O ex-governador e candidato ao Senado Pedro Taques (PSB) afirmou nesta quinta-feira (3) que R$ 14 milhões movimentados pelo Venture Finance, fundo citado na investigação da Operação Heritage, foram transferidos para uma empresa ligada aos filhos do ex-governador Mauro Mendes (União). Segundo Taques, R$ 13,2 milhões chegaram no dia seguinte a uma holding pertencente à família.
A acusação foi apresentada durante transmissão ao vivo iniciada às 16h30 e detalhada em entrevista coletiva. Taques exibiu extratos, registros empresariais e informações de fundos de investimento que, de acordo com ele, permitem acompanhar parte dos R$ 308,1 milhões pagos pelo Governo de Mato Grosso no acordo firmado com a Oi em abril de 2024.
Os documentos apresentados por Taques não foram submetidos a contraditório durante a transmissão. A existência das transferências descritas pelo candidato e sua eventual relação com o dinheiro pago pelo Estado ainda dependem da conclusão da Polícia Federal e da análise do Supremo Tribunal Federal.
A Operação Heritage apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada. Não há denúncia criminal recebida nem decisão judicial que reconheça a prática dos crimes atribuídos por Taques aos envolvidos.
Venture teria repassado dinheiro à Minerbrás
Segundo a reconstrução apresentada pelo ex-governador, o Venture Finance tinha patrimônio de R$ 3.688 em 31 de maio de 2024 e recebeu posteriormente um aporte de R$ 18,6 milhões de um cotista cuja identidade não apareceria nos documentos consultados.
Taques afirmou que, em 7 de junho daquele ano, a Minerbrás Mineração apresentou cadastro aos administradores do fundo para realizar uma operação de R$ 14 milhões. A empresa teria emitido notas promissórias como lastro dos direitos creditórios adquiridos pelo Venture.
O dinheiro teria sido depositado na conta da Minerbrás no dia 11 de junho. Na manhã seguinte, segundo o extrato exibido na coletiva, a empresa transferiu R$ 13,2 milhões para a Solus Participações, holding que Taques atribuiu aos três filhos de Mauro Mendes. Os R$ 800 mil restantes permaneceram na Minerbrás.
O candidato também afirmou que as notas promissórias não foram pagas e que os créditos acabaram retirados da carteira do fundo aproximadamente seis meses depois. Para Taques, a baixa contábil sem cobrança demonstraria que a operação foi utilizada para transferir dinheiro, e não para conceder um empréstimo regular.
Essa conclusão é de responsabilidade de Pedro Taques. A apresentação pública não incluiu manifestação dos administradores do fundo, das empresas ou dos integrantes da família Mendes sobre a origem do aporte, a natureza comercial da operação e a baixa dos créditos.
STF já citou o Venture
O Venture Finance já aparece na decisão do ministro Flávio Dino que autorizou as diligências da Operação Heritage. Conforme o documento, a Polícia Federal considera o fundo um ponto de convergência entre dois núcleos investigados.
A decisão registra que estruturas vinculadas aos filhos de Mauro Mendes e à família do deputado federal Fábio Garcia (União) figuravam entre os cotistas relacionados ao Venture. Por intermédio do fundo teriam circulado R$ 33 milhões decorrentes da arquitetura financeira investigada.
O documento, porém, não representa conclusão definitiva sobre a origem criminosa das operações ou a responsabilidade individual das pessoas mencionadas. A decisão autorizou buscas, quebras de sigilo e bloqueio de bens por considerar presentes indícios suficientes para aprofundar a investigação.
A Polícia Federal informou oficialmente que a Operação Heritage investiga o possível desvio de aproximadamente R$ 308 milhões e cumpre medidas determinadas pelo STF. A corporação não divulgou os nomes dos investigados nem confirmou publicamente a movimentação específica apresentada por Taques.
A origem dos R$ 308 milhões
O acordo foi assinado em abril de 2024 para encerrar uma disputa relacionada à devolução de valores cobrados anteriormente da Oi. O Estado reconheceu uma obrigação de R$ 308.123.595,50, com pagamento direto à sociedade que havia adquirido o crédito da empresa de telefonia.
A Polícia Federal questiona a formação do valor, a dispensa do regime constitucional de precatórios, a velocidade da negociação e a destinação posterior dos recursos.
Duas semanas depois do acordo, o escritório Ricardo Almeida Advogados Associados indicou dois fundos para receber os pagamentos. O valor foi dividido igualmente entre Royal Capital e Lotte Word, com aproximadamente R$ 154 milhões destinados a cada estrutura.
A investigação sustenta que o dinheiro percorreu sucessivas camadas de fundos e operações empresariais. Parte dos recursos teria terminado em investimentos de baixa liquidez relacionados a empresas ligadas às famílias de Mauro Mendes e Fábio Garcia. O ministro Flávio Dino classificou o acordo, no contexto da decisão cautelar, como “aparentemente fraudulento” e reconheceu indícios de prejuízo ao erário.
Taques apresentou a movimentação entre Venture, Minerbrás e Solus como uma nova etapa desse caminho. Ele anunciou que levará as informações à Procuradoria-Geral da República e disse possuir elementos sobre outras operações que serão objeto de novas representações.
Mendes nega irregularidades
Mauro Mendes tem negado participação em desvios e sustenta que o acordo firmado pelo Estado foi legal. Em declarações anteriores, classificou as acusações de Taques como mentirosas, motivadas pela disputa eleitoral e destinadas a prejudicar sua candidatura ao Senado.
O ex-governador também afirmou que a negociação foi analisada pelos órgãos estaduais de controle e que não houve prejuízo aos cofres públicos. A investigação federal, contudo, permanece em andamento sob supervisão do STF.
Na coletiva, Taques contestou essa versão e afirmou que a existência de apurações no Ministério Público de Mato Grosso e no Tribunal de Contas demonstra que o caso não foi definitivamente encerrado no âmbito estadual.
Até o fechamento desta edição, Mauro Mendes, seus filhos, a Minerbrás e a Solus Participações não haviam apresentado manifestação pública específica sobre os documentos e as transferências divulgados por Pedro Taques nesta quinta-feira.
Nota de Transparência
A reportagem foi produzida a partir da íntegra da live e da entrevista coletiva de Pedro Taques. As alegações foram confrontadas com a comunicação oficial da Polícia Federal e com a decisão do ministro Flávio Dino na Petição 16.382. Os documentos exibidos pelo candidato não estavam disponíveis em formato que permitisse autenticação independente de todos os registros.






