A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Assédio Sexual, proposta para investigar denúncias contra o ex-chefe de gabinete da Prefeitura de Cuiabá, William Moraes, corre sério risco de não sair do papel. A avaliação pessimista, mas realista, é do próprio autor do requerimento, o vereador Daniel Monteiro (Republicanos).
Em entrevista concedida nesta terça-feira (10) aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, no Jornal da Cultura (Rádio Cultura FM 90.7), o parlamentar detalhou a "operação abafa" articulada pelo Palácio Alencastro para blindar a gestão do prefeito Abilio Brunini. Segundo Monteiro, o Executivo utilizou a base aliada para protocolar cinco CPIs simultâneas — o limite máximo permitido pelo regimento interno —, travando a pauta e impedindo que a investigação sobre o assédio sexual prospere.
"A preço de hoje, a CPI não tem chance de prosperar. Estamos com a pauta travada pelo segundo ano consecutivo. A Câmara só serve para investigar a gestão anterior aos olhos do Alencastro", disparou o vereador.
A única esperança, segundo ele, reside em duas frentes jurídicas e políticas: a possibilidade de a Procuradoria da Câmara rejeitar uma das cinco comissões governistas por "falta de objeto definido" ou a aprovação de uma mudança no Regimento Interno para aumentar o número de comissões simultâneas. "Hoje temos sete assinaturas firmes. Faltam apenas duas para atingirmos o quórum necessário, mas esbarramos na manobra regimental", explicou.
O "espectro" da corrupção e novos documentos
Durante a entrevista, o debate ganhou contornos ainda mais graves com a revelação de documentos exclusivos obtidos pelo site PNB Online. O comprovante de uma transferência bancária mostra que a empresa MT Pres, citada no boletim de ocorrência feito pela servidora vítima de assédio, recebeu mais de R$ 360 mil em verbas de gabinete de deputados federais do PL nos últimos dois anos.
O vereador Daniel Monteiro confirmou que a nova CPI protocolada ontem (09) — uma reedição da anterior, agora com o apoio da vereadora Maysa Leão (Republicanos) e Maria Avalone (PSDB) — já inclui o pedido de investigação sobre a relação financeira entre essa empresa e o gabinete do então deputado Abilio Brunini em Brasília.
"Deus está nas coincidências e o diabo mora nos detalhes. Descobrimos que o ex-chefe de gabinete usou a conta dessa empresa para transferir dinheiro 'em dobro' para a conta da servidora, alegando que era para pagar despesas. Agora, sabemos que essa mesma empresa tem contratos com a Prefeitura de Cuiabá desde 2020. Isso não é apenas assédio, é indício forte de corrupção", afirmou Monteiro.
O parlamentar classificou a situação como "grotesca e abjeta" e cobrou coerência do prefeito Abilio, que se elegeu com a bandeira do combate à corrupção. "Do que o Abilio está com medo? A máscara está caindo. Ele tenta me atacar pessoalmente porque não tem como explicar os fatos", completou.
A omissão da Mesa Diretora e o silêncio das vereadoras
Daniel Monteiro também criticou duramente a postura da Mesa Diretora da Câmara, composta integralmente por mulheres, que até o momento não se mobilizou de forma contundente para garantir a investigação do assédio sexual.
"A Mesa Feminina não sabia do assédio até quinta-feira, ok. Mas a partir de sexta-feira, quando a notícia explodiu com a exoneração do secretário, a postura deveria ter mudado. O que cobro é uma resposta institucional. Não podemos permitir que a Câmara se torne um 'anexo' do Alencastro", desabafou.
Sobre a proposta ventilada nos bastidores de criar uma "Comissão Especial" em vez de uma CPI, Monteiro foi enfático: "Comissão especial não tem poder de polícia, não quebra sigilo, não convoca, apenas convida. Isso seria uma patifaria anunciada para fingir que investiga sem investigar nada".
Em tom de desabafo, o vereador relatou estar "triste e decepcionado" com a blindagem política em torno de um caso que envolve a dignidade de uma mulher e possíveis desvios de recursos públicos. Ele fez um apelo direto à população cuiabana.
"A população de Cuiabá precisa se revoltar. Nós, vereadores, somos representantes, mas em determinadas situações o povo precisa protestar. Não permitam que isso passe de forma incólume. Estamos diante de uma gestão que governa para o Instagram e tenta calar quem ousa fiscalizar", finalizou.





