral ou amostra estatística dos eleitores.






