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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026, 11h:22 - A | A

ANTIVACINA

Mandato não substitui evidência científica

Mauro Camargo

Imagem retirada de puyblicação do vereador Rinaldi nas redes sociais

Rafael Rinaldi

O vereador de Cuiabá Rafael Ranalli (PL) transformou o combate à vacinação contra a covid-19 em uma frente de atuação política e digital. Em sete dias, entre 31 de julho e 6 de agosto, ele participou de 31 publicações contrárias aos imunizantes, 18 produzidas pelo próprio parlamentar, segundo levantamento publicado pelo portal ConexãoMT.

Os vídeos com contador público somavam mais de 430 mil visualizações, além de 12,9 mil comentários e 11,3 mil compartilhamentos. Ranalli também apresentou, em 2025, projeto de lei destinado a impedir multas ou sanções contra pais que não vacinassem os filhos contra a covid-19. A proposta foi retirada depois de receber parecer contrário.

A quantidade de publicações e o alcance obtido conferem interesse público ao caso. Não se trata apenas da opinião individual de um cidadão sobre o próprio tratamento médico. Trata-se da atuação de um vereador, policial federal e pré-candidato a deputado federal, investido de autoridade pública, difundindo alegações que podem afetar decisões de saúde tomadas por milhares de pessoas.

A reportagem do jornalista Rogério Florentino, do ConexãoMT, utilizada como referência desta pauta, identificou afirmações sobre ineficácia das vacinas, supostas mortes de jovens e militares, infartos, uso de tecidos fetais, ivermectina, hidroxicloroquina e a atuação do imunologista norte-americano Anthony Fauci.

O problema central dessas mensagens não está no direito de questionar autoridades sanitárias ou decisões adotadas durante a pandemia. Governos, laboratórios e cientistas devem ser fiscalizados. O problema surge quando episódios isolados, correlações temporais e informações retiradas de contexto são apresentados como evidência científica.

Coincidência não comprova causa

Uma das técnicas recorrentes na desinformação sobre vacinas consiste em mencionar que uma pessoa sofreu um problema de saúde “depois de ser vacinada”. A sequência cronológica pode despertar suspeita, mas não comprova causalidade.

Quando milhões de pessoas são vacinadas, parte delas sofrerá infarto, acidente vascular cerebral, câncer, infecções ou morte nos dias seguintes, independentemente da imunização. Para determinar se a vacina elevou a frequência de determinado evento, é necessário comparar grupos, analisar prontuários, controlar idade, doenças preexistentes e outros fatores de risco.

Essa é a função da farmacovigilância. Uma notificação de evento adverso não significa que a vacina causou o problema. Significa apenas que o episódio ocorreu depois da aplicação e precisa ser investigado.

A Anvisa explica que cada notificação passa por avaliação de causalidade, na qual são considerados comorbidades, medicamentos, doenças anteriores, hábitos de vida e evidências clínicas.

Associar automaticamente infartos ou mortes de jovens à vacinação, sem demonstrar que a incidência foi superior à esperada e sem estabelecer mecanismo causal, não é uma conclusão científica. É uma hipótese apresentada como fato.

Vacinas não são isentas de risco

A defesa da vacinação não exige ocultar efeitos adversos. Nenhuma intervenção médica é absolutamente livre de risco. Vacinas podem provocar reações comuns, como dor, febre e mal-estar, e, raramente, eventos mais graves.

As vacinas de RNA mensageiro foram associadas a um pequeno aumento no risco de miocardite e pericardite, especialmente entre adolescentes e homens jovens. Estudos publicados no New England Journal of Medicine estimaram incidências de poucos casos por 100 mil vacinados, geralmente com evolução clínica favorável.

No Brasil, a Anvisa informou que a incidência descrita na literatura variava entre 0,58 e 2,4 casos por 100 mil doses. Até a divulgação do comunicado, não havia sido confirmado no país nenhum óbito por miocardite ou pericardite com relação causal estabelecida com a vacina.

Reconhecer esse risco raro é diferente de afirmar que os imunizantes provocaram uma epidemia de infartos. A própria covid-19 eleva o risco de inflamação cardíaca, trombose e complicações cardiovasculares. A análise sanitária compara os riscos da vacina com os riscos da doença que ela previne.

A conclusão das principais agências reguladoras permaneceu a mesma: para as populações às quais foram recomendadas, os benefícios da vacinação superam os riscos conhecidos.

Proteção contra hospitalização e morte

As vacinas contra a covid-19 não impediram todas as infecções nem eliminaram a circulação do coronavírus. Essa limitação, conhecida desde o surgimento de novas variantes, não significa que tenham fracassado.

O objetivo mais importante da vacinação sempre foi reduzir formas graves, internações e mortes. Nesse ponto, os resultados são consistentes.

Modelagem publicada no The Lancet Infectious Diseases estimou que a vacinação evitou entre 14 milhões e 20 milhões de mortes no mundo apenas durante o primeiro ano de aplicação. Na Europa, um estudo da Organização Mundial da Saúde concluiu que os imunizantes reduziram em pelo menos 57% as mortes relacionadas à covid-19, preservando mais de 1,4 milhão de vidas.

