Daniel Vorcaro foi ouvido pelo gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no mesmo dia em que deveria prestar depoimento à Polícia Federal em uma investigação sobre suspeitas de corrupção envolvendo ex-servidores do Banco Central. A audiência no STF ocorreu sem a participação da PF e permaneceu sob sigilo até ser revelada nesta semana.
A coincidência das duas oitivas acrescenta um novo elemento à crise aberta em torno das investigações do Banco Master. No dia 27 de agosto, a Polícia Federal informou que não havia conseguido ouvir Vorcaro por videoconferência em razão de problemas técnicos. O depoimento foi realizado no dia seguinte e durou aproximadamente quatro horas.
O que não havia sido informado naquele momento era que, no dia 27, Vorcaro também havia sido ouvido em uma audiência determinada pelo gabinete de Mendonça.
Audiência sem a Polícia Federal
O gabinete do ministro confirmou a realização da audiência depois que sua existência foi revelada pela imprensa. Vorcaro pediu para ser ouvido alegando que sofria “graves intimidações” e que precisava prestar depoimento com urgência.
A oitiva foi conduzida por um juiz auxiliar do gabinete de Mendonça e contou com a presença de um representante do Ministério Público. A Polícia Federal não participou. O gabinete sustenta que o procedimento foi regular e que o afastamento dos policiais observou normas destinadas a preservar a integridade física e psicológica de pessoas que relatam intimidação por investigadores.
O depoimento foi registrado em vídeo e permanece sob sigilo. Mendonça afirmou ainda que Vorcaro não tratou de Alexandre de Moraes durante a audiência.
A data da audiência, inicialmente não divulgada pelo gabinete, foi posteriormente confirmada como 27 de agosto.
Era justamente o dia em que Vorcaro estava convocado para prestar depoimento à Polícia Federal.
Depoimento da PF foi adiado
A oitiva policial estava prevista para ocorrer por videoconferência e integrava uma investigação sobre a atuação de dois ex-servidores do Banco Central suspeitos de receber vantagens para favorecer o Banco Master durante a supervisão da instituição.
A videoconferência não avançou. A informação divulgada naquele dia foi de que problemas técnicos na transmissão haviam impedido o depoimento. A audiência foi remarcada para 28 de agosto.
No dia seguinte, Vorcaro respondeu durante aproximadamente quatro horas às perguntas da Polícia Federal. Segundo a defesa, negou que tenha ocorrido corrupção envolvendo os servidores investigados e voltou a manifestar disposição para negociar uma colaboração premiada.
Duas tentativas anteriores de colaboração haviam sido rejeitadas pelos investigadores. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, a avaliação foi de que Vorcaro não havia apresentado fatos novos em relação às provas já obtidas e tampouco admitido participação nos crimes investigados.
Vorcaro tenta reabrir delação
O conteúdo integral da audiência conduzida pelo gabinete de Mendonça não foi tornado público pelo Supremo. Reportagem de Cezar Feitoza e Fábio Serapião, do UOL, afirma ter obtido acesso à íntegra da oitiva.
Segundo os jornalistas, Vorcaro procurou usar o depoimento para reabrir a possibilidade de colaboração premiada. Disse possuir informações sobre integrantes do governo Lula, afirmou ser vítima de um complô e fez acusações contra o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
As declarações são de Vorcaro e não foram acompanhadas, até agora, da divulgação de documentos que comprovem as acusações.
A Procuradoria-Geral da República analisou as alegações de intimidação e pediu o arquivamento desse procedimento. O procurador-geral Paulo Gonet considerou que Vorcaro não apresentou elementos concretos capazes de justificar uma investigação sobre as supostas ameaças.
PGR e Mendonça já divergem
A audiência ocorre em meio a outro confronto entre a Procuradoria-Geral da República e André Mendonça sobre a condução do caso Master.
Mendonça determinou à Polícia Federal o aprofundamento da análise de mensagens extraídas do telefone de Vorcaro que mencionam autoridades, entre elas Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. Depois de receber o relatório policial, o ministro retirou seu sigilo e defendeu que os novos elementos fossem examinados pelo plenário do Supremo.
Gonet reagiu pedindo a nulidade da investigação relacionada a Moraes. Para o procurador-geral, Mendonça não poderia ter determinado por iniciativa própria uma investigação específica sobre outro ministro do Supremo sem provocação do Ministério Público, da Polícia Federal ou autorização do plenário.
O caso também colocou Mendonça e a direção da Polícia Federal em posições distintas. Reportagens do UOL apontam insatisfação de integrantes da corporação com determinações do ministro relacionadas ao relatório sobre Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues.
Nesta quinta-feira, o ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, manifestou-se sobre as acusações envolvendo a corporação. Disse que buscar a verdade é interesse da Polícia Federal, da lei e da sociedade e manifestou confiança na instituição.
O diretor-geral da PF nega as acusações atribuídas a Vorcaro.
Caso Master chega ao plenário
A disputa sobre a condução das investigações ocorre enquanto o STF precisa decidir o destino das informações encontradas no telefone de Vorcaro.
Mendonça defende que o plenário analise os elementos produzidos pela Polícia Federal. Gonet sustenta que a parte da investigação relacionada a Moraes é nula.
Vorcaro permanece preso e é investigado na Operação Compliance Zero, que apura fraudes relacionadas ao Banco Master e às operações realizadas durante a tentativa de aquisição da instituição pelo Banco de Brasília (BRB).
Nota de Transparência
A matéria utiliza a confirmação do gabinete do ministro André Mendonça sobre a audiência, informações oficiais sobre o depoimento prestado à Polícia Federal em 28 de agosto e a manifestação da Procuradoria-Geral da República. O conteúdo ainda sigiloso da audiência de 27 de agosto é atribuído nominalmente à apuração de Cezar Feitoza e Fábio Serapião, do UOL. As acusações feitas por Daniel Vorcaro são apresentadas como declarações do investigado e não como fatos comprovados.
Agência Brasil — confirmação da audiência pelo gabinete de André Mendonça
Agência Brasil — depoimento de Vorcaro à Polícia Federal em 28 de agosto
UOL — apuração sobre o conteúdo da audiência de 27 de agosto
Agência Brasil — manifestação da PGR sobre a investigação envolvendo Moraes






