Há uma máxima na política mato-grossense que diz: "Junta-se pelo espanto, separa-se pelo desencanto". O governador Mauro Mendes (União Brasil), político hábil e pragmático, soube como poucos usar o "espanto" da crise fiscal de 2018 para montar uma das coalizões mais robustas da história recente do Estado. Naquele momento, o discurso era único: arrumar a casa, pagar salários, retomar obras. Era um projeto de Estado que permitia a união de divergentes em nome de uma causa maior.
Mas o tempo passou, a casa foi arrumada (com méritos inegáveis), o cofre encheu e o "espanto" acabou. Para 2026, o que resta é o desencanto de quem esperou na fila e a voracidade de quem quer sentar na cadeira principal. O cenário que se desenha para a sucessão estadual não é mais o de um grupo unido por propósitos, mas o de um condomínio de interesses conflitantes, onde a única cola que mantém as peças juntas — por enquanto — é o medo de perder o poder.
Diferente de 2018 e 2022, a eleição de 2026 não tem um inimigo comum nem uma missão salvadora. O que temos é o projeto do "Poder pelo Poder". E é justamente aí que mora o perigo para o Palácio Paiaguás.
O xadrez dos interesses individuais
Ao olharmos para a fotografia oficial do governo, vemos sorrisos e apertos de mão. Mas ao aplicarmos a lupa da análise política, o que se vê é um campo de batalha onde cada aliado tem uma agenda própria, muitas vezes incompatível com a do colega ao lado.
Comecemos pelo senador Jayme Campos. O cacique de Várzea Grande não é homem de aceitar "prato feito”, como costuma bradar aos quatro ventos. Ao ver Mendes articular abertamente a entrega do governo para Otaviano Pivetta (Republicanos), atropelando o União Brasil, Jayme sentiu o cheiro de queimado. Sua "rebelião" e o lançamento da pré-candidatura ao Governo não são apenas bravatas; são movimentos de sobrevivência. Jayme sabe que, num governo Pivetta — conhecido por seu estilo centralizador e pouco afeito a diplomacia política —, seu espaço e o de seu grupo minguariam. Para Jayme, 2026 não é sobre crescer, é sobre não desaparecer. E um animal político acuado é sempre perigoso.
Do outro lado, temos o vice-governador Otaviano Pivetta. Legítimo sucessor pela lógica da continuidade administrativa, Pivetta sofre da síndrome do "gerente competente que não gosta de gente". Ele quer a cadeira de governador, e a quer com a caneta cheia, sem ter que lotear secretarias para acomodar aliados que ele despreza no íntimo. Pivetta aposta tudo na transferência de votos de Mendes, mas esquece que eleição majoritária exige, além de obras, muita paciência para ouvir desaforos e abraçar quem não se gosta. Sua recusa em fazer o "beija-mão" político tradicional deixa a base aliada insegura e pronta para pular do barco na primeira tempestade.
E temos o próprio Mauro Mendes. O governador joga o jogo de sua vida. Sua candidatura ao Senado não é apenas um desejo político; é uma necessidade existencial. Mendes quer manter-se no topo da liderança política, tem aspirações presidenciais e precisa garantir influência em Brasília para seu grupo. Para isso, ele precisa eleger o sucessor. Mas sua obsessão em controlar o processo — impondo Pivetta e tentando barrar outras candidaturas ao Senado — criou um congestionamento na pista da direita que pode provocar um engavetamento fatal.
A “terceira via" e o fator Abilio
Correndo por fora, mas com motor V8, está a deputada Janaina Riva (MDB). Enquanto os "caciques" brigam na sala com ar-condicionado, a "Loba" percorre o interior, abraça prefeitas, sobe em palanques e constrói uma candidatura ao Senado que independe da benção do Palácio. Janaina percebeu o vácuo: Mendes e Pivetta falam de obras e números; ela fala de gente e emoção. Sua carreira solo é uma ameaça real à chapa "chapa-branca" que Mendes sonhava montar. Se ela decidir compor com Wellington Fagundes ou até flertar com uma via independente, implode a matemática governista.
E não podemos esquecer o "fator caos", personificado no prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini. Eleito com a benção (tardia) de Mendes e o apoio (velado) de Pivetta, Abilio governa para o Instagram e para a briga. Seu objetivo não é a gestão, é o confronto com o "sistema". Ele é uma bomba-relógio no colo do governo estadual. Cada crise na saúde de Cuiabá, cada embate estéril com o STF, respinga na imagem de seriedade que Mendes tenta vender. Abilio é o aliado que dá mais trabalho que a oposição.
A avenida aberta para a oposição
Diante desse quadro — um exército de generais onde ninguém aceita ser soldado —, as rachaduras no bloco governista deixam de ser fissuras e viram avenidas.
O ministro Carlos Fávaro (PSD), hábil condutor político, assiste a tudo de camarote. Ele sabe que não precisa vencer o bolsonarismo no grito. Ele só precisa esperar a direita se dividir. Com a máquina federal na mão e o discurso de "quem entrega os interesses do agro”, Fávaro se posiciona como a opção de estabilidade para quem cansar da briga de foice no escuro da base governista.
E há o outsider que conhece o caminho das pedras: Pedro Taques. Ressurgindo das cinzas com uma oposição inteligente e cirúrgica, Taques fala a língua que o servidor público e a classe média desiludida querem ouvir. Ao bater na tecla das "facções ricas" e da seletividade do combate ao crime, ele toca na fragilidade do governo Mendes: a arrogância de quem acha que números de planilhas justificam tudo.
O risco da soberba
A eleição de 2026 em Mato Grosso não será decidida por quem tem mais obras, mas por quem cometer menos erros. E, neste momento, a soberba do grupo governista — que acha que pode impor nomes, ignorar aliados históricos e governar por decreto eleitoral — é o maior cabo eleitoral da oposição.
O Palácio Paiaguás precisa entender que a "união pelo espanto" acabou. Se não construir rapidamente uma "união pelo respeito" e pelo diálogo, corre o risco de ver seu grandioso projeto de poder desmoronar não pela força dos adversários, mas pelo peso dos próprios egos. Afinal, em política, não há espaço vazio. E onde falta lealdade, sobra traição.
Mauro Camargo é jornalista, analista político e diretor do portal Nossa República.





