Com o avanço das redes sociais e o aumento do acesso à informação sobre saúde mental, um novo fenômeno tem chamado a atenção de especialistas: a psicopatologização da vida. O termo se refere à tendência de transformar emoções e comportamentos comuns — como tristeza, cansaço e irritação — em diagnósticos psiquiátricos.
Para a psicóloga Roberta Lima, o movimento exige cautela. “A psicopatologização da vida ocorre quando qualquer comportamento humano passa a ser entendido como um transtorno mental. Reações emocionais naturais começam a ser vistas como algo que precisa ser medicalizado ou curado”, explica.
Segundo a especialista, o acesso ampliado à informação é positivo, mas pode gerar distorções quando critérios diagnósticos são aplicados de forma superficial.
Vídeos curtos nas redes sociais frequentemente apresentam listas de sintomas que levam ao autodiagnóstico. “A pessoa se identifica com um comportamento pontual e já associa aquilo a um transtorno. Muitas vezes, não há avaliação de intensidade, frequência ou prejuízo funcional”, afirma.
Além do autodiagnóstico, há também casos de diagnósticos feitos por terceiros, sem qualquer formação técnica, a partir de situações isoladas.
O risco, segundo Roberta, é a banalização dos transtornos mentais, que são condições sérias e que exigem avaliação profissional criteriosa.
O perigo da medicalização excessiva
Outro ponto de atenção é a associação quase automática entre sofrimento e medicação. “Como o mal-estar é algo que queremos eliminar rapidamente, patologizar acaba sendo uma forma de encontrar uma solução imediata. A medicalização e a psicopatologização caminham juntas”, destaca a psicóloga.
Ela alerta ainda para o risco da automedicação ou do uso inadequado de medicamentos psiquiátricos, inclusive com aumento de doses sem orientação profissional.
Embora a medicação seja uma ferramenta importante em muitos casos, ela não substitui o acompanhamento psicológico e a análise do contexto de vida do paciente.
Roberta Lima chama atenção para a necessidade de observar fatores sociais, culturais e históricos antes de atribuir um diagnóstico. O burnout é um exemplo.
“Muitas vezes rotulamos o trabalhador como doente, mas não analisamos jornadas exaustivas, ambientes tóxicos ou condições precárias. O sofrimento não surge isoladamente”, pontua.
Nesse sentido, o diagnóstico não pode desconsiderar as circunstâncias que envolvem o indivíduo e apenas a medicalização não resolverá o problema. Ele, no máximo, será mascarado.
Crianças também são rotuladas
O fenômeno também atinge o público infantil. De acordo com Roberta Lima, comportamentos considerados incômodos por adultos, como agitação ou questionamentos, podem ser rapidamente associados a transtornos como TDAH ou transtorno opositor desafiador (TOD), sem avaliação aprofundada.
“Muitas vezes o incômodo é do adulto, não da criança. E medicar sem necessidade pode trazer efeitos colaterais e interferir no desenvolvimento”, explica.
Segundo ela, a infância é uma fase importante para que a criança aprenda a reconhecer e lidar com emoções, processo que pode ser prejudicado quando comportamentos naturais são suprimidos.
A psicóloga também observa que, em alguns casos, pode haver uma busca por pertencimento e por isso ocorre a psicopatologização da vida. Nas redes sociais, grupos se formam em torno de determinados diagnósticos, oferecendo acolhimento e identificação.
“O cuidado é para que experiências episódicas não sejam transformadas em rótulos definitivos. O diagnóstico deve ser resultado de avaliação técnica, não de identificação momentânea”, afirma.
Para Roberta Lima, é difícil afirmar que houve um aumento real no número de transtornos mentais. O que houve, segundo ela, foi um crescimento significativo da informação disponível. “Hoje temos mais acesso a conteúdos sobre saúde mental, o que é positivo. Mas precisamos evitar a banalização e o uso indiscriminado de rótulos”.
Diante da dúvida, a orientação é buscar avaliação profissional. O diagnóstico de um transtorno psicológico leva em conta critérios como intensidade, frequência, prejuízo na vida cotidiana e contexto em que o comportamento ocorre. Apenas uma análise qualificada pode diferenciar um sofrimento episódico de uma condição clínica.
“A informação é importante, mas o cuidado precisa ser fundamentado. O acompanhamento profissional permite compreender o que está acontecendo e escolher o melhor caminho”.