A vacinação integra uma história mais ampla. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os programas de imunização contra 14 doenças salvaram pelo menos 154 milhões de pessoas nos últimos 50 anos, sendo 101 milhões de crianças com menos de um ano.

A alegação de que as vacinas são inúteis não encontra sustentação nesse conjunto de evidências epidemiológicas.

Ivermectina não substitui vacina

Ranalli declarou nas redes sociais que tomava quatro comprimidos de ivermectina mensalmente e que nunca contraiu covid-19. O relato pode descrever sua experiência pessoal, mas não permite estabelecer eficácia preventiva.

Uma pessoa pode não apresentar a doença por diferentes razões: menor exposição, imunidade prévia, infecção assintomática, vacinação ou simples acaso. Para testar um medicamento, são necessários ensaios clínicos com grupos comparáveis.

A revisão sistemática da Cochrane, referência internacional em avaliação de evidências médicas, concluiu que as pesquisas confiáveis disponíveis não sustentam o uso da ivermectina para prevenir ou tratar a covid-19 fora de ensaios clínicos adequados.

Isso não transforma a ivermectina em medicamento inútil. Ela continua indicada para determinadas infecções parasitárias. O que não foi demonstrado é benefício contra o coronavírus.

Também não há comprovação de que Anthony Fauci tenha “engavetado” estudos que demonstrassem eficácia de 60% ou 70% da ivermectina. Os números difundidos nas redes tiveram origem em agregadores de pesquisas que incluíram trabalhos de baixa qualidade, não revisados por pares ou posteriormente retirados por problemas metodológicos.

O silêncio de Fauci não condenou vacinas

Parte das publicações utilizou imagens da audiência realizada em 29 de julho no Senado dos Estados Unidos, durante a qual Anthony Fauci invocou a Quinta Emenda e deixou de responder a perguntas.

O silêncio foi apresentado nas redes como uma espécie de confissão. Essa interpretação não corresponde ao significado jurídico do ato nem ao tema da sessão.

A Quinta Emenda protege qualquer pessoa contra a autoincriminação. Seu exercício não equivale a admissão de culpa. Além disso, a audiência tratou da origem do coronavírus, do financiamento de pesquisas e de decisões tomadas durante a pandemia. Não produziu novos dados sobre eficácia ou segurança das vacinas.

Mesmo que uma autoridade sanitária tivesse cometido erros administrativos — hipótese que deve ser apurada por documentos e pelo devido processo — isso não alteraria os resultados de ensaios clínicos e estudos realizados por milhares de pesquisadores independentes em diferentes países.

A ciência não depende da reputação de uma única pessoa.

Proteção à infância não é escolha absoluta

O projeto apresentado por Ranalli procurava impedir sanções contra pais que não vacinassem os filhos contra a covid-19. A proposta confrontava o entendimento de que a autoridade familiar encontra limites no direito da criança à saúde.

Em março de 2025, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu que pais que deixam de vacinar os filhos podem ser submetidos à multa prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, quando o imunizante integra a política pública obrigatória.

Vacinação obrigatória não significa aplicação física forçada. Significa que o Estado pode estabelecer consequências administrativas para proteger a criança e a coletividade, observadas as contraindicações médicas.

A liberdade individual é um princípio constitucional, mas não opera de maneira isolada. Doenças transmissíveis envolvem riscos para terceiros, especialmente pessoas imunossuprimidas, crianças muito pequenas e pacientes que não podem receber determinadas vacinas.

Crítica exige responsabilidade

Rafael Ranalli tem o direito de criticar políticas sanitárias, decisões judiciais e medidas adotadas durante a pandemia. Também pode cobrar transparência sobre contratos, efeitos adversos e atuação das autoridades.

Mas um agente público não deveria converter dúvida legítima em certeza sem prova. Tampouco deveria utilizar mortes individuais, relatos pessoais ou estatísticas sem contexto para sustentar uma relação causal que os estudos não demonstram.

A experiência da pandemia mostrou que instituições científicas podem revisar orientações diante de novas evidências. Máscaras, intervalos entre doses, grupos prioritários e estratégias de isolamento foram ajustados ao longo do tempo. Essa revisão não é prova de fraude. É parte do funcionamento da ciência.

O debate público precisa admitir nuances: vacinas têm limitações e efeitos adversos raros; autoridades podem errar; decisões sanitárias devem ser fiscalizadas. Nada disso autoriza concluir que a vacinação foi inútil, que provocou uma onda de mortes ou que medicamentos sem eficácia comprovada foram deliberadamente escondidos.

Quando uma autoridade política promove essas conclusões para centenas de milhares de pessoas, a questão deixa de ser apenas liberdade de opinião. Torna-se um problema de responsabilidade pública.

 

NOTA DE TRANSPARÊNCIA

Esta reportagem tem como referência de pauta a investigação publicada pelo portal ConexãoMT sobre as publicações do vereador Rafael Ranalli. O conteúdo foi produzido de forma original, com consulta a documentos da Anvisa, do Superior Tribunal de Justiça, da Organização Mundial da Saúde e a estudos e revisões publicados em periódicos científicos. As declarações e publicações atribuídas ao vereador foram analisadas no contexto apresentado pelo veículo de origem. O Nossa República mantém espaço aberto para manifestação de Rafael Ranalli e para a apresentação de documentos científicos que possam acrescentar informações ao debate.

 



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