A aprovação unânime da RGA de 5,40% na Assembleia Legislativa esconde um cenário de isolamento político que chamou a atenção dos observadores mais atentos. Durante toda a sessão extraordinária, o que se viu foi um monólogo da oposição. Enquanto Janaína Riva, Lúdio Cabral e Valdir Barranco se revezavam em ataques à gestão fiscal do Estado, a base governista optou pelo silêncio. Não houve um único parlamentar disposto a subir à tribuna para defender o legado de Mauro Mendes ou justificar a impossibilidade técnica de quitar o passivo histórico de quase 20%.
Nos bastidores, a leitura é de que a base parlamentar preferiu não "carregar o piano" do desgaste junto ao funcionalismo em um ano eleitoral. Com o governador consolidado como pré-candidato ao Senado, os deputados estaduais, que também buscarão a reeleição, parecem ter calculado que o custo de defender o "caixa do Estado" contra o "bolso do servidor" era alto demais. Esse recuo estratégico entregou a narrativa de bandeja para a oposição, que foi rápida em protocolar uma PEC para reconhecer a dívida retroativa, criando um fato político que deve perdurar até outubro.
Entretanto, o silêncio não ficou restrito às galerias do Parlamento. O que mais impressionou foi a ausência de vozes do próprio primeiro escalão do Executivo. Em momentos de crise ou votações cruciais, é praxe que os "escudeiros" do governo ocupem espaços na mídia para pavimentar o caminho da decisão. Desta vez, o secretário-chefe da Casa Civil, Fábio Garcia, responsável pela articulação política, e o secretário de Fazenda, Rogério Gallo, guardião dos números e da tese econômica, mantiveram-se em um mutismo absoluto. Nem a política, nem a técnica foram apresentadas à sociedade como contraponto aos números da oposição.
O próprio governador Mauro Mendes, conhecido por sua postura assertiva e muitas vezes combativa em defesa de suas convicções fiscais, abdicou do debate público no dia da votação. Ao não argumentar em favor de sua decisão, o chefe do Executivo deixou um vácuo que foi prontamente preenchido por críticas severas. O governo parece ter operado sob a lógica do fato consumado: aprovou-se o índice possível, mas ignorou-se que, na política, a ausência de justificativa é frequentemente interpretada como falta de argumento ou, pior, como indiferença.
Esse "apagão" comunicacional do governo e de sua base valida, por omissão, o discurso de que o Estado possui saúde financeira de sobra — com os citados R$ 11 bilhões em caixa — mas carece de prioridade com o servidor. Para um gestor que pretende disputar uma vaga no Senado, o funcionalismo público não é apenas um item da folha, mas um exército formador de opinião. Ao entregar o índice sem defender a tese, o governo permitiu que a oposição se estabelecesse como a única voz de esperança para o resgate das perdas acumuladas desde 2017.
O resultado é uma vitória amarga. O governo venceu na planilha, garantindo um índice que preserva o equilíbrio das contas, mas saiu politicamente fragilizado ao permitir que a oposição capitaneasse o sentimento de injustiça do servidor. No vácuo deixado pelo silêncio de Mendes, Garcia e Gallo, a PEC do Passivo de Janaína Riva ganha corpo e se transforma na principal bandeira eleitoral contra o Palácio Paiaguás, prometendo ser o "fantasma" que assombrará os palanques governistas ao longo de toda a campanha.




