A retirada do Memorial Dante de Oliveira da Praça Rachid Jaudy, em Cuiabá, provocou uma troca de notas entre o Instituto Dante de Oliveira e a Prefeitura e recolocou em circulação uma pergunta antiga na política local: como a cidade decide onde guardar a memória de quem atravessou o país e voltou ao Estado como referência pública.
Em nota assinada por Leonardo de Oliveira, presidente do instituto, a entidade afirmou “repúdio à retirada do Memorial” e registrou que a decisão ocorreu “no momento em que a família enfrenta o luto pela perda de sua matriarca, Maria Benedita”. O texto afirma que não houve comunicação prévia e que isso gerou “surpresa e consternação” entre familiares e pessoas ligadas ao legado de Dante.
A Prefeitura respondeu dizendo que a revitalização do espaço virou alvo de “informações distorcidas” e citou “circulação de fake news” sobre um suposto “desmonte”. A administração municipal afirmou que nenhum item do acervo foi descartado e que “todos os pertences, comendas, quadros e peças históricas” foram recolhidos para “limpeza, recondicionamento e restauração”.
Segundo o Executivo, o acervo integrará uma exposição temporária no Museu do Morro da Caixa d’Água Velha. A nota informa que a curadoria será desenvolvida “em colaboração com o Instituto Dante de Oliveira” e que a exposição não será definitiva.
A Prefeitura também sustenta que a retirada foi “técnica e necessária”, por falta de infraestrutura adequada de conservação no local anterior. Ao tratar do próximo endereço, diz que, após o período expositivo e a reestruturação, o acervo deve retornar ao espaço ligado à Secretaria Municipal de Trabalho.
A Redação observa que, “aparentemente”, o memorial não deve voltar à Praça Rachid Jaudy e tende a ocupar o espaço onde hoje funciona a Secretaria Municipal de Trabalho. É nesse ponto que o debate deixa de ser apenas sobre acondicionamento de peças e passa a ser também sobre lugar simbólico.
O instituto afirma que a praça foi escolhida por estar em frente à residência onde a família construiu sua história por décadas e defende que a memória de Dante “não pertence a gestões ou mandatos”. A Prefeitura diz que a mudança busca preservar o acervo e ampliar o acesso público, com a exposição em museu.
A discussão sobre memorial e endereço puxa a biografia de um político que marcou o país pela pauta das eleições diretas. Dante de Oliveira foi deputado federal por Mato Grosso e apresentou, em 1983, a proposta de emenda constitucional que defendia eleições diretas para presidente, iniciativa que se tornou o principal símbolo institucional do movimento Diretas Já.
A emenda não foi aprovada na votação de 1984, mas consolidou a pressão política por mudanças e se tornou referência na narrativa da redemocratização. A trajetória nacional de Dante se firmou nesse cruzamento: Congresso, mobilização social e uma agenda que reposicionou o tema do voto no centro do debate público.
Em Cuiabá, a carreira ganhou outra camada: ele foi eleito prefeito na eleição municipal de 15/11/1985 (TSE/TRE), em um momento em que, durante a ditadura, as capitais passaram por um período de prefeitos nomeados por regras do regime instituídas a partir do AI‑3 (TRE — contextualização histórica).
Dante tomou posse em 01/01/1986 e ficou no cargo até 28/05/1986, quando se licenciou para assumir função no governo federal. Ele voltou à Prefeitura em 04/06/1987 e permaneceu até 01/06/1989 (TSE/TRE; cronologias públicas consolidadas).
No governo José Sarney, ele assumiu o cargo de Ministro de Estado da Reforma e do Desenvolvimento Agrário, chamado na época e no debate público de ministro da Reforma Agrária. O período confirmado de exercício no ministério vai de 28/05/1986 a 02/06/1987 (DOU/Biblioteca da Presidência; cronologia pública consolidada).
O caminho entre Cuiabá e Brasília foi parte do roteiro político de uma geração que saía de um ciclo autoritário e reorganizava instituições e disputas. No caso de Dante, a projeção das Diretas Já e a presença em cargo ministerial se tornaram passagens de uma biografia que voltaria a se concentrar, anos depois, no governo de Mato Grosso.
Ele foi eleito governador em 1994 e reeleito em 1998, exercendo o governo de Mato Grosso entre 01/01/1995 e 06/04/2002. A passagem pelo Palácio Paiaguás é frequentemente citada em debates sobre reestruturação administrativa, regras fiscais e capacidade de investimento do Estado.
É nesse trecho que surgem as discussões sobre instrumentos de financiamento e infraestrutura. O Fethab, o Fundo Estadual de Transporte e Habitação, foi instituído por lei em 2000 e passou a integrar o debate sobre recursos para estradas e logística, tema central para um Estado em expansão territorial e produtiva.
Na área de energia, o período também foi atravessado por decisões e projetos de ampliação de oferta e estabilidade do sistema, tema associado por aliados à redução de gargalos para atividade econômica. Na memória pública, obras e programas energéticos aparecem como referência recorrente quando se trata de infraestrutura para crescimento.
Na economia, Mato Grosso ampliou, ao longo dos anos 1990 e início dos 2000, sua participação na produção de commodities, com cadeias como soja, milho, algodão e carne. A relação entre políticas públicas, logística, energia e expansão produtiva segue como parte do debate sobre como o Estado se reposicionou no cenário nacional.
A polêmica do memorial recoloca essa trajetória sob um ângulo diferente: o do acervo e do espaço público. Para o instituto, o procedimento e o destino do memorial precisam ser tratados como decisão sobre memória coletiva; para a Prefeitura, o foco é conservação técnica, exposição temporária e reorganização do local de visitação.
No fim, a disputa atual soma dois planos: o administrativo, sobre onde e como ficam peças e documentos, e o histórico, sobre qual narrativa Cuiabá escolhe sustentar quando fala de um personagem que entrou na história nacional pelas Diretas Já e governou Mato Grosso em um período de mudança econômica.





