Por anos a fio, o cuiabano acostumou-se a tratar o Palácio Pascoal Moreira Cabral, sede do Legislativo Municipal, por um apelido que misturava vergonha e resignação: "Casa dos Horrores". Não era uma hipérbole gratuita. Era a constatação dolorosa de um parlamento que, legislatura após legislatura, transformava-se em balcão de negócios, palco de escândalos policiais, casssações circenses e uma submissão canina aos caprichos do Alencastro. Corrupção, improbidade e malfeitos eram a regra; a fiscalização, uma exceção estatística.
A eleição de 2024 trouxe um sopro de esperança que parecia, enfim, capaz de dissipar essa névoa tóxica. Cuiabá elegeu uma bancada feminina histórica. E não parou por aí: numa demonstração de força simbólica sem precedentes, elegeu uma Mesa Diretora composta 100% por mulheres. A promessa era clara, quase palpável: a sensibilidade, a ética e a força da mulher cuiabana iriam, finalmente, "limpar" a Casa. Acreditamos que a "Câmara das Mulheres" enterraria a "Casa dos Horrores".
Ledo engano. Bastou o primeiro teste de fogo — um teste moral, diga-se de passagem — para descobrirmos que a mudança foi apenas estética. A fachada ganhou o perfume da representatividade, mas nos corredores e gabinetes, o velho cheiro de enxofre da política rasteira continua impregnado nas paredes.
O caso do ex-secretário William Moraes não é apenas uma denúncia policial; é um raio-x moral da nova gestão municipal e de sua base aliada. Estamos falando de acusações gravíssimas de assédio sexual contra uma servidora e indícios robustos de corrupção, com triangulação financeira envolvendo empresa contratada pela Prefeitura (MT Pres) e pagamentos suspeitos via Pix. Ingredientes que, em qualquer parlamento sério do mundo, fariam as comissões de inquérito trabalharem em regime de plantão.
Mas em Cuiabá, a "nova política" do prefeito Abilio Brunini (PL) agiu com a velha e manjada eficiência das oligarquias que ele jurou combater. Em vez de abrir as gavetas e expor a verdade, o Executivo operou uma manobra de guerra para blindar o aliado. A ordem foi clara: lotar a pauta de CPIs inócuas ou requentadas para "furar a fila" e impedir, regimentalmente, que a CPI do Assédio fosse instalada. Uma tática covarde de quem teme a luz do sol.
E onde estava a "Câmara das Mulheres" enquanto essa tratorada acontecia? Onde estava a sororidade que enfeitou os discursos de posse?
Estava calada. Ou pior: estava operando a manivela do trator.
A Mesa Diretora feminina, presidida pela vereadora Paula Calil (PL), teve a chance de ouro de marcar sua posição na história. Poderia ter dito: "Aqui não. Nesta Casa, mexeu com uma, mexeu com todas. A investigação de violência contra a mulher terá prioridade absoluta sobre qualquer disputa política". Poderia ter usado a prerrogativa do cargo para aceitar a CPI, suspender o limite regimental diante da gravidade dos fatos, ou simplesmente liderar o coro por transparência.
Mas o que vimos foi uma submissão constrangedora. A Mesa Diretora agiu como um "anexo de luxo" do gabinete do prefeito. Preferiu proteger o CPF de um homem forte do governo a proteger a dignidade de uma mulher vítima de violência. Aceitou passivamente a manobra das "CPIs de Gaveta", lavou as mãos com notas de repúdio protocolares e ofereceu à sociedade um prêmio de consolação: uma Comissão Especial sem dentes, sem poder de polícia, sem capacidade de quebrar sigilos, feita sob medida para não dar em nada.
É doloroso constatar que a representatividade, sem independência, é apenas cosmética eleitoral. De que adianta ter mulheres no comando se a caneta continua obedecendo às ordens dos mesmos coronéis (agora travestidos de "novos políticos")? De que serve o empoderamento feminino no Legislativo se, na hora da verdade, a lealdade partidária fala mais alto que a defesa da vida e da honra das mulheres?
O prefeito Abilio Brunini, com sua retórica inflamada de combate à corrupção, também sai minúsculo desse episódio. Ao trabalhar nos bastidores para abafar a CPI, ele confessa, nas entrelinhas, que seu compromisso com a moralidade tem limite: o limite da conveniência. Atacar a "velha política" no Instagram é fácil; difícil é cortar na própria carne quando a podridão aparece no gabinete ao lado. Sua tentativa de desqualificar a investigação, alegando "proteção à vítima", é de um cinismo atroz. Quem protege a vítima é a Justiça e a Verdade; o silêncio só protege o agressor.
A "Câmara das Mulheres" nasceu com a missão de resgatar a imagem do Legislativo cuiabano. Em menos de dois meses nesse 2026, flerta perigosamente com o fracasso. Se continuar agindo como linha auxiliar de acobertamento de escândalos, não demorará para que a população perceba que a "Casa dos Horrores" não acabou; ela apenas foi reformada e pintada de rosa.
Ainda há tempo de corrigir o rumo. Mas a história não costuma ser gentil com quem, tendo a caneta na mão para fazer justiça, prefere usá-la para assinar a própria omissão. A sociedade cuiabana, as mulheres servidoras e, principalmente, a vítima que teve a coragem de denunciar, merecem mais do que notas de repúdio e comissões de faz de conta. Merecem um Legislativo que não tenha rabo preso nem medo de cara feia.
Por enquanto, o que temos é a triste constatação: mudaram os gêneros, mudaram os nomes, mas a vergonha continua a mesma.





